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27 setembro, 2013

ECOS DA "PATULEIA" EM TERRAS DE ALENQUER


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O TEMÍVEL CAP. LAURET E A SUA TROUPE
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Neste documento acima reproduzido, um ofício do Ministério do Reino ao Administrador do concelho de Alenquer, datado de 9 de Fevereiro de 1848, exige-se a bem da «(...) segurança pública do mesmo Concelho [que] sejam dali removidos [entenda-se, expulsos] o Major Cabral e o Capitão Lauret». 
Não sei quem tenha sido o Major Cabral, mas, acerca do Capitão Lauret, havia já lido uma crónica no "O Alemquerense" assinada por "Um Velho", cronista de boa escrita e muito espírito que, como facilmente se depreende das suas publicações que tiveram lugar nesse jornal a partir do n.º 192 de 15 de Novembro de 1891, seria, efectivamente, um senhor de provecta idade, pois havia vivido todos esses tempos agitados que se seguiram à revolução liberal de 1820.
Não sabemos se o Capitão Lauret foi, ou não, expulso do concelho de Alenquer, como se exigia ao Administrador, mas lendo a crónica abaixo ficamos a saber um pouco mais acerca dessa interessante figura que agitou a vila de Alenquer (e não só!) em meados do século XIX.
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- Castigo a um popular ao tempo da "Patuleia"
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O capitão Lauret

«Em Maio de 1846 organizou-se nesta vila uma força popular de cento e tantos homens que proclamou o governo provisório da Junta do Porto, contra o detestado governo dos Cabrais.
Esta força dirigiu-se a Santarém, apresentando-se à Junta governativa ali estabelecida, composta, além de outros, de Passos Manuel, Lobo d’Ávila, e dr. Quelhas, a qual encarregou do comando dela o capitão Lauret, encarregando o sr. Venâncio Carmo do pagamento do seu pré ou sustento e nomeando administrador do concelho o farmacêutico Domingos Afonso, pai do oficial da administração e curioso passarinheiro, sr. João Afonso.
Chamava o capitão Lauret a esta força minha troupe. Regressando a esta vila o sr. Venâncio incumbiu à gorda padeira Maria Paula o fornecimento do pão para a troupe.
Conduziu o capitão Lauret a troupe do seu comando a Torres Vedras, Lourinhã, Peniche, Óbidos e outros sítios, fazendo proclamar o governo da referida Junta do Porto.
Havia nesta troupe um coisa com uma corneta que, não sabendo tocar, buzinava sempre que entrava na vila. Ouvida a bulha da corneta corriam uns a tocar o sino da câmara, outros os sinos das igrejas, em sinal de satisfação pela chegada da marcial e aguerrida troupe, distinguindo-se o sineiro da igreja de Triana, porque o bom do ver. Prior Matias, que era considerado como afecto ao governo de Costa Cabral, recomendava ao sacristão que tocasse muito para que o não arguíssem de desafeição.
Que cólicas teve por aquele tempo o ver. Prior Matias! Não lhe era muito afeiçoado o administrador Domingos Afonso, mas o ver. Prior, para captar a sua estima, presenteou-o com um bom carneiro e um cântaro de azeite. É isto sabido pelo cirurgião Ramos que o faz público pelos jornais e, Domingos Afonso, tem a ingenuidade de mandar o presente para a Irmandade da Misericórdia o fazer vender em praça e arrecadar o produto na tesouraria, o que consta do livro de actas daquele tempo!
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Caiu o ministério cabralino que foi substituído pelo presidido por o Duque de Loulé que, em seguida, mandou dissolver as forças populares, o que foi comunicado ao capitão Lauret e recomendado ao sr. Venâncio a suspensão de qualquer abono, o qual por sua vez avisou a padeira Maria Paula para não continuar o fornecimento do pão.
O capitão Lauret, olvidando aquela comunicação, mandou dois janízeros da sua troupe pedir pão à Maria Paula; esta recusa a remessa. O capitão Lauret manda sair da forma em que estavam, debaixo do telheiro que havia na praça, outros dois janízeros e diz:
- Vá você fuzilar já Maria Paula.
E eles lá vão para cumprir a ordem, mas quando chegam à esquina do muro, ao fim da praça, diz o capitão Lauret:
- Oh não, vem cá, não fuzila vossemecê Maria Paula.
E assim escapou a gorda Maria Paula duma morte certa, dissolvendo-se a força popular por falta de pão, sem que o incidente se tornasse desagradável.
O capitão Lauret teve a sua residência no lugar da Espiçandeira onde nasceu seu filho, o bem conhecido professor de ginástica e esgrima sr. Paulo Lauret, e tinha diferentes criados ao seu serviço, mas logo que os ajustava dizia-lhes:
- Tu, em eu chamando por João, vem logo. E assim procedia com todos os demais que assoldava, quer se chamassem Manuel, Pedro ou Joaquim.
Perguntando pela razão desta singularidade respondeu:
- Eu quer que todos seja João, porque se eu chama por Manuel, Pedro ou Joaquim e não está o que eu chama, outro não responde; e assim chama por João, vem todos e eu é servido.».
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20 setembro, 2013

A REVOLTA DA PATULEIA

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UMA BASE DE GUERRILHA NO TERMO DA VILA DE ALENQUER
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- Arquivo Histórico Militar (PT AHM/DIV/1/27/08/393)

Corpo Franco de Cavalaria

Exm.º Senhor Barão de Ponte da Barca
Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros

Tendo-me sido indicada a Quinta da Barradinha, no termo de Alenquer como guarida da guerrilha que assola estes concelhos, dirigi-me para ali ontem: Porém querendo entrar na dita Quinta, vi hasteada em um ângulo da casa a bandeira Francesa quando a Quinta pertence ao guerrilheiro Adriano Pereira do Carmo.
Diga-me V. Ex.ª o que devo fazer porque desta sorte inúteis são os esforços das tropas fiéis quando os assoladores do País têm guarida certa à sombra de bandeiras e fantásticos privilégios Estrangeiros.
                                Deus Guarde a V. Ex.ª
             Quartel em Vila Franca 29 de Maio de 1847
                Diogo Pires Monteiro Bandeira - Coronel

- À margem o seguinte despacho:

Quando tiver a certeza de estarem ali os guerrilheiros deve atacar.

