08 abril, 2010

UMA NOTÍCIA SOBRE FÁTIMA

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Quando Fátima e mais uma visita papal ao já chamado "altar do mundo" começaram a ocupar um lugar destacado nos nossos noticiários, moveu-me a curiosidade de ver se os acontecimentos de há quase um século haviam colhido a atenção da impresa local, o mesmo será dizer do «Jornal d'Alenquer", o único título que então por cá se publicava.
Não encontrámos grande coisa, mas aqui fica a notícia que o n.º 212 de 21 de Maio de 1917 publicou sob o título «Milagre»:
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Parece que a Virgem se resolveu a dar uma passeata até à Terra e desprendendo-se das regiões etéreas onde habita, veio pousar no cucuruto de uma carvalheira, na charneca de Fátima, para os lados de Vila Nova de Ourém e Torres Novas.
É grande honra para este pequeno e lindo jardim da Europa à beira mar plantado, o ter sido escolhido pela divindade para a manifestação da sua omnipotência.
Caso é que tendo sido o espectáculo anunciado com antecedência, o número de espectadores foi considerável, organizando-se uma romaria não de peregrinos de cabaça e bordão, como nos tempos antigos, mas sim à moderna, numa longa fila de automóveis, trens e toda a espécie de veículos. E todos, todos, sem excepção, para cima de 50 mil pessoas segundo os cálculos mais baixos, viram o milagre:
O sol, tremeu...tremeu...tremeu e quedou silencioso.
A Virgem anunciou à turba extática, de joelhos em fervorosa adoração, pela boca dos pastorinhos seus intérpretes, tocados da graça divina, que a guerra acabaria em pouco.
E falou em bom português.
Depois o sol tremeu novamente e... acabou o milagre.
Devemos confessar que para uma manifestação divina foi uma insignificante ninharia.
Vimos num jornal que um negociante do sítio, maçon e ateu, ganhou um dinheirão vendendo bentinhos e santos de papel aos papalvos. Saiu-lhe a sorte grande, o maroto!
E enquanto este bom povo acorre aos milhares para ver milagres, no século das luzes, os negócios públicos correm à vontade de dois ou três, que vão tirando da ignorância popular o melhor apoio para a satisfação das suas ambições.

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07 abril, 2010

HOMENAGEM A UM ALENQUERENSE

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Quando hoje de manhã saí de casa com máquina a tiracolo para fotografar o painel de azulejos reproduzido abaixo ( da autoria de Mestre João Mário e implantado na Av. dos Bombeiros Voluntários ) disse cá para comigo: Sempre é verdade aquilo que li algures, que não há luz para fazer fotografias como a da Primavera e a do Outono. Uma manhã clara fazendo minhas as palavras de um poeta.
Foi quando fotografava que recebi a notícia: Morrera o Graciano Troni. Um velho amigo que o gosto comum pela história da nossa terra aproximara, embora desde sempre nos conhecêssemos, nessa Vila Alta da minha infância e juventude, quando o Graciano era colega do meu pai na secretaria da Câmara.
O Graciano Troni era uma das poucas memórias vivas do nosso passado colectivo e foi, desde sempre, um alenquerense disponível para as colectividades da sua terra. Como ele me disse um dia, presidiu a todas as colectividades da vila, mas, sublinhou, quando elas atravessavam momentos difíceis da sua existência.
A propósito, lembro-me de uma história engraçada que o Carlos Cordeiro gosta de contar:
«Eu era então presidente do Sporting Clube de Alenquer e o Graciano presidente do Alenquer e Benfica. Nesse tempo, quando ambas as colectividades tinham futebol, as duas entraram em contencioso por causa da inscrição de um jogador que, por acaso, nunca foi grande jogador mas que se notabilizaria numa outra modalidade. E como o assunto não se resolvia, fomos chamados à presença do presidente da Associação de Futebol de Lisboa.
Aí a briga repetiu-se perante a estupefacção do anfitrião que por fim desabafou:
- Ora esta! Um é benfiquista ( o Graciano ) e preside ao Sporting, o outro é sportinguista ( o Carlos) e preside ao Benfica, ainda por cima são amigos... e eu é que estou aqui a aturá-los? Façam favor ponham-se na rua e decidam isso lá entre vocês!».
E assim acabou o diferendo.
Para o Graciano, pois, em jeito de homenagem, aqui ficam as fotografias feitas na manhã clara do dia em que definitivamente nos deixou. Fotografias da sua Alenquer, que ele amava como poucos.







