01 junho, 2009

AS FREGUESIAS DA VILA (I)


Como será lógico deduzir, os tempos que se seguiram à Reconquista não terão sido nada fáceis nesta «extrema dura» do território, zona de charneira entre as terras ocupadas a Norte pelos cristãos do Portugal que crescia e a Sul pelos «mouros» que iam resistindo como podiam aos ímpetos da Reconquista.
Por isso mesmo o nosso rei D. Sancho I teve que entregar aos francos as terras de Vila Verde e aos monges de Alcobaça o Paúl de Ota, por exemplo, para que estas terras se enchessem de gentes e os campos fossem cultivados. Depois, com o crescimento demográfico alcançado no século XIII tudo começaria a levar novo rumo.
Como disse Albino de Figueiredo que no século XIX foi administrador do concelho de Alenquer, «à proporção que a riqueza crescia se multiplicavam as freguesias filiais». Um historiador já desaparecido, João Pedro Ferro, autor de uma obra intitulada Alenquer Medieval, de acordo com as mais antigas referências encontradas, assinala o aparecimento da freguesia de Santo Estêvão em 1190 ( esta na cerca do castelo que hoje corresponde, mais ou menos, ao nosso bairro da Judiaria ), da de Santiago em 1221 ( não tinha fregueses na vila mas tão só no termo), da de Santa Maria de Triana em 1226 ( veja-se como bem cedo a vila galgou o rio ), da de Santa Maria da Várzea em 1239, e por último da de S. Pedro em 1242.
Curiosamente Santo Estêvão, Santa Maria e S. Pedro são nomes de freguesia que à época existiam praticamente em todas as terras importantes, Lisboa por exemplo, sendo de anotar que as freguesias ditas de S. Pedro geralmente estavam ligadas à existência aí de comunidades piscatorias. Havia ainda um outro nome muito comum, S. Miguel, que por acaso nunca existiu na vila de Alenquer. Todavia S. Miguel de Palhacana, com Aldeiagalega, Ventosa e Ota, são as primeiras freguesias assinaladas no termo da vila.
Regressando à vila, refira-se que estas cinco freguesias haviam de perdurar por bons anos, pois só no século XIX o assunto seria objecto de atenção, precisamente pelo já citado administrador Albino d'Abranches Freire de Figueiredo, autor de uma interessante Memória sobre alguns melhoramentos possíveis da vila e do concelho de Alemquer, escrita em 1851.
Nessa pequena obra diz o seu autor que «Cinco freguezias, quatro colegiadas, trinta e um beneficiados, e tudo isto rico, era o resultado dos importantes dízimos que pertenciam à igreja de Alenquer». Esclareça-se que «dízimo» era um importanto imposto cuja colecta revertia grosso modo a favor da Igreja, assim como o facto das freguesias, algo diferente do que hoje acontece, estarem sobre a alçada dessa instituição religiosa.
Prosseguindo, diz o mesmo autor que «a prudência aconselhava o governo a dividir por muitos eclesiásticos os ricos dízimos de que não podia dispôr plenamente. Mas depois que estes ( os dízimos ) foram extintos, a mesma prudência que aconselhou a criação de freguesias e colegiadas, exige que novamente se reunam as freguesias em uma só». Foi isso que aconteceu? Isso veremos numa segunda parte.

