25 outubro, 2009

CHEMINA - PATRIMÓNIO A PRESERVAR?

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«Cabe então proteger só o que é "antigo"? Proteger o que é antigo e só ou sobretudo porque é antigo? De modo algum. O critério de preservação há-de ser sempre o da qualidade da peça. Nem tudo o que é antigo no domínio do património histórico-artístico merece ser conservado - há que dizê-lo definitiva e corajosamente
- Pais da Silva in Pretérito Presente, pp. 24-25.
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Quanto à "qualidade da peça" diga-se desde já que, infelizmente, não é a melhor, pois o bonito edifício que se vê acima ardeu por completo há nove anos atrás e, ao contrário do da fábrica da Romeira, classificado como "Imóvel de interesse público", nunca ele mereceu essa distinção.

Este edificio onde laborou uma fábrica de lanifícios começou a ser construído em 1889 com projecto traçado por José Juvêncio da Silva, um autodidacta alenquerense a quem se ficou igualmente a dever o projecto do edifício dos Paços do Concelho. A 31 de Agosto desse mesmo ano, festejou-se rijamente o "pau-de-fileira" e, em Junho do ano seguinte, seria inaugurado.

Por obra do destino e de apertos financeiros dos sócios-gerentes, a Chemina foi adquirida pelo Município por volta do ano 2000, porque o seu executivo, com clarividência e savoir fair, viu na antiga fábrica utilidade para qualquer coisa, mas do mesmo modo que viu essa utilidade, também facilmente dela se esqueceu, como o indicia o facto de ter decorrido uma década sem que lhe haja dado qualquer destino, sem que lhe tivesse traçado projecto ( houve um, mas foi para inglês ver e benefício de quem o fez...).

Mas deixemos por agora isto de lado e olhemos para a Chemina como peça de património, para formularmos uma pergunta: Estando ela no estado em que está e atendendo ao que ela representa, valerá a pena preservar o que resta do antigo edifício industrial?

Esta mesma pergunta tenho-a eu feito directamente a algumas pessoas que invariavelmente respondem: Deitar aquilo abaixo? Nem pensar! Um edifício tão antigo...

Bom. Há coisas que felizmente os portugueses vão aprendendo, como reciclar o lixo, poupar água e... também a dar valor a tudo o que é velho, mas só porque é velho, pois ainda lhes falta mais qualquer coisa para um juízo crítico da questão. Mas convenhamos que já não é mau... Entretanto vejamos o que escreveu o Prof. Doutor Pedro Gomes Barbosa sobre esta matéria:

«(...) a realidade não se compadece com o "ideal", e não é humana e economicamente possível tudo conservar, por vários motivos que facilmente poderão ser entendidos. Desde logo, a falta de meios humanos qualificados para exercerem essas tarefas. Em seguida, as verbas sempre escassas para empreendimentos que exigem, por vezes somas vultuosas. Por fim, como um dos pontos principais, a necessidade de sacrificar parte do que Foi para construir aquilo que Será».

Realmente lendo isto e olhando para o nosso imponente e belo edifício dos Paços do Concelho, cuja construção foi acompanhada da construção da Variante que pela Vila Alta passou a ligar a estrada que vinha do Carregado à que ia para a Merceana, dou comigo a pensar quanto tudo isso custou em património que se foi: A medieval porta de Santo António ou da Vila, a Casa Velha da Câmara do século XVII, o Celeiro das Jugadas do séc. XVIII, o Largo do Pelourinho com a sua capela, o que restava da muralha até ao Arco da Conceição...

Mas a verdade é que então ninguém se preocupou muito com isso ( os jornais da época o confirmam), as coisas eram mesmo assim, o progresso não se detinha perante as pedras antigas que, no que respeita ao atrás citado, lá estão por debaixo do alcatrão que hoje forra a estrada para Torres ou em paredes e muros da velha Judiaria ou mesmo na muralha de suporte ao Largo Luís de Camões e à Rua dos Muros. Se assim não fosse, por debaixo da Lisboa actual não estaria a Lisboa setecentista caída com a Terramoto, a Medieval, a Moura, a Romana, a Fenícia... estratos e mais estratos dos quais qualquer arqueólogo em perfeito juízo foge a sete pés.