Para conhecimento ao Ministério dos Negócios Estrangeiros
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Por morte de seu pai Bento Pereira do Carmo em 1845, Adriano Pereira do Carmo, casado com D. Lourença de Assis Pereira do Carmo, tornar-se-ia proprietário das Quintas da Barradinha (Guizanderia) e da Provença, do mesmo modo que seu irmão Alfredo Pereira do Carmo, casado com D. Maria José Conceição Marques Pereira do Carmo se tornou dono das Quintas da Almadia e Casal do Galo de Ouro.
Seu pai foi um ilustre político do Liberalismo, e, pelos vistos, os seus filhos seguiram-no nos ideais mais avançados da época, tomando o partido dos Setembristas mais radicais. Mas, antes disso, estudaram ambos em Coimbra (onde seu pai também se tornou Bacharel em Leis) e sobre esses tempos da sua juventude encontrámos no O Alemquerense (n.º 272 de 1893) a seguinte referência:
«[Alfredo] foi estudar para a Universidade de Coimbra aos 15 anos tendo nesse tempo por condiscípulos o irmão Adriano Pereira do Carmo, Gonçalo de Sousa Lobo, José Lobo e muitos outros que pelas suas leviandades se tornaram o terror de Coimbra, sendo expulsos da Universidade e riscados em 3 de Julho de 1839 mas readmitidos depois por empenhos».
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- Conselheiro Bento Pereira do Carmo, pai de Adriano Pereira do Carmo e de Alfredo Pereira do Carmo.
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De jovens turbulentos passariam a políticos radicais. Alfredo assentou praça em Cavalaria e quando do pronunciamento "Setembrista" (esta corrente política opunha-se à Carta Constitucional, logo aos "Cartistas", e queriam uma Constituição feita pelos representantes eleitos do Povo) que eclodiu em Torres Novas e viria a ser secundado pela praça de Almeida, nele tomou parte já como alferes feito pela Junta Revolucionária. Quando Almeida capitulou Alfredo emigrou para França onde manteve até à "Maria da Fonte". Na sequência deste movimento foi amnistiado, e, tal como todos os revoltosos de Almeida manteve o posto e foi reintegrado. Assim, na sequência do movimento de 6 de Outubro de 1846 aí o temos como oficial "patuleia" às ordens da Junta Provisória do Supremo Governo do Reino (Porto), presidida pelo Conde das Antas com vice-presidência de José Passos. Nesse mesmo ano, em 6 de Outubro combate na célebre (e sangrenta) batalha de Torres Vedras onde os "cartistas" comandados por Saldanha derrotam os "patuleias" comandados pelo Conde de Bonfim. Nessa batalha esteve prestes a perder a vida, salva por um soldado do seu Regimento e amigo, Bértolo Ribeiro Seabra.
Assim, quando se dá o episódio descrito no documento acima, o guerrilheiro Adriano Pereira do Carmo tem o seu irmão Alfredo preso com os seus camaradas que haviam capitulado, a bordo da fragata "Diana" ancorada frente à Torre de Belém, onde esteve até Junho de 1847, data da Convenção de Gramido que pôs termo à Guerra Civil. Alfredo receberia de volta o posto de Alferes de Cavalaria (e seria longa e aventurosa a sua carreira militar) e colocado na inactividade. Adriano seria um viticultor como seu foi no final da vida.
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- Batalha de Torres Vedras (Gravura da Biblioteca Nacional).
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O documento acima revela-nos, ainda uma informação interessante: É ponto mais ou menos assente que após a Batalha de Torres Vedras, onde participaram pelos "patuleias" corpos de guerrilheiros, esses movimentos haviam desaparecido. Todavia, em Alenquer, persistiriam por mais algum tempo.

07 setembro, 2013

INVASÕES FRANCESAS

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UMA PETIÇÃO DO POVO DE ALENQUER A BERESFORD, CONDE DE TRANCOSO, EM 1811
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- Beresford e Wellington (Gravura da Biblioteca Nacional).
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Estamos, seguramente, na segunda metade do ano de 1812 (ou até em data posterior...), isso nos permite inferir uma alusão, no texto, à Batalha de Salamanca, onde o destinatário desta petição, William Carr Beresford, que comandou pessoalmente o ataque da 3.ª Brigada Portuguesa, ficou gravemente ferido. No entanto, já com os franceses em definitivo fora do território nacional, os alenquerenses, tão duramente castigados pela  primeira e terceira invasão e que tanto haviam trabalhado para a construção dessa intransponível muralha defensiva, as "Linhas de Torres", continuavam a ser mobilizados para essa hercúlea tarefa que se prolongou para além das invasões, não fosse Napoleão lembrar-se, de novo, dos irredutíveis portugueses.
Esta é, assim, uma petição dirigida a esse «protector»  do Povo português, o Marechal-General Beresford, Conde Trancoso, depois Marquês de Campo Maior e Visconde de Beresford na sua Inglaterra, já que S. A. R. o Príncipe Regente D. João (futuro D. João VI) se encontrava com a Corte no Brasil. 
Este precioso documento do Arquivo Histórico Militar é, pois, um impressionante testemunho do sofrimento dos alenquerenses, das injustiças que sofreram e de que não eram merecedores, já que estiveram, em força, na linha da frente da construção dessas afamadas "Linhas". E qual foi a resposta que obtiveram? À margem do documento está o Despacho: «Sem resposta». A iniquidade, os privilégios de classe, o desprezo pelo sofrimento popular, não são, ao que parece, um atributo dos dias de hoje.Neste País, são um mal que vem de longe...

Illm.º [Ilustríssimo] e Ex.mº Sr. Marechal General Conde de Trancoso

Os Povos das quarenta e oito vintenas (1) de que compõem o termo e vila de Alenquer, fiados na justiça e benignidade do grande carácter  de que V. Ex.ª tem dado provas no alto emprego, que S. A. R o Príncipe Regente (2) foi servido confiar-lhe, vão, Ex.mº Sr. cheios do mais profundo acatamento levar à presença de V.ª Ex.ª esta respeitosa súplica.
Quando em 1809 se começaram a construir  as linhas de defesa de Alhandra e Torres Vedras [Linhas de Torres], foram os Povos de Alenquer os que mais se esmeraram em fornecer numerosos destacamentos para a feitura desta grande muralha da independência nacional. Os seus serviços tiveram uma recompensa digna do zelo e patriotismo com que foram prestados: Os Suplicantes [peticionários, requerentes] viram com prazer que toda a fúria dos exércitos franceses se quebraram nesta muralha da nossa liberdade; e estamos [convictos], por terem seguido o virtuoso exemplo de seus Avós, que sempre acudiram com presteza aos apertos da Monarquia. Trazem no coração o Ilustre General, que tirou tão sabiamente partido das vantagens do terreno.

- Como se vê, os de Alenquer dirigem-se ao ilustre militar - e depois Governador do Reino -elogiando-o e relevando o papel que eles, alenquerenses, desempenharam na construção das fortificações das Linhas de Torres, sentindo-se recompensados pelo papel determinante que estas desempenharam para a derrota do inimigo. Mas...

Todavia, Exm.º Sr., a devastadora invasão de 1810 apoucou os recursos dos Suplicantes: a guerra, a fome e as moléstias reduziram a mil e cem o número dos trabalhadores da vila e todo o seu termo; e os empregados públicos encontram a maior dificuldade em preencher os destacamentos que lhes são exigidos [para os trabalhos da] fortificação.
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 - Batalha do Vimeiro (gravura da Biblioteca Nacional).
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Estavam os Suplicantes esperançados em que os gloriosos feitos do exército Aliado reduziriam o número de requisições e dos requeridos: encheram-se de alegria quando viram que a memorável batalha de Salamanca, em que V.ª Ex.ª derramou o seu sangue em nossa defesa (penhor eterno de amor e fidelidade à pessoa de V.ª Ex.ª), arrojara os Franceses da Capital de Espanha para a extremidade das duas Castelas; mas a sorte individual dos Suplicantes não melhorou com este sucesso.
Um destacamento de trezentos homens é todos os quinze dias enviado do termo de Alenquer para trabalhar nas linhas de fortificação, empregam-se as medidas mais violentas para completar este número, chegando-se ao extremo de prender na cadeia pública as mulheres de muitos desgraçados que desamparam o seu seu país natal (3) e se retiram para as povoações vizinhas para se remirem de tamanho vexame; os que faltam por algum motivo legítimo são taxados arbitrariamente em mil e seiscentos e até dois mil réis para pagamento (como nos inculcaram) de quem por eles trabalha nas ditas fortificações.

