16 julho, 2010

UMA FOTOGRAFIA COM 50 ANOS...

... E ALGUMAS IMPRESSÕES QUE A MESMA ME SUSCITOU
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A fotografia acima reproduzida foi publicada no mais recente número do jornal «Nova Verdade», na secção Caixinha de Memórias que o meu amigo Vítor Grilo há vários anos ali tem para satisfação de quantos gostam de mergulhar no passado e aí reverem aqueles que um dia conheceram, ainda meninos ou jovens, na escola, no futebol, no rancho ou em qualquer outra situação que proporcionou uma fotografia de grupo.
Dessa fotografia, tirada precisamente há 50 anos, fiz eu uma digitalização ( daí a pouca qualidade exibida ) abrangendo um pedaço da mesma. Nela se vê o mestre-escola Prof. António Oliveira ( também meu mestre noutros saberes, em especial nos deste concelho que ele conhecia e amava como ninguém ) e um grupo de alunos.
Nada de especial? Uma fotografia como tantas outras de alunos de uma escola? Não meus amigos. Por favor façam um esforço e reparem: Em 1960, na Merceana, concelho de Alenquer, distrito de Lisboa, ainda havia alunos que iam de pé descalço para escola, exibindo uma pobreza que também lhes ia dos membros inferiores ao estômago, como era de todos sabido.
Confesso que isto me chocou. Não porque não tivesse conhecido esta realidade, pois então já tinha treze anos e, mesmo aqui na vila, havia quem não tivesse dinheiro para sapatos. Mas sim porque os dias faustosos do presente já me haviam feito esquecer a pobreza e o atrazo de um passado ainda recente.
Pois é, eu, todos nós e este País também, temos um grave problema de memória. E por «memória»... enquanto meditava sobre o que havia já esquecido, não é que vieram-me à memória aquelas cavalgaduras que à mínima contrariedade exclamam impantes que «o que faz cá falta é o Salazar!».
Pois este era o País de Salazar, em que muitos calçavam o seu primeiro par de botas quando iam às sortes ( que geralmente não lhes sorriam... ). Depois, porque as sortes não lhes sorriam, lá iam para África defender os interesses de meia dúzia de capitalistas-monopolistas, alguns dos quais ainda para aí andam, mais ricos do que nunca foram.
Num plano oposto lembrei-me do ainda recém-construído centro escolar de Paredes-Alenquer que actualmente acolhe os alunos da pré-primária e primária e que tive o privilégio de visitar enquanto autarca. Nessa visita extasiei-me perante as salas de aula bem equipadas e todas com quadros interactivos, perante o seu moderno e amplo refeitório, perante o seu ginásio, perante os campos de jogos e de entretimento, perante o seu parque de recreio coberto, perante os seus adequado sanitários, perante a sala de professores e pequeno auditório...
Claro que perante tanta modernidade me veio à idéia aquilo a que (não) tive direito no meu tempo e lá fiquei muito feliz por saber que, pelo menos, o meu neto iria usufruir de tudo aquilo que agora me deixava de olhos esbugalhados. Mas, sabem que mais? Passado pouco tempo já por aí circulavam algumas críticas, bem intencionadas e fundamentadas, como não podia deixar de ser, lamuriando que as salas de aula estavam longe demais das casas de banho, porque a refeição «assim, assado»...
No que respeita à educação local, o grande assunto momentâneo é o do «Mega-Agrupamento» que irá juntar duas escolas ( a Damião de Góis e a Pêro de Alenquer ) que, desde sempre coabitaram o mesmo espaço. Só que em vez de duas secretarias passarão a ter uma, em vez de dois conselhos directivos passarão a ter um, etc, etc. o que, como é óbvio, permitirá obter certas economias e racionalizar meios, sem com isso pôr em causa a missão lectiva. Esta é, evidentemente, a opinião de um leigo que não lê a cartilha sindical...
Aqui, certamente, também estarei errado por não perceber o fundamento da «Coisa», nome que lhe foi dado por um professor num artigo de opinião no jornal já citado. Mas como haveria de perceber se ainda sou do tempo em que se ia para a Escola de pé descalço e tudo isto agora é uma discussão de ricos?