Portanto esta preocupação com o antigo é uma preocupação actual e a ela voltaremos para continuarmos a falar da Chemina.






18 setembro, 2009

ALENQUER, VILA "DONUT"?



O que é que todos os Donuts têm em comum? O Buraco! Por isso mesmo eu digo que o centro da vila de Alenquer transformou-se num grande Donut, um imenso buraco onde já ninguém vive! Os habitantes foram centrifugados para a periferia, para as novas urbanizações. Por aqui ficou o que resta da população, idosa como não podia deixar de ser, alguns serviços e um comércio tradicional decadente, um comércio que sendo por natureza de proximidade, não encontra a quem vender, porque a proximidade é... o vazio.

Como isto aconteceu? Como ninguém deu por isso?

«O que me choca, enquanto ambientalista e socialista, é o Governo do meu partido falar de ordenamento do território quando ao manipular a péssima legislação urbanística que temos, sinistra nas suas omissões sobre a economia imobiliária, mais não faz do que distribuir mais-valias urbanísticas por quem entende».

-Eugénio Sequeira - "Ordenamento e urbanismo: política, ambiente e corrupção" In Ops!, n.º4 (28 de Julho de 2009), p. 17

Foi isso, essa distribuição de "mais-valias urbanísticas" aos agentes imobiliários, aos patos-bravos do cimento, que fez nascer na periferia das cidades e vilas urbanizações e mais urbanizações onde se escoou a população que vivia nos Centros. Como?

«A legislação urbanística portuguesa de hoje em dia, em contrapartida, é uma verdadeira obra-prima da corrupção sistemática do aparelho do Estado e das Autarquias. Pode dizer-se que um especulador não teria escrito melhores leis para si mesmo. Desde que foi publicado o Decreto-Lei n.º 46/673, fazendo da privatização de loteamentos e mais-valias urbanísticas o estribo da política nacional de solos(1), uma minoria de políticos e funcionários públicos que controlam a emissão de alvarás urbanísticos e a revisão de planos de ordenamento detêm o poder quase soberano de redistribuir a riqueza nacional a favor de quem lhes aprouver, sem necessidade de prestarem quaisquer contas perante os restantes cidadãos. A perspectiva de conquistar essas "fortunas trazidas pelo vento" ( ganhos económicos não resultantes de actividades económicas produtivas da parte do beneficário ) a que se chama mais-valias urbanísticas, graças ao controlo de certos cargos políticos e administrativos atrai para a vida partidária não poucos oportunistas ansiosos por sobraçar pastas e pelouros ligados ao urbanismo. Quem paga este jogo? Quem ganha com ele?

- Pedro Bingre, "A bolha imobiliária: duas faces da mesma (falsa) moeda" in Ops! , n.º 4, p.9

Quem paga é sempre o mesmo: o Zé. Mas também as nossas vilas e cidades. Veja-se o que aconteceu à cidade de Lisboa, a capital:

«De acordo com um estudo recente (...) que visa caracterizar o mercado residencial de Lisboa, nas suas nuances, este concelho perdeu cerca de 10,7 mil residentes/ano entre 2001 e 2008, o que se traduz em termos absolutos em menos de 75.000 residentes. "Este decréscimo teve na sua origem o designado fenómeno denominado por periurbanização, caracterizado pelo aumento populacional das periferias (...).

O decréscimo populacional, influenciado entre outros factores pelo aumento da idade da vida activa, por diminuição do índice de fecundidade e de natalidade e o aumento da proporção de famílias unipessoais ( maioritáriamente constituídas por idosos ), são alguns dos aspectos apontados pela APEMIP como justificativo da diminuição do número de habitantes por fogo, tanto em Lisboa como no resto do País.).

- In Expresso Imobiliário, 13 de Setembro de 2009.

Pelo menos nisto Alenquer assemelha-se a Lisboa. Quem como eu anda por aqui há 62 anos, conhecia/conhece cada casa e quem lá morava. Cada fogo uma família! Hoje o deserto instalou-se ( não é preciso atravessar o Tejo...). A Rua Triana aquela que um dia foi a principal rua da vila, a rua mais comercial da urbe, à excepção de um moderno bloco de apartamentos, apresenta as suas casas de habitação 2/3 devolutas, as que o não estão, têm como morador(a) um idoso. Quanto às que estão habitadas, se achássemos a média etária dos que lá vivem, certamente que ficariamos (ou não) admirados ao verificarmos que os escalões etários largamente maioritários seriam os dos 50/60 e +70, portanto população idosa, por natureza com hábitos e necessidades de consumo modestos. Por isso o comércio definhou, pelo que apontar o dedo ás «grandes superfícies» é ver nelas «moinhos de vento» como adversários ( que também o são) implacáveis.