- Com os franceses praticamente expulsos da Península, os trabalhos nas Linhas continuavam, e os alenquerenses, que tanto se haviam alegrado (e esperançado) com o insucesso napoleónico a partir da sua derrota em Salamanca, continuavam, também eles sujeitos a medidas violentas que os amarravam e subjugavam ao trabalho nas fortificações. A sua sorte não mudara...
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- Pormenor de uma gravura de Ribeiro Cristino mostrando a Real Fábrica de papel que logrou resistir às invasões.
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A Agricultura, Exm..º Sr., esta actividade fecunda da prosperidade pública e base mais sólida dos Impérios bem constituídos, foi a primeira que se ressentiu dos efeitos daquelas medidas. Um termo que tem mais de trinta léguas quadradas, não é possível cultivar-se só com oitocentos homens que ficam disponíveis da massa total da sua povoação. Alguns proprietários ricos e mais acreditados na corte, procuraram e obtiveram isenções e privilégios para os trabalhadores que amanhavam os seus prédios; mas estes privilégios agravaram o mal em vez de o remediar, porque redundaram todos em prejuízo da parte não privilegiada dos habitantes.
Seguiu-se daqui que muitos prédios não se cultivaram nem cultivam por falta de braços, e que os terrenos mais pingues [férteis] se convertem em baldios com grave dano do público e dos particulares, que não colhendo o fruto das suas terras mal podem satisfazer as contribuições e tributos destinados a manter a guerra.
Por outro lado Exm.º Sr., o miserável jornaleiro, que só tem o seu braço para sustentar-se, a si e à sua desditosa família, não pode preencher estes deveres sagrados com os mesquinhos dois tostões que se lhe pagam nas linhas e que apenas chegam para o seu diário passadio; e muito menos pode pagar todos os quinze dias o pesado tributo de dezasseis tostões ou dois mil réis a quem por ele desempenha aquela obrigação.
Os Suplicantes, tendo a honra de levar à presença de V. Ex.ª esta reverente súplica, protestam ao mesmo tempo que estão prontos a fazer todos os sacrifícios para a salvação da Pátria: mas eles sabem que os extremos só se devem exigir na extremidade (4); e graças ao valor das tropas Aliadas, e aos grandes Generais que as comandam, Portugal não se acha agora, nem provavelmente se achará mais nesse deplorável estado.
Além de que, todos os lugares e vilas comarcãs de Norte e Sul do Tejo, como Salvaterra, Benavente, Azambuja, Aveiras, Alcoentre, e outras muitas, não têm fornecido um só homem para trabalhar nas linhas; e se o bem que delas resulta, é um bem geral, não há motivo algum razoável para que os Suplicantes vivam oprimidos e seus vizinhos os não ajudem a suportar o peso do serviço público.
Tal é, Exm.º Sr., a singela e fiel narração do que padecem os Suplicantes há dois anos a esta parte; e só V,. Ex.ª é quem lhes pode dar o conveniente remédio: os Suplicantes assim o esperam com a maior confiança.

- Daqui ressalta, com clara evidência, o prejuízo para a Agricultura - principal actividade económica à época - ocasionado por estas mobilizações forçadas e já injustificadas, mal pagas, excessivamente punidas mesmo quando os incumpridores tinham motivo justificado. Por outro lado, os privilégios dos grandes proprietários que, ainda por cima, faziam recair sobre os restantes trabalhadores mais trabalho forçado, na medida em que diminuíam a base de recrutamento. De notar ainda a situação de excepção (negativa) dos habitantes de Alenquer em relação aos habitantes dos concelhos vizinhos isentos deste trabalho. Como se não bastara terem sofrido mais do que outros as agruras da invasão por viverem à beira das Linhas, mas fora delas, ainda tiveram que suportar por largo tempo esta discriminação.
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E. R. M.
(seguem-se 25 assinaturas em duas páginas, reproduzindo-se a primeira delas)

(1) Vintena - Antiga divisão administrativa já referenciada nas Ordenações Afonsinas e extinta com o Liberalismo. Correspondia a 20 vizinhos (chefes de família) agrupados numa "Cabeça", lugar ou aldeia.
(2) S. A. R. O Príncipe Regente - Sua Alteza Real o Príncipe Regente (D. João, futuro D. João VI).
(3) seu país natal - Curioso que ainda se utilizasse esta expressão para definir "terra natal", no caso Alenquer.
(4) os extremos só se devem exigir na extremidade - Interpreto como: os grandes sacrifícios só se devem exigir em tempos extremamente difíceis.

Fonte: PT AHM/DIV/1/14/186/29.

Nota: O texto foi por mim adaptado ao português actual no grafismo de algumas palavras, na pontuação e em raros casos na construção de frases.
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 O primeiro signatário deste documento, Gonçalo Manuel Peixoto, era primo de D. Miguel Pereira Forjaz, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Guerra, mas, nem por isso, a petição viria a ter melhor acolhimento. Tomámos conhecimento desta relação de parentesco ao consultar um outro documento em que Gonçalo Peixoto se dirige ao seu "primo", em resposta a uma missiva desse abordando uma questão sobre solípedes.Talvez esse parentesco justifique ter sido ele o primeiro a assinar...

06 agosto, 2013

ALENQUER - TERRA DE CICLISMO E DE CICLISTAS

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A PROPÓSITO, A "VOLTA" ESTÁ AÍ...
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Gosto do Ciclismo, gosto deste desporto verdadeiramente popular, porque é o único que vai até à porta de cada um. Desde que me reformei e as televisões passaram a dar em directo todas as voltas e os clássicos, aí estou eu de olhos no televisor papando o Giro em Maio, o Tour em Julho, a Volta em Agosto, não esquecendo que o Setembro ainda nos trará a Vuelta. Isto, falando só do principal, porque ainda há a volta à Turquia, à Polónia, aos Países Baixos, à Califórnia... Bem, mais os Campeonatos, os Jogos e os grandes prémios denominados clássicos.
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Julgo que esta minha paixão pelo ciclismo (logo eu que só monto uma bicicleta sem rodas...) tem muito a ver com a Alenquer da minha infância. Brincávamos no jardim frente aos Paços do Concelho e parávamos embasbacados para ver passar, a grande velocidade, o Pedro Polainas, na sua camisola do Sporting, em direcção à Judiaria onde ia visitar uma sua irmã, aproveitando para isso o treino quase diário.
Depois, eram os grandes circuitos à Vila que por aqui chegavam a juntar 50.000 pessoas para verem o Alves Barbosa discutir rijamente o primeiro lugar com o Ribeiro da Silva.
Por isso, as imagens que se seguem, feitas aqui em Alenquer, são como que um meu (modesto) tributo à modalidade, como já disse, uma paixão que nem mesmo o que aconteceu com o meu maior ídolo, o americano Armstrong, esfriou:
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- Reparem como aqui é ela que está a dar-lhe a táctica...
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- Sem eles as provas de ciclismo não seriam possíveis. E são tantas vezes esquecidos...
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- Concentrado, o ciclista em primeiro plano reza para que tudo lhe corra bem ou sonha com a vitória?
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- A luz estava um pouco de frente, por isso não era a melhor... Mas eu queria Alenquer a servir de fundo ao campeão.
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- O Prof. José Santos do Boavista dando instruções em plena corrida. Bem... esta fotografia lembra-me um sonho concretizado e uma vergonha porque passei. Eu conto a história:

Como adepto do ciclismo sempre alimentei um sonho: fazer um circuito ou uma etapa num carro de apoio de uma das equipas. E esse sonho tornou-se realidade quando o meu amigo Zé, do Restaurante "Primeiro de Janeiro", me encomendou ao Professor José Santos e me meteu no carro do Boavista.
Enquanto a prova decorria, eu que não consigo estar calado muito tempo, lá ia incomodando os acolhedores anfitriões sobre rodas, fazendo desfilar os meus conhecimentos sobre a modalidade. E dizia: «Sabe, Alenquer é uma terra que já deu grandes ciclistas, como o Maurício Vieira que correu no Águias de Alpiarça, o Ventura Cristóvão que vestiu a camisola do Sporting, o Dionísio Santos que honrou a camisola do Benfica, o grande Alexandre Ruas que ninguém batia ao sprint, mais recentemente o Hugo Vítor, o Edgar Anselmo...». O Professor lá me deixou ir, para então me perguntar com um olhinho malicioso: «Então e o José Henriques?» Ora gaita, lá me tinha esquecido do único alenquerense que havia vestido a camisola do Boavista... «Pois também esse...». Virei-me para a porta mas vi lá escrito: «Proibido sair com o carro em andamento.».
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Veio tudo isto a propósito da "75.ª Volta a Portugal em Bicicleta" que está aí, a bater à porta. Como todos, gostava que fosse um português a ganhar... Mas quem? Alimento grande curiosidade sobre o que irá fazer o Joni Brandão. Depois, há uma mais do que justa expectativa sobre o Hugo Sabido da Antarte. Mas, sinceramente, a EFAPEL com o Rui de Sousa, o Filipe Cardoso, o Nuno Ribeiro, o Hernâni Broco, o César Filipe e o já citado Joni Brandão, parece-me ser a única equipa portuguesa capaz de protagonizar uma vitória. Vejamos, ainda, o que nos reservam as equipas estrangeiras.
A Volta está aí, temos, pois, festa nacional.
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31 maio, 2013

"INVASORES FRANCESES EM TERRAS DE ALENQUER" de ANTÓNIO RODRIGUES GUAPO

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MAIS UMA OBRA QUE VEM ENRIQUECER A NOSSA HISTÓRIA LOCAL

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No próximo Domingo dia 2 de Junho, pelas 15,30 horas, no Museu João Mário, terá lugar a apresentação da obra "Invasores Franceses em Terras de Alenquer" da autoria de António Rodrigues Guapo, historiador local que muito se tem dedicado à investigação do nosso passado e à defesa do património local.
Com algum atraso, mas sempre a tempo, este livro assinala, também, os 200 Anos da presença do invasor francês em terras do concelho de Alenquer, que, por se situarem próximas das intransponíveis Linhas de Torres, mas fora delas, muito sofreram com a primeira e a terceira invasão, particularmente com a última, comandada por Massena.
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Profusamente ilustrado e prefaciado pelo Dr. Filipe Soares Rogeiro é mais uma edição da "Arruda Editora", de Nuno Santos Alexandre. A este propósito uma palavra torna-se necessária, para dizer que o Nuno Alexandre não é um simples editor, mas um artista da edição. Assim, aqui temos mais esta preciosidade, com a sua capa rígida cozida e não colada, o seu papel que, faltando-me os termos técnicos adequados, direi de qualidade superior, o seu design gráfico que evidencia um apurado bom gosto, as fotografias e gravuras coloridas, e, cereja em cima do bolo, as aguarelas que Mestre João Mário e Marta Teives produziram especificamente para este edição. Adquirimos um livro e levamos para casa uma obra de arte!
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O Autor: António Rodrigues Guapo nasceu a 31 de Maio de 1933, na terra alentejana de Barbacena e veio para Alenquer (Olhalvo) em 1956 leccionar o ensino primário. Por aqui ficou, constituiu família e se dedicou ao estudo do património e história local, assim como da etnografia. Desse estudo resultaram uma infinidade de artigos dispersos pela imprensa local, regional e as mais diversas revistas. Com António de Oliveira Melo e o Padre José Eduardo Martins foi co-autor do "O Concelho de Alenquer", obra em quatro volumes. Foi ainda coordenador de "Damião de Goes - Uma antologia de textos biográficos"e a ele se ficou a dever, também, um opúsculo editado pela Câmara Municipal intitulado "Palácio Municipal de Alenquer". Homem de teatro encontra-se ligado desde o seu nascimento ao Grupo de Teatro Palmira Bastos de Aldeia Gavinha, sua localidade de residência, a ele se devendo, ainda, a dinamização de outros grupos e espectáculos como "Alenquer - 850 Anos da Reconquista Cristã" (1998), "Porquê Damião?"(2003) e os mais recentes espectáculos levados à cena pelo Grupo de Teatro Vida Activa. Rodrigues Guapo é ainda pintor de elevado mérito, pelo que o lançamento deste seu livro é acompanhado pela abertura de uma exposição com obras da sua autoria.

08 maio, 2013

A FEIRA ESTÁ DE VOLTA...

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XXXI FEIRA DA ASCENSÃO
8 a 13 de Maio de 2013
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A referência mais antiga que se conhece quanto a feiras em Alenquer, talvez seja a que está contida num testamento de Rui Dias de Goes (pai de Damião de Goes), redigido em 1513, em que este «referindo-se a seu filho mais velho, Francisco de Macedo, declara que dera à sogra deste duzentos cruzados para comprar lençóis na feira de S. João». Como bem o refere o Dr. Filipe Rogeiro em artigo publicado na revista da ""XXV Feira", está bem documentada «a existência de uma Feira de S. João em Alenquer, pelo menos nos séculos XVI e XVII, sendo certamente a esta, à da sua terra, que se referia o pai do cronista. ela está documentada nas chacelarias reais, através das cartas de nomeação dos "requeredores das sisas" da mesma feira, designação que mais não quererá dizer que seriam os responsáveis pela cobrança das taxas ou licenças dos feirantes".
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- Praça Miguel Bombarda (nos tempos da República), antigo e actual Largo do Espírito Santo, visto do Parque Vaz Monteiro. Desde séculos, era neste «Rossio do Espírito Santo» que se faziam as feiras. No centro do largo, admire-se o antigo e monumental chafariz. -  (Postal da minha colecção).
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Entretanto, já no séc. XVIII, o calendário da feira sofreu alteração, pois consultadas as "Respostas" de 1758, é o Prior de Santo Estêvão quem escreve que «Feira nesta villa so a há em dia de S. Miguel [Setembro] e de muy pouca importancia: paga terrado á Caza do Espírito Santo». Na mesma ocasião, também o Prior de Santiago escreveu: «Tem esta villa feira no dia de S. Miguel (...)». Para encontrarmos novas referências, teremos de consultar a imprensa local que por cá proliferou a partir do último quartel de oitocentos. Feito isso, verificamos que a «importância» da Feira não aumentou (antes pelo contrário) pois são muitas as referências jocosas que lhe são feitas: «o que esteve exposto na feira foi o mesmo que dos mais annos - esteiras de tábua e gamellas» (O Alemquerense - 1891) ou «realisa-se hoje nésta villa a tradiccional feira de S. Miguel, digna de mensão pela sua insignificância.».
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- Parque Vaz Monteiro quando da Exposição Feira de 1941 - Veja-se o antigo coreto mandado demolir nos anos sessenta (quando, então, também foram abatidos os plátanos) numa requalificação do Parque. (Foto E. Portugal).
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Em 1896, numa reacção a este estado de decadência da Feira,  um vasto grupo de comerciantes alenquerenses mobilizou-se para dotar o centro da vila com um espaço adequado que viesse dignificar o certame. Esse movimento conduziu à expropriação da Horta do Canto que viria a tornar-se no ainda hoje assim chamado, Parque Vaz Monteiro. A ideia parece ter surtido efeito, pois por longos anos a Feira «arrebitou», colhendo, por isso, menções elogiosas nos semanários locais. Em 1941 a feira de S. Miguel muda de nome mas não de data, passando a denominar-se "Feira de Alenquer". A sua primeira edição, dinamizada por um Grupo de Amigos de Alenquer, assumiu a designação especial de "1.ª Exposição-Feira de Alenquer". Este certame que envolveu várias vertentes, alcançou um êxito notável tendo, por isso, perdurado na memória dos alenquerenses, mas, de ano para ano, veio a perder importância, pelo que nos anos 60 era já conhecida e gozada como a "Feira do Pau Caiado" em homenagem às varolas de eucalipto caiadas e engalanadas com galhardetes coloridos, elemento preponderante da Feira, reduzida que estava esta a um "carrossel" e uma "pista de automóveis"... Extinguiu-se, de morte natural, aí pelo ano de 1962.
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- Edifício da antiga fábrica de lanifícios da Romeira (1875), hoje propriedade do Município e que sempre funcionou como pavilhão de apoio à "Feira da Ascensão" (motivo que levou à sua aquisição). - (Foto do autor).
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Acontecido o "25 de Abril", o novo Poder Local democraticamente eleito, constituiu, em 1981, no âmbito da Assembleia Municipal, uma comissão para realizar anualmente um certame com as características de "Feira-Exposição" destinado a ser, principalmente, uma "montra" das actividades económicas do nosso concelho, a que se juntariam alguns elementos lúdicos, culturais e de animação. Quando essa comissão reuniu pela primeira vez, sentaram-se à mesa: José Medeiros (vereador do pelouro), Carlos Cordeiro (Presidente da AM), Adriano Graça (Deputado Municipal pela APU), Francisco Cipriano (Deputado Municipal pelo PPD/PSD), Américo Marçal (P. da Junta de Santo Estêvão) e J. Lourenço ( Eu, P. da Junta de Triana). É possível que, por traição da memória, algum nome me esteja a escapar, pelo que se tal acontecer desde já aqui fica o meu pedido de desculpas. A primeira dificuldade que se ofereceu foi a escolha de um local onde realizar o certame. Ainda se pensou no "Parque das Tílias", mas, após se concluir que era pequeno demais para o que se pretendia, decidiu-se fazê-lo no espaço devoluto onde hoje se situa o Tribunal (antigo campo de futebol do Sporting local), prolongando-se a feira pela Rua Sacadura Cabral, ocupando, como em anos posteriores, algumas lojas devolutas.