01 julho, 2010

LOUISE BOURGEOIS - A ESCULTORA DE ARANHAS

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Ao percorrer o jardim das Tulherias a caminho do Louvre numa tarde soalheira de princípio de Primavera, três coisas me impressionaram: Uma, pela negativa, a relativa pequenêz da emblemática pirâmida de vidro.
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Outra, a forma como os parisienses ( e outros visitantes ) aproveitavam o sol que generosamente envolvia Paris, esparrramando-se descontraidamente pelos relvados envolventes do emblemático museu.
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Uma terceira, aquela enorme aranha que parecia saída de um filme de ficção e que contrastava com outras esculturas ao gosto clássico.
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Enquanto ia batendo as fotografias que agora aqui vos deixo ia pensando para comigo quem seria o ou a autora de tão monumental escultura... por isso, logo que tive oportunidade procurei sabê-lo, vindo a descobrir que era uma senhora e se chamava Louise Bourgeois.
Lembrei-me disto ao ler a notícia do seu recente falecimento (31 de Maio) em Nova Iorque, com a provecta idade de 98 anos que a não impedia de continuar de produzir arte. Nasceu em Paris em 1911, mas deixaria esta cidade quando da segunda Grande Guerra, radicando-se, em definitivo, nos Estados Unidos.
Dela se diz que «era uma referência na escultura em vários materiais: madeira, aço, pedra ou borracha» sendo os temas preferidos os «da sexualidade, agressividade e o foco no corpo humano e nas questões da protecção» onde encaixam as suas enormes aranhas que deixou um pouco por esse mundo fora, em Paris também. Também se diz que estas suas obras que na maior parte dos casos contrastavam enormemente com o seu pouco mais que metro e meio de altura, dificilmente se enquandram em qualquer escola, embora no caso das «aranhas» a meu ver, que percebo pouco de arte, sejam nítidos os traços surrealistas.

18 junho, 2010

José Saramago viverá para sempre na literatura portuguesa

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Ao contrário de outros que tentaram amesquinhar a sua obra e a sua figura, José Saramago, glória nacional, viverá para sempre na nossa Literatura, mesmo quando desses outros já não subsista memória alguma, sequer nos seus descendente que nos manuais escolares aprenderão e conhecerão este grande escritor, prémio Nobel, orgulho da terra portuguesa.
Sobre ele, o homem, o político, o escritor, sempre ouvi cobras e lagartos, mas estou certo de que aqueles que verdadeiramente admiram a sua obra, são nesta «...terra hostil a tudo o que é grande (...), onde se cortam as árvores para que não façam sombra aos arbustos...» ( Sttau Monteiro em Felizmente há Luar ) em número significativamente superior aos que sobre ele têm uma opinião negativa, desconfio eu, por preconceito contra o homem e o político coerente e corajoso que ele sempre foi.
Na minha estante tenho a obra completa ( e lida ) de três escritores: Vazques de Montalban, o já desaparecido criador do detective Pepe Carvalho, que acendia a lareira com os livros que detestava e tinha como ajudante o curioso Biscuter; Mia Couto, o moçambicano que reinventa o português, tornando com isso, a meu ver, a sua escrita curiosa e divertida, isto para além de me falar de Moçambique, essa terra que aprendi a amar em tempos de guerra; e José Saramago que, na minha opinião, deu ao mundo três obras primas, Memorial do Convento, o Ano da Morte de Ricardo Reis e Ensaio sobre a Cegueira.
Muito se irá dizer nos próximos dias sobre Saramago, seja por conveniência, seja por oportunismo, seja com sinceridade. Cá por mim não me despeço do escritor, pois sei que os seus livros continuarão a fazer-me companhia pelo tempo que ainda me resta. Fico, isso sim, a lembrar-me da Viagem em que uma tarde o tive como companheiro no Teatro da Comuna e onde trocámos breves palavras sobre a peça que nos obrigava, a nós espectadores, a deambularmos pelo palco ao sabor do ritmo da representação e do local onde projectores se acendiam sobre os actores, já que a sala era só palco. Que esta derradeira Viagem te conduza a um lugar de paz, uma outra Lanzarote que tão bem te acolheu.