21 maio, 2009

A FEIRA DA ASCENSÃO - FAÇAM FAVOR GUARDEM A REVISTA


Como aqueles faraós que ao morrerem levavam para o túmulo toda a «tralha» que os rodeava em vida, assim Álvaro Pedro levará consigo para a reforma muitas coisas, entre elas a Feira da Ascensão que, coitadinha, deu o que tinha a dar.
Hoje, feriado municipal, ao fim da manhã atravessei este «deserto» que era a vila de Alenquer em festa (quem o diria?). Por fim parei frente a um restaurante e interpelei o desconsolado proprietário. Então? Como vai o negócio com a Feira? A resposta não poderia ser outra: «Não brinque comigo...Veja lá que hoje, ainda tenho menos clientes do que num dia normal». Olhei à volta e Alenquer, toda ela, dormia o «sono dos justos». Nem viv'alma! Quem entrasse na vila nunca diria que ela vivia a sua festa anual. Uma tristeza.
A Feira consumiu-se nela própria, desgastou-se na rotina, estiolou na falta de imaginação. Quando se anuncia que a ela preside uma Comissão formada pela Câmara e pela Assembleia Municipal, conta-se uma anedota, porque a Comissão só reune para tomar conhecimento do programa já elaborado. Interrogo-me se essa Comissão de tão longa vida alguma vez deu uma sugestão, formulou uma alteração, fez um balanço, meditou sobre um qualquer plano de rejuvenescimento. Se o fez, fê-lo para o «boneco».
Pode-se apontar o dedo a alguém? Sim e não, porque neste como noutros assuntos, a «oposição» foi sempre igual á «situação» sendo o vice-verso igual ao direito. Também não é justo que se aponte o dedo a qualquer funcionário, pois é certo que os mesmos sempre procuraram fazer o melhor, num cenário em que os políticos apostaram, ( certamente por terem mais com que se preocuparam ), na repetição de um modelo ( qualquer coisa como uma missa ), até as peças, por desgaste, falirem e o cenário se desconjuntar. Quando os políticos se demitem ou se revelam ausentes poder-se-à acusar algum funcionário? Claro que não!
Enfim, um desafio para os próximos governantes locais que deverão repensar tudo isto, não deixando a Vila de fora, porque para o comércio tradicional, um evento destes será sempre mais uma ajuda.
Mas a Feira teve a sua Revista editada pela «Nova Verdade» e «Rádio Voz de Alenquer» e que Revista! A qualidade é boa e o «prato principal» óptimo! «Prato principal»? Sim o artigo de Filipe Rogeiro intitulado «Alenquer e as suas empresas de há 100 anos». Parabéns caro Filipe. Que excelente «aperitivo» para a obra que gostaria de vê-lo produzir um dia, a história do comércio da vila e do concelho.
Penso que estas revistas são coleccionáveis e, pela minha parte, tenho vindo a fazê-lo. Viva pois a Revista da Feira que já foi, mas que acreditamos que ainda venha a ser!

29 abril, 2009

UMA FOTOGRAFIA CURIOSA E UMA LEGENDA AINDA MAIS


Trata-se de uma fotografia curiosa, esta que já publiquei no meu livro Memórias da Arcada. O seu estado de conservação não é dos melhores, mas nela reconhece-se a antiga sala da Arcada, quando ela era simultaneamente pequeno teatro - lá está, ao fundo, o palco - e sede da Sociedade Filarmónica d'Alemquer, dita a Formiga Branca.
Ela mostra-nos, ainda, uma mesa (bem) posta para uma refeição, que uma legenda impressa em rodapé esclarece ter sido um «...banquete oferecido no Teatro da Arcada por um grupo de republicanos de Alenquer aos oradores de um comício em 21 de Agosto de 1910». O momento histórico aproximava-se.
Mas esta fotografia tem no seu verso uma outra legenda manuscrita, da autoria de João Avellar, que nos chama a atenção para um outro pormenor quase imperceptível:
«...Na cadeira de espaldar (ao fundo) vê-se o barrete frígio (um dos símbolos da República) que Izidoro Guerra ostentava no quadro final de apoteose à República, na revista À procura do Ideal que foi representada nesta vila, no Teatro da Arcada, com geral agrado.».
Aqui fica, pois, este pequenino subsídio para a História do Teatro em Alenquer, uma obra que se torna urgente produzir, uma vez que essa arte teve fortes tradições na nossa vila e concelho, em especial o teatro de revista.
Foram inúmeras as casas onde em Alenquer se fez teatro, por aqui nasceram artistas de renome nacional como Ana Pereira, Adélia Soller e Palmira Bastos, o teatro de rua com as suas Cegadas e Enterros e Julgamentos do Bacalhau também esteve, desde sempre, fortemente enraízado nas tradições das nossas gentes e foram inúmeros os grupos amadores que fizeram subir à cena as mais variadas peças e revistas.
Esta é, sem margem para dúvidas, uma outra história local que merece ser preservada em forma de livro. Enquanto isso não acontece, por aqui vão ficando ligeiros apontantamentos...