Estamos à beira das eleições legislativas e autárquicas. Quanto às primeiras, espero que o José Sócrates ainda se lembre da promessa de há quatro anos de «tornar o poder local menos dependente do imobiliário» e a retome, desta vez para a concretizar caso seja eleito. Também se não se lembrar não será por isso que deixarei de votar nele, mas terei pena.

Quanto às segundas, espero que os programas eleitorais locais acolham no se ponto «Políticas de Habitação» esta questão como uma das suas preocupações, nem que seja para as respectivas forças políticas manifestarem a vontade de procederem, quando eleitas, a um rigoroso inquérito, «porta-a-porta», que nos dê uma radiografia nítida do estado a que a vila chegou. Pelo menos era um princípio...

Nota: Ainda ficou por referir as casas degradadas, as casas de habitação que o deixaram de ser para passarem a ser de serviços, os factores desmotivadores de fixação populacional como os ilegais ( assim nasceram, assim continuam, não ponham lá moeda porque ninguém vos poderá multar ) parquímetros, supostamente a favor do comércio, objectivamente contra os moradores, em função do Regulamento que a Assembleia Municipal ainda não aprovou, isto com a soberana indiferença ( ou incompetência?) de TODA a Câmara, mesmo quando os juristas da CCDR-LVT já emitiram parecer político esclarecedor.

(1) - A Política de Solos instituída pelo Decreto-Lei n.º 794/76 de 24 de Novembro sempre foi, para todos os efeitos práticos, letra morta. O Código de Expropriações (DL 168/99), o Regime Jurídico de Loteamentos Urbanos (DL 448/91 e o Regime JUrídico dos Instrumentos de Gestão Territorial (DL 380/99) configuram, na sua substância, a real política de solos do nosso país e limitam-se a seguir o espírito do diploma de 1965.

09 setembro, 2009

VAMOS ROUBAR CABRITOS AO "CHINA"?

Cidade da Nacala, no Norte de Moçambique, onde se situava o A. B. 5 ( a 15 K.)

Passaram-se agora 40 anos, e... por isso, hoje apetece-me falar desses tempos em Mueda, quando servi no Aeródromo de Manobra n.º 51, a unidade mais operacional de toda a Força Aérea Portuguesa em todos os tempos! Este Aeródromo dependia do Aeródromo Base N.º 5 em Nacala, essa "cidade" que acima vos apresento num postal de 1969.

Cheguei a Nacala em 1968, a partir de Nampula, trazido por um comboio tipicamente do séc. XIX, da boa era colonial, um comboio com máquina a lenha que, nas subidas, tinha que fazer marcha-atrás para recuperar forças que o habilitassem a ultrapassar a dificuldade. Em alternativa, circulavam umas pequenas ( quase do tamanho de um autocarro ) automotoras a diesel que, volta não volta, tinham furos... Aí todos desciam e iam ajudar a mudar a roda.

Após o meu primeiro acordar no A.B. 5, dirigi-me na companhia de outros camaradas mais antigos na unidade para o refeitório. Este refeitório era já de "paredes levantadas", mas tanto ele como a cozinha deixavam muito a desejar. Aliás, parte da cozinha funcionava ainda ao ar livre, num terreiro anexo, com panelões fervendo em cima de fogueiras. Era aí que se misturava o leite em pó à água em ebulição, após o que se adicionava o café, e, "voilá", aí tinhamos o belo café com leite que, acompanhado de pequenos pães - duríssimos porque eram de farinha de mandioca misturada com alguma de trigo - barrados com margarina, constituia a nossa primeira refeição.

