30 agosto, 2009

CONTRA OS LADRÕES, MARCHAR, MARCHAR...


Que me seja desculpado o trocadilho em título, pois com o nosso hino não se deve brincar, nem foi essa a minha intenção, antes pelo contrário...
São de todos conhecidas as circunstâncias em que surgiu a Portuguesa, marcha que, com o advento da República, foi elevada a hino nacional, sofrendo então uns retoques na sua letra original dedicada aos Bretões que haviam «deitado o olho» às nossas [descuidadas] colónias africanas.
O que talvez seja menos conhecido é o facto de a Portuguesa ter estado na base de uma ordem ditada pelo governo regenerador subserviente ao rei D. Carlos, a qual veio proibir as bandas ou filarmónicas de sairem à rua, tocando.
É do jornal «O Alemquerense» a transcrição que se segue:
«A autoridade proibiu, em nome da ordem, que as filarmónicas tocassem pelas ruas.
Esta medida provocou vários protestos de alguns jornais e causou sensação no seio das sociedades musicais.
De hoje em diante os filarmónicos não poderão atroar os ares com as suas notas nem sempre afinadas que faziam chegar as mulheres às janelas e os caixeiros às portas das lojas e só poderão tocar em família nas casas das respectivas sociedades.
Um desgosto para as famílias ... e para os vizinhos!».
Mas qual a causa de tal sanha anti-filarmónica?
«Esta guerra contra os figles [?] e trombones tem por fim evitar que se toque o hino A Portuguesa que, segundo parece, está fazendo arrepios a muita gente, principalmente desde que foi tocado na praça de Cintra diante de suas magestades, no meio de grande entusiasmo, levantando-se todos os espectadores e descobrindo-se, quando pouco antes se tinha feito o contrário ao hino da carta.».
Gostam os monárquicos pilha-bandeiras de apelar a um referendo à República, mas, como se pode verificar pelo que se transcreveu, esse referendo decorreu di-a-dia, País fora, sempre que a monarquia surgia aos olhos do Povo na pessoa desse rei caça-perdizes que ignorava soberanamente, como não podia deixar de ser, o Portugal assim retratado por Guerra Junqueiro no seu poema Finis Patrie:
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Faminto, nu, sem mãe e, sem leito,
Roubei um pão.
Quem vai além de farda e grã-cruz ao peito?
- Um ladrão!
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Todos os crimes da Desgraça
em mim reúno.
Quem vai além tirado a cavalos de raça?
- Um gatuno!
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Pela miséria crapulosa
eu fui traído.
Que esplêndido palácio em festa! Quem o goza?
- Um bandido!
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Viola, seduz, furta, assassina.
Milhão! És rei!
Que prostituta está cantando àquela esquina?
- A Lei!
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( Excerto de um poemeto que Guerra Junqueiro publicou dedicando-o à mocidade académica, «um canto de indignação e protesto, um grito de veemência contra os que arrastaram a pátria à beira do abismo, expondo-a aos insultos da Inglaterra »).
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Mas o mais desesperante de isto tudo é que, entre finais do século XIX e princípios do século XXI, o País não parece ter mudado tanto quanto isso, mantendo-se actual muito do que então os nossos poetas e escritores produziram... O que temos hoje? Portugal a saque, os partidos [mesmo os mais novos!] esclerosados, o futuro incerto!
É pois necessário reagir, não contra os políticos eternos bodes expiatórios do mau povo que somos, mas contra nós próprios. Por mais cidadania, contra os ladrões, marchar, marchar!

20 agosto, 2009

JORNAIS QUE SE PUBLICARAM NO CONCELHO DE ALENQUER - (I) ATÉ AO "ESTADO NOVO"

Jornal d'Alenquer - 1913-1928

O século XIX foi o grande século da imprensa em Portugal. Os desenvolvimentos havidos na indústria tipográfica e na indústria papeleira permitiram que tal tivesse acontecido. Não fugindo à regra, também a vila de Alenquer e o seu concelho assistiram a esse fenómeno. O jornal O Alemquerense, tanto quanto o sabemos, foi o primeiro que por aqui circulou e o Jornal d'Alenquer que acima se mostra, com a implementação da Censura, marca o fim de um período.