12 junho, 2010

DIA DE SANTO ANTÓNIO

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O SANTO DA MINHA "DEVOÇÃO"
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Isto dito por alguém que se define como "agnóstico", pode parecer um pouco estranho, pelo que deverá ler-se, isso sim, "santo da minha simpatia". Por assim o ser, a imagem que acima mostro está numa estante, em frente à minha secretária, e por ela nutro grande estima. Para mais, tenho-a como milagrosa. Admiração? Então conto a sua história...
Ela foi-me oferecida por um familiar que me disse: "É muito antiga. Sempre a vi lá por casa e, pelo que sei, foi já dos avós dos meus avós. Como era então hábito, estava em cima de uma cómoda, num singelo oratório de minha bisavó, acompanhada de outras imagens. Só que o marido, bom homem quando estava são, mas de "maus azeites" quando vinha "entornado", nessas noites aziagas tinha por hábito varrer o oratório a vara pau. Muitas imagens assim se partiram, só o Santo António ficava sempre intacto". Milagrosa, digo eu... E aí começou a nascer a minha fézada pelo simpático santo, canonizado por Gregório IX a 30 de Maio de 1232, na catedral de Spoleto, ele que havia falecido no ano anterior, a 13 de Junho.
Depois, certo dia, li estas palavras atribuídas a esse «Doutor Envangélico», como o quis o Papa Pio XII, pela Carta Apostólica «Exulta Lusitanis Fidelis»:
«Fazei o que eles dizem, mas não façais como eles fazem, porque eles dizem, mas não fazem».
Esta sentença nunca mais me saiu da cabeça, e, como não poderia deixar de ser, a minha admiração pelo Santo subiu em flecha.
Para mais este é um Santo popular, que se festeja com sardinha assada, vinho tinto e pratinhos de caracóis. Um Santo casamenteiro, amigo das raparigas que, por imprevidência, quebram as bilhas, coisa que ele, nos termos do milagre, soube remediar na perfeição. Por isso, desculpa lá, oh S. Valentim, mas não fazias cá falta nenhuma, pois para padroeiro dos namorados, o Santo António servia-nos na perfeição!
No concelho de Alenquer, que eu me lembre, o Santo António festeja-se no Camarnal e na Labrugeira, terras onde tem capela, preside a altares e sai em procissão. A propósito, conta-se que em tempos que já lá vão, quando as rivalidades entre terras ainda faziam mortes, houve um marau que quando a procissão percorria as ruas da Labrugeira, declamou bem alto para escândalo e irritação dos fiéis da simpática aldeia:
«Santo António da Labrugeira//parece um lagarto pintado//montado em quatro bestas//nunca o vi tão bem montado». Teve que dar às da vila Diogo, já se vê... Claro que o feito correu por essas terras aqui à volta e era proibido, a bem da saúde, invocar na Labrugeira esta partida.
Publicou o Jornal de Alenquer a partir do seu n.º 192 de 15 de Novembro de 1891, sob o título "Alenquer... n'outros tempos" uma série de interessantes crónicas, assinadas, tão só, por "Um Velho". Uma teve a ver com Santo António, e, por isso, aqui fica:
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Dois Sermões
As irmãs hospitaleiras estabeleceram em Aldeia Gavinha um colégio para a educação de meninas, dando assim aplicação provisória ao legado que lhes deixou o falecido Zacarias, com esquecimento dos seus parentes.
Foi o rev. Padre Raimundo Beirão que organizou a instituição das Irmãs Hospitaleiras. O Padre Raimundo foi, ainda novo, capelão de Aldeia Gavinha. Dotado de uma admirada inteligência, sempre folgazão tocava viola francesa, cantava modinhas e quando em reunião de senhoras era um galanteador;nós por vezes o admirámos, na Quinta de Abrigada, em tempo da exm.ª D. Maria da Piedade, mãe do exm.º sr. Francisco Rafael Gorjão.