- Sobrescrito comemorativo da "Mostra Filatélica" realizada pela "Feira da Ascensão" de 1983, que mereceu posto de correio e "carimbo comemorativo". (Da minha colecção "Marcas Filatélicas de Alenquer").
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Por último, após umas quantas edições, a Feira transferiu-se para os terrenos da Horta d'El Rei, passando a utilizar o "Forum Romeira" para espectáculos e exposições. Ultimamente, conheceu duas edições no centro da vila, desculpem-me, disparate consumado, certamente na melhor das intenções, pois nada adiantou (antes pelo contrário) à Feira, aos visitantes, aos expositores e ao comércio local, excepção feita a meia dúzia, se tanto, de estabelecimentos do sector da restauração situados dentro do recinto da mesma, porque outros estabelecimentos, a 50 metros, viriam a desistir de abrir portas porque nada lhes chegava... Mais uma vez, tivemos Alenquer em contra-mão, porque os concelhos que não têm um recinto, procuram tê-lo e outros que já o têm, investem no equipamento do mesmo, investindo, assim, na segurança, no conforto, nas condições para a assistência aos espectáculos, na funcionalidade, na economia e na comodidade que resulta para os expositores e participantes, do facto de haver instalações permanentes e minimamente adequadas.
O calendário "feiral" alenquerense merece, num futuro próximo, uma ampla e descomprometida discussão por parte das forças políticas que vierem a ficar representadas na autarquia. Até lá, desejo a todos, uma boa "Feira da Ascensão" 2013!
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Nota: Uma última referência para o artigo "A Feira Anual de Alenquer ao longo dos Séculos" do Dr. Filipe Rogeiro, publicado na Revista da "XXV da Feira da Ascensão". Aí encontrarão os interessados um apaixonante relato histórico das nossa feiras. Será já difícil de encontrar, mas merece a pena ir no seu rasto e lê-lo.

21 abril, 2013

ALENQUER INDUSTRIAL

A FÁBRICA DO MEIO
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A fábrica do Lafaurie, da Companhia ou do Meio como ficou conhecida, não é na Alenquer de hoje mais do que uma memória. Quem percorrer a Av.ª dos Bombeiros Voluntários, encontrará, logo a seguir ao antigo quartel dos Bombeiros, um edifício onde no passado conheci a oficina do Cabral e hoje é uma oficina de electricidade-auto. Pois bem, esse edifício é tudo quanto dela resta.
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O seu fundador foi um cidadão francês de apelido Lafaurie (Auguste), oriundo da cidade francesa de Orthez, então situada no Departamento dos Baixos Pirinéus, hoje Deparatamento dos Pirinéus Atlânticos.
Para Alenquer veio este industrioso francês acompanhado de seu irmão Pedro Adrião Lafaurie e no sítio de uma azenha antigamente chamada Azenha das Quatro Rodas, deu início, em 1838, à fundação da primeira das quatro grandes fábricas de lanifícios que Alenquer acolheu no seio da sua malha urbana.
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Segundo Henriques, teria sido modesto o começo da fábrica que teria começado a laborar com 6 cardas pequenas e 3 fiações de 40 fusos movidos à mão, mais uns poucos teares circulares e outros de carapinhas com que fabricava barretes, mantas e cobertores.
Contudo, os progressos seriam rápidos, pois em 1840, quando Pedro Adrião Lafaurie se dirigiu à Secretaria de Estado dos Negócios do Reino solicitando uma «provisão para gozar de todos os Privilégios, Graças e isenções que se costumam conceder aos estabelecimentos mais favorecidos, compatíveis com a constituição do Estado», fê-lo informando que estabelecer» uma fábrica de cardagem, fiação de lã, obras de ponto de meia, mantas, cobertores de lã e tinturaria, na vila de Alenquer» o que deixa transparecer um efectivo crescimento.
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Este industrial francês, que viveu na vila de Alenquer cerca de 25 anos, faleceu subitamente nesta vila, no dia 6 de Fevereiro de 1869. Na direcção da fábrica seguiu-se sua filha Maria Carolina Lafaurie, mas, em 1874, por motivos de ordem financeira, esta passou para o domínio do Banco Lusitano. Em 10 de Junho desse ano, o Conde de Burnay, grande capitalista à época, toma conta dela e nomeou administrador um seu tio de nome Constant Burnay. Em 1880 a fábrica voltou à direcção do Banco Lusitano a quem estava hipotecada, para logo em 1881 ser adquirida por 300.000$000 por uma companhia denominada Companhia de Lanifícios de Alemquer.
Mais tarde, já nos inícios do séc. XX viria a ser arrendada a José Pimentel Ramos, mas encerraria definitivamente em 1918.
- (Postais antigos de Alenquer da minha colecção pessoal).

10 abril, 2013

ESTE PAÍS NÃO MUDA...