Aliás, este número cuja primeira página reproduzimos, insere já ( p.3 ) o ignominioso aviso «Este número foi visado pela comissão de censura». De facto ela vigorava desde 1926, ano em que se deu o golpe nacionalista de Gomes da Costa e teria contribuído para a extinção deste semanário que teve, então, como Director e redactor principal Guilherme Rubim e como editor Heitor P. Soares Corrêa, nomes visíveis de « ... grupo de republicanos representados por Guilherme Rubim» que detinha a sua propriedade.

Passamos a divulgar uma lista dos títulos que ao longo desse período por aqui se publicaram:

1 - O Alemquerense (I) - 1878/1880 - O primeiro com este nome;

2 - Damião de Goes - 1886/1925 - O de mais longa duração;

3 - O Rapaz - 1887 - Número único;

4 - O Alemquerense (II) - 1888/1893 - O primeiro jornal republicano;

5 - O Petiz - 1889 - Número único;

6 - O 17 de Dezembro (I) - 1889 - Número único saído nessa data;

7 - O 17 de Dezembro (II) - 1890 - Número único saído nesta data;

8 - O Cacete - 1891 - Número único;

9 - A Cooperativa - 1895 - Publicaram-se 6 números deste jornal muito ligado ao movimento operário;

10 - Commercio de Alemquer - 1897/1899 (121 números) - Ligado ao Partido Progressista;

11 - O Rapioca - 1897 - Número único;

12 - O Cofre ou O Cafre (?) - 1898 - A primeira designação é de Esteves Pereira e a segunda de Guilherme João Carlos Henriques. Acreditamos tratar-se do mesmo jornal, mas só com alguma investigação isso será esclarecido;

13 - O Alemquerense (III) - 1901/? - O terceiro com a mesma designação;

14 - O Sol - Por enquanto desconhecemos as datas em que se publicou;

15 - O Povo d'Alemquer - 1906/1907 (?) - Ele próprio se intitulava «semanário Progressista»;

16 - Jornal d'Alemquer - 1913/1928 - «Semanário Republicano Independente;

17 - A Razão - 1923/1924 - Defendia a ideologia republicana conservadora;

18 - Gazeta de Alemquer - Tido como regenerador-liberal;

19 - O Merceanense - 1917/? - Afecto ao Partido Unionista de Brito Camacho;

20 - O Saraça - Jornal humorístico;

21 - A Verdade - 1919/1975 - Nasceu ainda na primeira República mas viria a ser o jornal do "Estado Novo" em Alenquer. Por esse motivo o consideramos desse período, embora aqui lhe seja feita referência.

Este é um tema a que, certamente, voltaremos num futuro próximo.