Só que este café com leite, depois de confeccionado, ali ficava destapado, à espera de ser levado para dentro, para o refeitório, logo à mão de semear de qualquer comensal inoportuno. E, foi assim, que vi vir na minha direcção um alentado bode com as suas longas barbas escorrendo café com leite!!! Um dos camaradas mais antigos que me acompanhava, perante o meu ar de incredulidade, deu-me uma "tapa" nas costas e disse:

«Primeira lição: Se um dia o bode não te aparecer, não tomes o pequeno almoço pois o café com leite está envenenado!».

Pensavam que vos ia falar de guerra? Não. Vou falar-vos de comida, pois ao vinte anos a guerra não era a nossa preocupação maior, mas sim a comida. Aos vinte anos temos um estômago do tamanho do mundo!

Antes de vos levar para Mueda ainda vos quero deixar um pequeno apontamento sobre o nosso refeitório em Nacala. Havia tantas, tantas moscas, que não se conseguia comer um prato de sopa sem que antes não"aterrassem" lá dentro meia dúzia de exemplares! Mas um dia o refeitório foi modernizado e foi instalada uma cozinha a vapor. Então não é que quase não havia moscas?! Foi quando dei com um camarada de mesa esforçando-se por alcançar em pleno voo uma solitária mosquita que por ali esvoaçava. Logrado o feito, lançou-a de imediato dentro do seu prato fervente. Reacção dos companheiros de mesa: «Eh pá! Que porcaria vem a ser essa?». Ao que ele respondeu: «Desculpem lá, mas a sopa até nem me sabe bem se não tiver pelo menos uma mosca lá dentro».

Mueda... Bom, Mueda era a capital do Planalto dos Macondes e aí, a uma ponta dessa elevação, ligeiramente distanciado do Exército, ficava o nosso modesto A.M.51. Meia dúzia de aviões e hélis, pouco mais do que meia centena de homens. Também por lá a comida era pouco abundante...

Na natureza tentámos encontrar um qualquer suplemento alimentar, mas, o que por mais lá havia, a jeito de levar um tiraço, eram... corujas! Corujas? «Eh pá sabe-se lá se não darão um bom guizado?». E deram! Mas confesso que o meu atrevimento não foi além de, timidamente, ensopar o pão naquele molho tentador...

Até que um dia alguém fez um reparo: «Hoje vi o rebanho de cabras do "China" a pastar aqui perto». Houve olhares entrecruzados e um pronto: «Está feito! Vamos aos cabritos!». Alguém se lembrou dos meios: «Mas como? A pé?». Resposta do Mariano: «Falamos com o "Fittipaldi" e ele leva a Bedford».

Chegados aqui perguntarão: « Mas quem eram o "China" e o "Fittipaldi"? O "China" que por acaso era indiano, era o proprietário de uma cantina que atendia os militares portugueses pela porta da frente e os da Frelimo pela porta das trazeiras. Assim ganhava a vida e nada mal, ao que constava... O "China" tinha uma filha, que não cheguei a conhecer pois estudava na Beira ou em LM. Dizia-se que era tão feia, tão feia, que se morria de susto só de olhá-la e, talvez por isso, um jornal do "Continente" publicou uma reportagem onde se anunciava que o seu pai oferecia um Mercedes a quem se oferecesse para noivo dela. Penso que não deve ter ficado solteira...

Já o "Fittipaldi" era um nosso camarada soldado-condutor. Dizia-se que o epíteto lhe adveio do seguinte feito: Certo dia ele e a sua Bedford azul terão ido numa coluna do Exército a Mocímboa da Praia, que ficava na costa, fazer abastecimento. À vinda para cá, carregado de bombas, o "Fittipaldi" terá abandonado a coluna porque achava que ela vinha demasiado devagar, e chegou a Mueda umas boas horas antes da referida coluna. Isto não seria nada de espantar, não se desse o caso dessa "picada" não se percorrer sem emboscadas e rebentamentos de minas!

E o golpe deu-se! Escolhido o cabrito, o Paulo de faca de mato na mão saltou da Bedford em andamento e enterrou-a no tenro pescoço do dito cujo (custou-lhe um pé partido e mais alguns dias e Mueda). Pediu-se um grande tabuleiro na cozinha e os respectivos condimentos. Depois, de boleia, fez-se a viagem ao Exército e lá se assou o bicho na padaria. Foi um lauto banquete, uma festa até às tantas!