Por aquele tempo foi o padre Raimundo convidado para ir ao lugar da Pipa, pregar um sermão da festa de Santo António. No domingo aprazado, apresentou-se, subiu ao púlpito e depois das cerimónias do costume começou a sua arenga do seguinte modo:
«Santo António foi rapaz: eu também fui; Santo António foi galanteador das moças: também eu fui; Santo António partia os cântaros às raparigas: também eu os parti; Santo António cortava os cabelos às moças: também eu fiz o mesmo; Santo António foi frade: também eu o fui»; E seguindo assim as travessuras do santo, advogado das meninas solteiras e tão venerado no Camarnal, ia-as comparando com as suas travessuras de rapaz. Os velhos Brilhas, promotores da festa, bem como os ouvintes, mostravam-se contrariados por o padre Beirão ter sido e feito tudo como foi e fez Santo António.
O padre, continuando diz:...
«-O que porém eu não fui, nem posso ser, foi ser tão santo e virtuoso como Santo António que soube remediar as suas travessuras, praticando verdadeiros e constantes milagres: concertando cântaros, pegando cabelos às raparigas, e, além destes e outros milagres, no intervalo da reza de três Avé-Marias foi a Pádua defender o pai».
Assim continuou a patentear as virtudes e milagres de Santo António, com que os Brilhas e mais festeiros se mostraram satisfeitos.
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Tivemos nesta vila como pároco da extinta freguesia de S. Pedro o padre Francisco Maria d'Almeida Magalhães, por antonomásia o Meio Mundo; este padre foi frade e professor nos Conventos de S. Francisco desta vila e Santo António da Castanheira. Possuía bastante ciência, mas, de maneiras rudes; teve fama de bom pregador sendo por isso convidado para a quase totalidade das festas destes sítios.
Foi convidado o padre Magalhães pelos referidos Brilhas para ir pregar à festa de Santo António. O padre, que não estudava os sermões, subiu ao púlpito parecendo não ter reparado no santo que estava no andor, no corpo da ermida.
Começou pregando as virtudes e milagres de S. Sebastião, repetindo amiudadas vezes o nome do santo. Um dos Brilhas mais influente diz para o padre: - «Não é S. Sebastião, é Santo António que está ali!».
O padre ouvindo a advertência, retorquiu ao Brilha: - «Cala-te bruto que S. Sebastião também foi bom rapaz».
E continuou pregando S. Sebastião pelo que, afinal, se estabeleceram dúvidas se sim ou não deviam pagar ao padre a oração.
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Santo António também foi militar do Exército português. Na imagem acima que se encontra actualmente na capela de N.ª Sr.ª da Vitória, dentro do recinto do Museu do Buçaco e acompanhou o Regimento N.º19 (Cascais), durante a Guerra Peninsular ( Blogue Lagos Militar, consultado para este último apontamento ), o Santo ostenta ao peito a medalha dessa guerra.
De facto Santo António assentou praça em 1668, quando por alvará de 24 de Janeiro, assinado por D. Pedro II, foi alistado como praça no Regimento de Infantaria de Lagos, por tão patriótico serviço prestado, já que a fé dos soldados portugueses atribuía ao Santo, muitos dos êxitos militares alcançados na Guerra da Restauração (1640-1668).
Depois, no dia 12 de Setembro de 1683, D. Afonso VI promoveu Santo António ao posto de Capitão. Neste posto recebia o soldo de 10.000 que lhe foi abonado até 1779, ano em que passou a vencer 15.000 réis, até que o Marquês de Pombal fez que deixassem de o ser, continuando o Santo a servir gratuitamente. No reinado de D. Maria I, o coronel do Regimento de Lagos, requereu, em Janeiro de 1870, que ao seu capitão Santo António fossem pagos os soldos em atraso e ainda, em virtude do o referido capitão, "o mais antigo dos reais exércitos", se achar, de há muito, preterido na promoção, que o mesmo fosse promovido a tenente-coronel. Ainda haveria de chegar a General.