08 agosto, 2009

ALENQUER - EVOCANDO OUTROS VERÕES

O sítio das Águas, pela sua beleza à beira-rio e pela frescura das águas que perenemente brotavam das suas nascentes, foi desde sempre utilizado pelos alenquerenses como zona de lazer e descanso. Ainda hoje o é, muito embora as nascentes estejam há muito encanadas para Lisboa ( crime de lesa-terra praticado pelo Machado, então presidente da Câmara, e nunca perdoado pelos conterrâneos mais idosos ) e o Parque das Tílias aguarde, eternamente, requalificação ( jargão do vocabulário camarária ). O arranjo deste Parque é, porventura, a obra há mais tempo por aqui falada e também, por isso mesmo, há mais tempo esquecida.
Nos anos cinquenta, quando ainda vestia calções, lembro-nos de assistir a verbenas organizadas, salvo erro pelo Sporting local, no terreno onde depois foram edificados os lavadouros públicos hoje adaptados a tanatório. Também por aí teve o Sporting o seu campo de basquetebol, modalidade onde alcançou, nos anos 30/40 notável sucesso. Se agora relembro estes factos, é para arriscar, com alguma probabilidade de sucesso, o palpite de ter sido este o local onde nos finais do século XIX, se realizaram notáveis verbenas, aí e no espaço onde se situa o jardim.
Particularmente, evocarei hoje a que se realizou no ano de 1893 em benefício da Caixa Económica Operária Alenquerense recém-criada. Referindo-se a essa iniciativa estival, noticiou «O Alemquerense»:
«Este ano atentos os planos, será mais brilhante e de mais belo efeito que a do ano passado. Pensa-se em construir grande número de barracas, elegantes e de bom gosto, segundo o desenho do sr. Manuel Viana (...) As duas filrmónicas da vila tocarão aos domingos, e parece que a fanfarra 1.º de Maio, de Vila Franca de Xira, também virá abrilhantar esta festa. A iluminação à moda do Minho e à Veneziana será de grande efeito. Pensa-se também organizar um torneio à antiga portuguesa».
Depois, no seu número publicado no dia 2 de Junho, o mesmo jornal noticiou a inauguração da «Kermesse nas Águas», nestes termos:
«Eram 5 horas da tarde quando se abriu a kermesse com a chegada da filarmónica Operária e pouco depois a filarmónica União dava também entrada no recinto. A concorrência do povo ainda era diminuta.
Ao pôr do sol é que começou a afluir grande quantidade de povo, de volta da festa de Meca, chegando a haver dentro do recinto mais de 900 pessoas.
As barracas, desenho do sr. Viana que gostosamente tomou a direcção dos trabalhos, são de construção simples mas elegante, sobressaindo a barraca do bazar que é linda e revela um bom gosto da parte do artista que a delineou (...) O interior da barraca é forrado de panos de diversas cores, assim como o tecto que é todo em gomos simetricamente dispostos, que dão um tom alegre à barraca.
Os coretos são altos, cobertos de motano [rama de pinheiro] e destoam do estilo da construção das barracas, pois são feitos com pinheiros toscos, havendo no espaço que medeia entre eles um cercle para as crianças dançarem.
Atravessando a ponte que há num lado do recinto fica o restaurant que se está concluindo.
A iluminação não deu o efeito que se esperava apesar da grande quantidade de lumes(...).
O barco pouco ou nada fez por causa da brisa que havia, temendo-se de alguma constipação os habitués daquele divertimento, que é sem dúvida o mais agradável por uma noite de calma, navegar rio acima até à Redonda ou Barnabé, ouvindo ao longe os sons deliciosos das músicas; e quando regressamos, ao passar a ponte, ver de chofre as luzes reflectirem-se nas águas, serpeando, torcendo-se em caprichosos zigues-zagues, e por entre os eucaliptos e plátanos perpassando gentis vultos femininos envoltos em garridas toilettes, pondo uma nota alegre no meio da multidão que se agita, que ondula... Lindo!».
O barco de que aqui se fala chamava-se Pero de Alenquer, podia transportar uma dúzia de passageiros e havia sido trazido para a vila um ano antes, quando de um evento semelhante.
Voltaremos a esta kermesse e a este Verão de 1893 ...

31 julho, 2009

QUANDO O HILÁRIO DEIXOU DE CANTAR À NOITE NO CHOUPAL

Sinceramente. Custa-me a acreditar que haja alguém que, em noitada de «boa disposição», não tenha intentado cantar o fado coimbrão que nos diz que Quando o Hilário cantava/à noite no choupal/toda a tricana escutava/ai, a sua voz de cristal. Cantou-o sim senhor, pelo menos para concluir que poderia ter muito jeito para os copos, mas nenhum para cantar...
Confesso que quando o fiz lá pensei que o tal Hilário era uma figura imaginária, um estudante sem rosto, nem identidade. Mas não. Augusto Hilário Costa Alves foi, de facto, estudante de Medicina em Coimbra.
Em 1896, quando nessa cidade frequentava o terceiro ano de um curso que, assim o desejava, o deveria conduzir à carreira de médico naval, foi a Viseu, à casa da família, passar as férias da Páscoa e aí faleceu vítima de uma doença fatal à época, a tuberculose.