19 março, 2010

MONTEJUNTO - A NOSSA SERRA (I)

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A muito desejada Primavera de 2010 já entrou em cena, sem grande sucesso, diga-se... Mas será possível falar de Primavera sem falar de Montejunto, a nossa ( de Alenquer, do Distrito de Lisboa, do Oeste estremenho, de Portugal ) Serra, que por esta altura do ano veste a sua melhor roupagem?
Claro que não! Por isso mãos à obra, uma obra que aqui fica em jeito de convite.
. - A Serra de Montejunto, ao longe, em dia de nevão, vista da Portela de Vila Verde
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Diz o já antigo Mappa de Portugal, Antigo e Moderno (1762/3) do Padre João Bautista de Castro que a «Duas léguas e meia de Alenquer contra Norte se estende esta serra a que antigamente se chamava monte Tagro (...). Dizem alguns que é a mais alta serra de Portugal e que terá de circuito mais de quatro léguas e de altura meia légua. No alto é terra fértil e há duas lagoas de boa água. venera-se numa ermida Nossa Senhora das Neves e o primeiro convento de religiosos dominicanos neste reino, que fundou o Venerável Frei Soeiro Gomes».
Sabemos hoje que não é a mais alta de Portugal, pois situa-se à cota 666, para alguns o número da «besta», daí que alguns lhe chamem a Serra do Diabo, fantasia sem sentido, já se vê, pois quem lá manda é nossa Senhora das Neves que tem romaria todos os dias 5 de Agosto, data em que a banda de Pragança sobe à serra na companhia da população do lugar e de outros romeiros dos lugares vizinhos.
Quanto às duas lagoas lá no alto, bem, salvo melhor opinião, julgo que já desapareceram. Uma, provavelmente, seria aquela que se situava bem perto da porta de armas da antiga Esquadra 11 do GDACI da Força Aérea, pequenina, mas com certa graça . O seu carregamento de águas era natural, mas a partir de desastrada intervenção da autarquia responsável que a transformou num tanque artificial, água só aquela que para lá levam os auto-tanques dos bombeiros...
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- Ruínas do Convento
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Lá bem no alto situam-se a citada ermida e as ruínas daquele que foi, efectivamente, o primeiro convento dos frades dominicanos em Portugal. Foi este fundado por Frei Soeiro Gomes que vindo da vizinha Espanha, onde pregara em Barcelona e Saragoça e muitas outras terras, chegara a Portugal quando o reino estava interdito por força do conflito que opôs o rei D. Afonso II a suas irmãs. Em consequência desse conflito, só Alenquer que pertencia à rainha ( então as filhas de rei usavam este título ) D. Sancha escapou à excomunhão, daí os frades nele se terem instalado, nas alturas de Montejunto, depois de em 1217 haverem recebido da infanta D. Sancha a Capela da Senhora das Neves.
Frei Luís de Sousa, na sua História de S. Domingos, descreve assim a vida destes frades:
«Ao trabalho da casa seguia-se o de fora, tanto mais intolerável, quanto era tomado por gente exausta de forças com os rigores caseiros. Desciam a serra, entravam nos lugares a mendigar a pobre manutenção. Amanhecia em Alenquer e pelos lugares vizinhos a doutrinar, a ensinar a pregar; e depois de cansado e moído deste serviço, ia também de porta em porta pedindo um pedaço de pão para si e para os seus. E quando havia de aliviar, tornava a subir a serra, subida só por si, quando muito ocioso e folgado andara, era tormento excessivo».
Era, pois, tida como dura a vida destes monges, dureza que havia de levar ao abandono desta casa. Porém, trabalhos arqueológicos recentes, numa dolina abatida que servia de poço de despejos da cozinha conventual, trouxeram ao de cima pedaços de louça pertencentes a baixela muito fina e restos alimentares onde avultavam os mariscos da nossa costa...
A pouca distância do que resta deste convento, encontra o visitante as ruínas de um outro mais recente, do séc. XVIII, dos tempos da reforma desta Ordem.
. - Calçada medieval de acesso ao Convento, vista deste.
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Descendo a serra e por detrás das instalações da Força Aérea, junto do pequeno parque de lazer que lhe fica anexo e do «centro de interpretação da serra» com o seu pequeno mas agradável parque de campismo, encontra o visitante a «Fábrica do Gelo», esta do séc. XVIII quando à Corte lisboeta chegaram hábitos italianos de sobremesas geladas.
Em tanques fazia-se o gelo que depois era armazenado em profundos poços. Envolto em palha, daí saía o gelo para Lisboa, descendo a serra em mulas que tomavam o caminho do porto fluvial de Vila Nova da Rainha ( ou Vala do Carregado como alguns opinam, embora pessoalmente acreditemos que era pelo primeiro ), seguindo rio abaixo para Lisboa.
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- Montejunto - Fábrica do Gelo - À esquerda tanque de distribuição e à direita tanques onde se formava o gelo nas noites frias.
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- Montejunto - Fábrica do Gelo - Edifício do depósito. Daqui seguia para a Corte.
Tanto Montejunto como a vizinha Serra d'Aire e Candeeiros são maciços calcários, logo com uma geo-morfologia caracterizada pela existência de muitas grutas. Por vezes a vegetação esconde a sua existência, já que as entradas são diminutas, mas apesar de nem sempre ser fácil a sua localização, estão identificadas mais de uma centena. Algumas delas revelaram ocupação humana, outras estarão identificadas como tal, mas essa identificação dorme no «segredo dos deuses» até que os trabalhos possam ser feitos em segurança, pois já aconteceu um caso deplorável de vandalização de um importante achado arqueológico.
A espelologia é pois uma actividade que a serra propicia... mas só para quem está preparado para ela, ou enquadrado por quem esteja. Por piada, fica aqui o registo de uma experiência lá vivida, mas numa gruta muito acessível e na companhia de técnicos habilitados. Acreditem esta é uma actividade perigosa que não deverá ser intentada por quem não tenha experiência na matéria.
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- Montejunto - Entrada para uma gruta identificada como "Mineiros II"