AVENTURAS E DESVENTURAS DE UM ALENQUERENSE NAS TEIAS DA BUROCRACIA
ESCREVO PARA DESABAFAR...
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Já sei, chega Abril e tenho este calvário... A minha idosa mãe, há alguns anos internada no Lar da Misericórdia, como pensionista (pequenina...) é apoiada pela ADSE com um subsídio que minimiza as despesas de internamento. Tem 86 anos, nunca teve emprego nem bens (coisa que as Finanças estão fartas de saber), mas todos os anos, com a Primavera, tenho que apresentar uma Declaração das Finanças (nula) quanto aos rendimentos de trabalho e a bens (sempre do mesmo teor, já se vê, pois aos 86 anos e internada numa IPSS não se arranja trabalho, nem se herdam bens), mas tudo bem, teoricamente até poderia herdar de um filho falecido sem descendentes... Mas, mais: uma declaração da Segurança Social em como não tem dívidas a esta. Surrealismo puro. Mas tudo bem, mais uma vez...
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Assim, acordei hoje mentalizado para percorrer esta «via-sacra». Comecei pelas Finanças e comecei bem. Depois de uma hora de espera, aproximo-me do guichet, para ouvir a solicita funcionária pedir-me desculpa porque não conseguia entrar no sistema (entidade cibernética anónima que dispõe do nosso tempo a seu belo prazer): - Então e o que é que a senhora me sugere? Perguntei eu já conhecedor da resposta. «Que volte outro dia. Tenho muita pena...». Touché!
Depois de almoço vou para a Segurança Social. Quem sabe, poderei ter melhor sorte... As instalações da Segurança Social em Alenquer são um modelo de inadequação aos serviços que presta. Instalada num apartamento construído para habitação, tira-se uma senha e aguarda-se vez em três «salas de espera»: a rua, a varanda e as escadas! Mas, um pouco mais além, na Av.ª Jaime Ferreira, o "Instituto do Emprego e Formação Profissional" sob a alçada da mesma tutela (desculpem-me se errei, mas penso que não), tem um enorme e moderno edifício mais que sub-aproveitado, pois os desempregados alenquerenses foram mandados à procura de emprego para Torres Vedras. Porém, esses mesmos desempregados têm que fazer as suas apresentações periódicas no tal "3 assoalhadas" do Largo Espírito Santo. Diria eu, desempregados e f....!
Bem, estou reformado e tenho tempo para sofrer estes tratos de polé nos palácios da nossa burocracia. Mas, e quem está empregado, como resolve esta luta com os sistemas informáticos caprichosos e as repartições apinhadas de desempregados? Haja paciência e xanax...


09 março, 2013

UMA GRANDE ARTISTA DO TEATRO QUE NASCEU EM ALENQUER

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ADÉLIA SOLLER
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A grande actriz Adélia Soller nasceu em Alenquer em 1873, filha de Alfredo Soller e de Silvéria Soller, também eles actores de profissão. As circunstâncias que determinaram o seu nascimento nesta vila não as conhecemos, mas  somos levados a pensar que sendo seus pais artistas ao serviço da companhia  Soares, companhia essa que fazia muita itinerância, eles se encontrassem a representar em Alenquer quando a hora do parto chegou.
Ainda muito nova começou por representar, também ela, na companhia teatral Soares, percorrendo aí integraga o País, vindo, depois, a estrear-se em Lisboa na Trindade, onde pouco se evidenciaria, daí transitando para o teatro da Alegria, depois para o da Rua dos Condes e por último para o grande Ginásio.
Adélia Soller foi casada com um outro actor de nomeada, Sebastião Alves, que faleceu no Brasil em 1903. Todavia, Adélia pouco lhe sobreviveria pois viria a falecer ainda nesse mesmo ano, também no Brasil, quando por lá fazia uma tournée com a sua companhia do Ginásio, vitimada pela febre amarela que igualmente ceifou outros colegas seus.
Pelo apelido, terão sido seus antepassados (eventualmente avó) a consagrada actriz Josepha Soller (1822-1864) de ascendência espanhola e filha de um proprietário  de uma companhia e o actor Júlio Soller nascido em 1843.
Mais um nome, portanto, a juntar aos de Ana Pereira e a Palmira Bastos que, igualmente, tiveram berço em Alenquer.

11 janeiro, 2013

FILATELANDO

MAIS UM POSTAL ANTIGO DE ALENQUER
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O postal circulou de Alenquer (26/08/1905) onde recebeu carimbo «tipo 1880» que, neste caso, não obliterou selo nenhum, já que ele, o selo, havia caído ou pura e simplesmente houve esquecimento (ou desconhecimento) e não foi colado. Daí que os portes tenham sido pagos (pela destinatária) através dos dois selos de «Porteado» (20 réis) que lá estão obliterados com o carimbo de Cascais (27/08/1905).
O Postal propriamente dito mostra-nos na face as «armas d'Alemquer» (o Brasão municipal desse tempo) e no reverso uma imagem dita das «Passadeiras», que deixou pouco espaço para escrita. Está identificado como sendo o n.º 7 de uma edição de "F. Campeão & Saraiva", tendo sido impresso na Tipografia Campeão & Cª - Alemquer. Esta tipografia pertenceu a Fernando Campeão dos Santos, irmão do solicitador Henrique Campeão dos Santos que foi Director do jornal Damião de Goes, jornal esse que era composto e impresso nessa tipografia instalada na Vila Alta, onde hoje a Misericórdia tem os seus serviços administrativos. Alguns anos depois, a tipografia pertencia a José Lourenço Júnior, meu avô, aí se imprimindo o Damião de Góis e A Verdade.
Voltando à imagem, em primeiro plano as Passadeiras da Rainha inicialmente cinco enormes pedras que, segundo a lenda, teriam sido colocadas por intervenção miraculosa da Rainha Santa Isabel, para esta ali atravessar o rio quando vinda do seu Paço (anexo à Igreja do Espírito Santo) se dirigia à Igreja de Nossa Senhora d'Assumpção de Triana para as suas orações. Como a sua origem teria sido miraculosa sempre resistiram às investidas dos rio, mas não resistiram às do Eng.º Duarte Pacheco, quando este, nos anos 40, lançou o plano das novas avenidas, desviando o curso ao rio. Também em primeiro plano vê-se a vivenda que pertenceu à Fábrica do Meio e onde nos seus primeiros anos funcionou o Externato Damião de Góis, e, mais adiante, a desaparecida Fábrica do Meio (Lanifícios).
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O último quartel do séc. XIX e o primeiro do séc. XX, constituem a época áurea do postal em Portugal. Todavia, sempre pensámos que em Alenquer esse interesse tivesse passado um pouco ao lado. Engano nosso, uma vez que devido à iniciativa de algumas casas comerciais da vila, foram editadas algumas séries de postais inspiradas pela beleza natural da nossa terra. Por exemplo, esta, a que pertence o postal reproduzido, teve pelo menos mais seis exemplares diferentes. De outras duas conhecemos mais um postal de cada. Pena é que não surjam à luz do dia os outros postais dessas séries... E o leitor, conhece postais antigos da vila de Alenquer? Se conhece diga-nos, porque a nossa curiosidade sobre o assunto é grande.