24 abril, 2009

EM ABRIL, ESPERANÇAS MIL!


E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis
Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!
( Ary dos Santos - "As portas que Abril Abriu" )
Passaram-se trinta e cinco anos...tanto tempo! E no entanto parece que foi ontem... Ia eu meio a dormir, meio acordado no autocarro para Vila Franca, quando me pareceu que alguma coisa de invulgar se passava...Que diabo, não é costume, o rádio vai a tocar e ainda por cima tão alto! Mas espera lá, este que está a cantar é o Fanhais, e esta canção estava proibida!? Foi então que se fez ouvir a voz grave do locutor: «Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas...». Olhei em volta e as pessoas não iam de cabeça baixa e metidas consigo como era costume, antes pelo contrário, todas olhavam em volta trocando olhares cúmplices e exibiam o sorriso mais bonito que alguma vez haviam expressado... Acontecera Abril!
Um companheiro de Abril, o Américo Mosca, disse-me uma vez quando comentávamos que isto estava a andar para trás: «Deixa lá companheiro, eles podem levar tudo, mesmo tudo, mas há uma coisa que com toda a certeza nunca me roubarão e essa coisa é este privilégio imenso de ter vivido um dia tão bonito como o 25 de Abril e uma Revolução que tantos dias de Esperança me deu».
Lembrei-me hoje dele quando estive na Biblioteca da Escola EB de Alenquer para falar do 25 de Abril a duas turmas do 9.º ano, convite que surgiu porque sou deputado municipal com livro publicado. Aceitei, agradeci e acho que já tive o meu 25 de Abril de 2009, pois esse contacto com aqueles jovens e com os seus professores fez-me bem. Caramba! Quem diz mal da Juventude é porque nunca foi jovem!
Mas retomando o fio. Lembrei-me do Américo e às tantas disse que todas as gerações deviam ter o privilégio imenso de viverem um dia tão glorioso como aquele que me foi dado viver, porque sentiriam para sempre, para o resto das suas vidas que num determinado momento a História havia estado consigo, era algo vivido e não contado num manual escolar.
Abril cumpriu-se? De certo modo sim! Todavia ainda há coisas que me preocupam e uma delas é a justiça social. Vejam esta notícia: «Uma advogada, filha da jornalista da RTP "fulana tal", sobrinha de um deputado "excelência tal" e mulher do presidente da empresa pública "tacho tal"...( os "tais" são meus, deixemos lá os nomes...). Há famílias inteiras "repimpadas" e sem dificuldades de emprego, ou seja, o mérito não existe, basta o nascer-se feliz e na família certa.
Depois, porque raio o fosso entre os mais ricos e os mais pobres continua a aumentar? Porque raio a crise não chega aos ordenados milionários dos gestores, ordenados esses já de si escandalosamente altos quando comparados com os dos seus congéneres europeus? Porque raio os Impostos continuam a ser só para alguns? Porque raio não são chamados aos diversos escalões da governação ( das autarquias ao governo ) os mais competentes? Porque raio continuamos a ter um País interior pobre e desprezado e um País litoral rico e chamariz de atenções?
E por aqui podíamos continuar... Porque afinal ainda sobram muitas interrogações...
Mas por hoje deixo-vos com um poema meu, dedicado a quantos continuam a sonhar Abril:
PROMESSAS DE ABRIL, ESSA ÍNDIA POR ALCANÇAR
A viagem é difícil, é certo...
Mas ( mais uma vez! ),
Quem esperava facilidades?
Só não tolero
os ratos exibindo-se no porão,
afiando as garras no cavername,
mijando na água
e roendo o grão da dispensa comum.
Mas são ratos.
Jamais aprenderão a sonhar
e os seus membros desajeitados
nunca erguerão sobre as águas
o poema da glória e do futuro.
Avançaremos!
Por cada nau afundada,
outra emergirá no Tejo
saída desse pinhal imenso
que é o país de Abril que não desiste.
Aqui todos sabem que os Adamastores
fizeram-se para serem vencidos!
Continuaremos!
Para mais há estrelas no céu
balizando a rota,
e o farol da Liberdade não empalideceu
nem esmerece.
Deixai a sereia cantar...
Do convés ninguém arreda!
Venceremos!