Um Cancioneiro de Músicas Populares, 3 Vol., 1893/1899 - guardado na Biblioteca Nacional - «colecção recolhida e escrupulosamente trasladada para canto e piano por César A. das Neves / coord. a parte poética por Gualdino de Campos; pref. pelo Exm.º Dr. Teófilo Braga», acolheu os últimos versos escritos pelo estudante Hilário, com a seguinte nota: «Quando nas férias de 1895, Hilário se hospedou em uma dependência do escritório da nossa empresa, ofereceu-nos esta composição dizendo-nos que era o seu último fado, mas que tencionava adicionar-lhe algumas variações e que reservássemos a publicação para quando ele as tivessse composto definitivamente. A morte acaba de surpreender este simpático académico, que se tornou célebre em todo o país pelos seus fados, dos quais este é o terceiro e último que publicamos»:


Á porta do Infinito
A traços largos, profundos
A mão de Deus tinha escrito:
Os teus olhos são dois mundos
...
O mar também tem amante,
O mar também tem mulher,
É casado com a areia,
Dá-lhe beijos quando quer.
...
A minha capa velhinha
Tem a cor da noite escura;
Não a quero por mortalha
Quando fôr p'ra sepultura.
...
Eu quero que o meu caixão
Tenha uma forma bizarra,
A forma de um coração,
A forma de uma guitarra.
...
Guitarra, minha guitarra,
Solta os teus ais, minhas queixas,
És tú a única amante
Que por outro me não deixas!
...
Vai alta a lua, vai alta,
Brilha nos céus, branca lua;
Vem tu vê-la, minha amada,
Iluminando esta rua.

São ainda de Hilário, mas recolhidos por Fausto Guedes Teixeira, estes últimos versos:

Ouvi dizer ao luar
Com trinados na garganta:
- Quem canta seu mal espanta...
E pus-me então a cantar.
...
As minhas canções vermelhas
Rimá-las-hei com martírios,
Ao ritmo das abelhas
Nas folhas roxas dos lírios.
....
E no País das Quimeras
mil vozes d'anjos dispersos,
A música das esferas,
Hão-de cantar-te os meus versos.
...
Mas é tão fria a luz calma
Do teu olhar...que flagelo!
Se a tua Alma é um mar de gelo
E o olhar é o espelho da alma...
....
Serve-te a madeixa negra
De moldura ao rosto franco,
Como se uma toutinegra
Pousasse num lírio branco,
...
E as minhas quadras singelas,
Feitas de crenças e anelos,
São pequeninas estrelas
Que atiro p'ra os teus cabelos.
....
Nesse teu lábio vermelho
Há risos do sol d'Agosto:
A Alvorada é um espelho,
Onde se mira o teu rosto.
...
A Lua, onde os olhos fito,
A face em nuvens recata,
Como lágrima de prata
Na pálpebra do Infinito...
...
Ás vezes, quando indiciso
Me curvo p'ra o teu olhar.
Vem n'uma lágrima um riso:
-Raio de sol sobre o Mar!
...
E passo a vida tristonho
A cantar, por não saber
Se a Vida está só no Sonho
E a Realidade em morrer...
...
Pequenas da minha terra,
Dou-vos canções; dai-me beijos!
A quem sua alma descerra,
Vai-se-lhe a Alma em desejos!
...
Tenho já seca a garganta:
E como é que isto é, não sei!
-Quem canta seu mal espanta...
pus-me a cantar...e chorei!