10 dezembro, 2012

O CASTELO DE ALENQUER - IV (CONCLUSÃO)


O QUE RESTA DO CASTELO
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- A lenda do Alão - Desenho de Mestre Álvaro Duarte de Almeida para o concurso "Lendas de Portugal" do Jornal "O Século".
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Tem-se escrito que D. João I, desagradado com o que lhe aconteceu em Alenquer aquando da Revolução de 1383/85 que o levou ao trono, teria mandado abater a Torre de Menagem ordenando que lhe retirassem os cunhais, tendo tido igual sorte alguns lances da muralha ou cerca. Ter-se escrito é um facto, mas há quem sustente que falta fundamento histórico a esta narrativa, embora ela já venha relatada em escritos como a "Descrição da Vila" feita pelo P. António Carvalho da Costa na sua "Corographia Portugueza", de 1702, onde escreveu que Alenquer «Tem seu Castelo, que hoje está muito arruinado, por lhe mandar tirar os cunhais El Rei D. João o Primeiro pela resistência, que achou nesta Vila quando pôs cerco nela à Rainha D. Leonor Teles sua cunhada(...)».
Mais tarde, quando outra Leonor, a rainha viúva de D. Duarte, aqui procurou refúgio com seu filho, o futuro rei D. Afonso V, receosa que algum mal lhe viesse por parte seu tio, o infante D. Pedro, Regente do reino, teria o Castelo de Alenquer sido objecto de importantes obras de reparação que, de novo, o tornaram apto para a sua missão defensiva. Como a História registou, esse episódio que envolveu o futuro soberano não teria passado de pura manipulação e nada aconteceu. Sendo infundados os receios de D. Leonor, sob as muralhas do castelo de Alenquer tudo se manteve calmo e pacífico.
Teria sido a partir de então que o castelo entrou em declínio. Quando em 1580 a vila seguiu o partido de D. António, o Prior do Crato, aqui aclamado rei, ainda terá havido algum sobressalto guerreiro, mas, estando mais uma vez Alenquer do lado errado da História (mas certo na razão), o Castelo entrou definitivamente no esquecimento, «passando a ser utilizado como pedreira», como se pode ler na memória Histórica-Artística do IGESPAR que sobre ele se debruça. Que quer isso dizer? Que as suas pedras, como nesses tempos vulgarmente acontecia, passaram a ser retiradas pelos habitantes e utilizadas na edificação de habitações, levantamento de muros, construção de arruamentos e estradas.
Em 1750 D. José I, ou o seu Ministro Sebastião José de Carvalho e Mello, ainda se terão lembrado dele, ou melhor, ainda terão sido levados a lembrarem-se dele por solicitação da Academia Real de de História Portuguesa «visto ser indubitavelmente obra dos alanos», mas sem resultados objectivos. Depois, por esses anos, foi ainda o terramoto de 1755 que lhe causou enormes estragos, destruindo as duas torres da porta principal, a da «Vila».
Com o séc. XIX  e a construção do edifício dos Paços do Concelho e da variante ligando Santa Catarina à Vila Alta e esta à Ponte da Barnabé, novos panos de muralha terão sido derrubados, fazendo o passar do tempo o resto do trabalho demolidor.
Assim, tudo o que hoje resta da importante fortaleza que remonta ao Neolítico, que foi castro lusitano, castrum romano, castelo dos Alanos, castelo mourisco, castelo gótico, pode ver-se abaixo nas duas fotografias que se seguem:
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- Bem lá no alto, o último lance da muralha original, entre o estar e o cair.
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- Onde se erguia a Torre de Menagem, restos de antigas construções adjacentes e da muralha
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Há relativamente pouco tempo, a nossa Câmara, e bem, promoveu a melhoria dos acessos ao «Castelo» e a sua limpeza, instalando na zona abaixo da Torre de Menagem um aprazível Parque de Merendas.
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Visitei-o no final deste Verão e algum abandono era já visível. Na realidade não basta fazer, torna-se necessário cuidar, promovendo, no mínimo, a limpeza, as acessibilidades e tornando-o conhecido através da instalação de placas que elucidem o visitante da sua existência e o ajudem a encontrar o melhor caminho a percorrer para o alcançar.
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Na minha perspectiva o melhor caminho passa, bem a propósito, pela Travessa do Castelo (acima) que tem o seu início logo à entrada do Bairro da Judiaria, junto a um enorme edifício em ruínas (esse, pelo estado em que se encontra, não vai demorar muito a cair. Pelo menos que caia para dentro e não faça vítimas...), mas todo o estado desta Travessa é mau, como facilmente se constata.
Pela mesma, chega-se a um caminho de terra batida, o qual, como se pode ver na fotografia abaixo, já começou a ser abusivamente «comido» por construções clandestinas. Aqui chegados, basta percorrer um pequeno carreiro, na ocasião tomado pela folhagem, para se alcançar o tal Parque de Merendas, que, ao que me disseram alguns moradores vizinhos, apesar de tudo, é bastante procurado (!?).
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Alcançado o ponto mais alto do sítio do Castelo, lá encontraremos, ainda, a antiga «Casa da Água» (fotografia abaixo), hoje desactivada. Esta proeminência poderia ser um miradouro sobre a Vila, mas não o é porque a vegetação não deixa, como também não deixa ver a estrada para Torres e a Cruz do Bufo. Quer dizer, o legionário «Mirolho», hoje ali de sentinela, não veria aproximarem-se da vila as tropas do «Tróina», mas essa é outra história que só os mais antigos conhecem e que remonta aos tempos do heróico Terço legionário de Alenquer (LOL como dizem os jovens face-booquenianos).
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26 outubro, 2012

O CASTELO DE ALENQUER - III


O CASTELO DE ALENQUER - AS SUAS PORTAS E POSTIGOS
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Na gravura abaixo que datamos do séc. XVI por lá estar, em 14, o moinho de papel de Manuel Teixeira(1), poderá o nosso leitor verificar que, esquematicamente, o recinto amuralhado tinha a forma de um semicírculo ou crescente (algo imperfeito), sendo visíveis em 2 e 3 as duas principais portas da vila que, por assim o serem, denominavam-se portas de armas. Uma conhecida como "da Vila" assinalada com 2. Outra, conhecida como"do Carvalho", mais tarde como de "Santo António" e mais modernamente, "da Conceição", assinalada com 3. 
Quanto a postigos, o mais importante, assinalado em 4, situava-se mais ou menos por cima do local onde na actualidade se monta pelo Natal o monumental Presépio e dava acesso a um íngreme carreiro que conduzia ao rio. Um outro situava-se em 6, frente à já desaparecida igreja de S. Tiago. Este último, talvez não fosse bem um simples postigo, mas sim a chamada porta da traição, nome dado num castelo à porta com menor tamanho, na medida do possível dissimulada e situada distante da(s) portas  principais e em sentido oposto ao da localização daquelas,  aberta na muralha à medida de uma qualquer emergência (de notar que estes pressupostos nem sempre se verificavam cumulativamente).
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- Alenquer medieval - Desenho de Mestre João Mário para uma publicação da C.M.A.