Sei que, até ao fim da guerra, tornou-se tradição «roubar cabritos ao "China"» mas reivindico, para o grupo abaixo, onde falta o "Fittipaldi", a "honra" de ter sido ele a dar início a essa «praxe»! Quanto ao "China.... Nunca deve ter dado pela falta dos cabritos, tão preocupado que andava em casar a filha!

Da esquerda para a direita: Mariano (Mec. Electricista), o vocalista dos "5 Latinos" de Setúbal que cantava bem em todas as línguas menos em português, Paulo, do Montijo, um "doente" da companhia do Sagal em tratamento em Mueda, Lucas (Comunicações), o "Maravilhas", assim chamado por andar sempre bem disposto, e, o quarto, eu próprio ( Mec. de Rádio).

30 agosto, 2009

CONTRA OS LADRÕES, MARCHAR, MARCHAR...


Que me seja desculpado o trocadilho em título, pois com o nosso hino não se deve brincar, nem foi essa a minha intenção, antes pelo contrário...
São de todos conhecidas as circunstâncias em que surgiu a Portuguesa, marcha que, com o advento da República, foi elevada a hino nacional, sofrendo então uns retoques na sua letra original dedicada aos Bretões que haviam «deitado o olho» às nossas [descuidadas] colónias africanas.
O que talvez seja menos conhecido é o facto de a Portuguesa ter estado na base de uma ordem ditada pelo governo regenerador subserviente ao rei D. Carlos, a qual veio proibir as bandas ou filarmónicas de sairem à rua, tocando.
É do jornal «O Alemquerense» a transcrição que se segue:
«A autoridade proibiu, em nome da ordem, que as filarmónicas tocassem pelas ruas.
Esta medida provocou vários protestos de alguns jornais e causou sensação no seio das sociedades musicais.
De hoje em diante os filarmónicos não poderão atroar os ares com as suas notas nem sempre afinadas que faziam chegar as mulheres às janelas e os caixeiros às portas das lojas e só poderão tocar em família nas casas das respectivas sociedades.
Um desgosto para as famílias ... e para os vizinhos!».
Mas qual a causa de tal sanha anti-filarmónica?
«Esta guerra contra os figles [?] e trombones tem por fim evitar que se toque o hino A Portuguesa que, segundo parece, está fazendo arrepios a muita gente, principalmente desde que foi tocado na praça de Cintra diante de suas magestades, no meio de grande entusiasmo, levantando-se todos os espectadores e descobrindo-se, quando pouco antes se tinha feito o contrário ao hino da carta.».
Gostam os monárquicos pilha-bandeiras de apelar a um referendo à República, mas, como se pode verificar pelo que se transcreveu, esse referendo decorreu di-a-dia, País fora, sempre que a monarquia surgia aos olhos do Povo na pessoa desse rei caça-perdizes que ignorava soberanamente, como não podia deixar de ser, o Portugal assim retratado por Guerra Junqueiro no seu poema Finis Patrie:
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Faminto, nu, sem mãe e, sem leito,
Roubei um pão.
Quem vai além de farda e grã-cruz ao peito?
- Um ladrão!
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Todos os crimes da Desgraça
em mim reúno.
Quem vai além tirado a cavalos de raça?
- Um gatuno!
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Pela miséria crapulosa
eu fui traído.
Que esplêndido palácio em festa! Quem o goza?
- Um bandido!
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Viola, seduz, furta, assassina.
Milhão! És rei!
Que prostituta está cantando àquela esquina?
- A Lei!
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( Excerto de um poemeto que Guerra Junqueiro publicou dedicando-o à mocidade académica, «um canto de indignação e protesto, um grito de veemência contra os que arrastaram a pátria à beira do abismo, expondo-a aos insultos da Inglaterra »).
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Mas o mais desesperante de isto tudo é que, entre finais do século XIX e princípios do século XXI, o País não parece ter mudado tanto quanto isso, mantendo-se actual muito do que então os nossos poetas e escritores produziram... O que temos hoje? Portugal a saque, os partidos [mesmo os mais novos!] esclerosados, o futuro incerto!
É pois necessário reagir, não contra os políticos eternos bodes expiatórios do mau povo que somos, mas contra nós próprios. Por mais cidadania, contra os ladrões, marchar, marchar!