- Montejunto - O «espeleólogo» improvisado ri porque ainda hoje está para saber como conseguiu passar por aquele buraquinho lá ao fundo. .
- Montejunto - Vila Verde dos Francos - Moinho do Ilídio.
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Passeio Pedestre organizado pelo Pelouro do Ambiente da Câmara Municipal de Alenquer, Casa da Serra
PASSEIO DAS FLORES
Comemorações do Ano Internacional da Biodiversidade
Dia 24 de Abril de 2010
Inscrições gratuitas no site da Câmara, até à quinta-feira que antecede o passeio
Dificuldade média ( extensão mínima de 10 Km, declives moderados e piso irregular ) - 12 Km
Ponto de Encontro: Casa da Serra - Montejunto - Vila Verde dos Francos - 9 H.












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22 fevereiro, 2010

PORTUGAL DE LUTO

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A "tempestade do século" abateu-se sobre a linda ilha da Madeira levando vidas e fazendo incontáveis estragos. Nesta hora em que «ainda se conta os mortos» o nosso pensamento está lá, junto dos que lutam contra a adversidade.
Ao ver as imagens terríveis do quanto pode a Natureza em fúria, não posso deixar de pensar na minha última estadia nessa «pérola do Atlântico», particularmente no Museu da Electricidade ( numa zona muito atingida... ) onde tive o privilégio de assistir a um concerto dado pela Orquestra de Bandolins da Madeira. Noite agradável de Verão... Não muito longe dali, na Praça do Município, onde não cabia a «cabeça de um alfinete», Marisa dava um concerto. Mas no bonito e interessante Museu da Electricidade, uma audiência 90% jovem, esgotava por completo a enorme sala para ouvir os bandolins! Perante essa prova de amor pela cultura, saí de lá admirando ainda mais esse povo ilhéu, fortalecido na luta contra os elementos.
Na Madeira existe uma consciência muito esclarecida quanto ao que vale o Turismo para o arquipélago. Por isso, palavras sábias as do Presidente do seu Governo Regional, alertando para os perigos de uma demasiada dramatização ( ele, todos nós, conhecemos bem esses telejornais «pastilha elástica» mastigada por fartas audiências ), palavras essas que não deixaram de nos lembrar a insensatez de outras dramatizações que, ultimamente, têm vitimado o governo da República ( e a todos nós! ).
Com a ajuda dos portugueses e da Comunidade Europeia a que ( felizmente! ) pertencemos, a Madeira voltará a ser aquilo que era: um paraíso turístico de que todos nos orgulhamos, uma terra boa para viver. Resta inclinarmo-nos perante a memória daqueles que nos deixaram em condições tão dramáticas.