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A implantação da fortaleza neste local tornava-a, como se verificou mais de uma vez, praticamente inexpugnável(2). De facto, as suas duas principais vertentes eram bastante íngremes e facilmente defensáveis para os sitiados. Também o acesso às suas principais portas era, como o lembra Guilherme João Carlos Henriques na sua obra A Vila de Alenquer, bastante mais acentuado e difícil do que o é hoje.
A porta da "Vila", abaixo representada, situava-se (o que dela restava desapareceu quando da construção dos actuais Paços do Concelho, nos finais do séc. XIX) no local onde hoje termina a Igreja da Misericórdia, na Rua Maria Milne Carmo que dá acesso ao bairro da Judiaria. A ela se acedia subindo do rio pela hoje chamada Calçada Francisco Carmo, vulgo "Calçadinha". Para quem já experimentou, uma subida longa e difícil, actualmente um pouco suavizada em relação aos tempos a que nos reportamos.
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- Porta da "Vila"- Aqui a preto e branco, mas, na realidade, trata-se de uma aguarela do artista Ribeiro Cristino.
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- Fotografia de autor desconhecido publicada por Luís Venâncio em Alenquer, Concelho Multissecular e Monumental - Vila Alta de Alenquer (último quartel do séc. XIX), antigo largo medieval, hoje denominado Praça Luís de Camões, vulgo "Largo da Câmara".
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Na fotografia acima referida identificamos:
1 - A porta da "Vila" ou o que nos finais do séc. XIX dela restava (demolida);
2 - As antigas Casas da Câmara (demolidas);
3 - O Celeiro das Jugadas, que foi, também quartel e teatro (demolido);
4 - A Igreja de S. Pedro;
5 - O largo medieval, com o seu pelourinho e onde se situava a ermida de Nossa Senhora do Monte Carmo (demolida);
6 - A sacristia da Igreja da Misericórdia, cuja empena se vê na gravura abaixo (demolida);
7 - A Igreja da Misericórdia;
8 - O antigo Hospital da Misericórdia, prédio onde hoje se encontram os serviços administrativos da Misericórdia (antiga Tipografia A Central), a Liga dos Amigos de Alenquer e o Teatro Ana Pereira.
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- Antigas Casas da Câmara, e, em primeiro plano a Sacristia da Igreja da Misericórdia - Gravura publicada por Luís Venâncio em Alenquer, Concelho Multissecular e Monumental.
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Falemos agora da Porta do "Carvalho", de "Santo António" ou da "Conceição", hoje simplesmente "Arco da Conceição". Esta era a porta que se situava mais próximo do rio, e, sendo este navegável, pelo menos durante os primeiros reinados da I Dinastia, seria por aqui que entravam e saiam as mercadorias  transportadas por barco.
A teoria é minha e necessita, obviamente, de confirmação, mas como em tudo impera a lógica... 
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  - Arco da Conceição - Fotografia sem indicação de autor publicada na "Revista dos Centenários" (nº.24 de 31/12/1940), logo anterior à intervenção havida que lhe deu os actuais contornos arquitectónicos.

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Próximo desta porta, à distância de vinte passos fica a Torre da Couraça, monumento onde são reconhecidos dois níveis de construção: um, o superior, de finais do séc. XIV, outro que se supõe remontar à presença dos mouros na vila.
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- Acima, fotografia publicada na "Revista dos Centenários (n.º24 de 31/12/1940) sem indicação de autor. A habitação que se vê coroando o seu topo é do séc. XIX. Abaixo, ilustração da Wikimedia Commons onde se pode ver a "couraça" de um castelo medieval.
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Seria, inicialmente esta torre uma construção de apoio às actividades portuárias ou uma contrução para defesa do porto? Como no seu interior existia uma copiosa nascente, teria sido ela construída para sua defesa? Esta nascente era muito importante já que o castelo tinha como ponto fraco a inexistência de mananciais de água, pelo que, interiormente, só existia a que era recolhida nas cisternas. 
Vejamos o que sobre ela, a Torre, nos diz Guilherme Henriques na sua obra A Vila de Alenquer:
«Espalhadas pela parede ha diversas figuras [leia-se inscrições, uma delas com a data de construção], e nas pedras aparelhadas dos cunhaes ha muitos dos signaes mysticos que são tão frequentes nas obras de pedreiro d'aquella epoca. A era de 1421 corresponde ao anno de Crhisto de 1383, e, sendo aquella a verdadeira leitura, prova que esta parede da nascente foi feita por ordem da rainha D. Leonor Telles, quando retirou da capital para esta villa, depois da morte do conde d'Andeiro, sendo possível que as outras duas paredes, que diferem bastante na qualidade do material empregado e na mão d'obra, já estivessem feitas. Mas pode ser que haja mais duas unidades na era; e n'este caso, já seria obra de D. João I».
No que respeita a esta Torre da Couraça por aqui nos ficamos, pois não queremos terminar este post sem desfazer uma confusão criada por Guilherme João Carlos Henriques na obra que temos vindo a citar, ao trocar o nome às portas. A porta do "Carvalho" é efectivamente esta que depois veio a ser de "Santo António", depois ainda da "Conceição", e não a outra, lá em cima, junto às Casas da Câmara que, definitivamente, era a da "Vila"  e não do"Carvalho" como o escreveu o historiador da Carnota e a partir daí tem sido repetido como coisa certa.
E é assim porque é essa a denominação com que Fernão Lopes na sua Crónica de D. João I a referencia a propósito do episódio  do épico do cerco posto pelo Mestre de Avis em que viria a ser fatalmente atingido o seu jovem companheiro de armas Afonso Henriques. Mais, Fernão Lopes diz que esta porta se chamava do "Carvalho" por aí perto existir um soberbo exemplar de árvore desta espécie.
Mas outras referências encontrámos que corroboram a opinião do cronista: O Padre António Carvalho da Costa, na sua "Corographia Portugueza e Descripçam Topografica do Famoso Reyno de Portugal», publicada em 1712, escreveu que a vila «He cercada de muros com duas portas principaes, a da Villa, q está na praça, e a de Santo Antonio, chamada antigamente do Carvalho, que vay para a ponte da Coyraça». O Padre Luiz Cardozo, por sua vez, escreveu no seu "Diccionario Geografico, publicado em 1747, referindo-se ao castelo, que era fortaleza «ja hoje com muitas ruinas; mas ainda com inteira fórma se conservão com Castello, torres, baluartes, e cortinas; e com cinco entradas, duas principaes entre torres, huma junto ao Castello, e duas em huma cortina. Pouco abaixo da porta chamada da Villa se demolio por industria um pedaço de cortina para passarem as carruagens com mais facilidade, e he hoje a mais frequentada passagem que ha de fóra para dentro dos muros. Por fóra da porta do Carvalho, e na sua barbacã, se levanta da margem do rio uma couraça(...)». Pinho Leal no seu "Portugal Antigo e Moderno" de 1873, sobre isto, escreveu (com toda a probabilidade baseado na leitura dos autores anteriormente citados, mas escreveu): «O castello, se não foi fundado pelos romanos, foi-o pelos alanos; pois já existia quando em 715 os árabes se apossaram da Luzitania. As muralhas que cingiam a villa foram edificadas pelos mesmos que edificaram o castello. Tinham tres portas, a da VIlla (na praça) a de Santo Antonio (que primeiro se chamou Carvalho, por ir para a ponte do Carvalho e a de S. Thiago; álem de alguns postigos». Por último, embora outras citações fossem possíveis, Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, em 1904 no «Portugal, Diccionário Histórico, Chorographico, Heraldico (etc.)», escreveram: «As muralhas antiquissimas, que datavam do tempo da construcção do castello, e de que hoje restam apenas vestigios, tinham 3 portas e alguns postigos: a da Villa (na praça), a de Santo António (que primeiro se chamou Carvalho por ir para a ponte d'este nome), e a de S. Thiago [porta da traição?]» (teriam eles lido Pinho Leal?). Seja como for, parecem não subsistir dúvidas.
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(1) - Moinho de Manuel Teixeira, um dos primeiros moinhos para o fabrico de papel a laborar em Portugal, mediante alvará com força de carta datado de 22 de Maio de 1565, assinado por D. Sebastião.
(2) - Assim aconteceu em 1148 quando resistiu ao cerco de Miramolin de Marrocos após a batalha de Santarém; Depois quando do conflito que opôs D. Sancho II  as suas irmãs D. Teresa e D. Sancha, esta última senhora da vila; mais tarde, por várias ocasiões, quando da Revolução de 1383/85, sendo alcaide Vasco Perez de Camões e sua senhora D. Leonor Teles, o que muito enfureceu o Mestre de Avis que teria mandado abater os cunhais que sustentavam a Torre de Menagem; por fim teria o castelo sofrido obras de reparação quando nele se refugiou a sua senhora, a rainha víúva de D. Duarte, D. Leonor, com seu filho o futuro rei D. Afonso V, por temer que algum mal lhe viesse do regente, o príncipe D. Pedro.