16 outubro, 2010

UM LIVRO DIVERTIDO E QUE NOS DEIXA A PENSAR QUE...

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«PORTUGAL ENFERMO PELOS VÍCIOS E ABUSOS»
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Como se pode ver pela imagem acima, não se trata de nenhum livro actual, mas é actual o seu conteúdo, muito embora tivesse sido publicado em 1819, saído que foi da pena de um senhor chamado José Daniel Rodrigues da Costa (1752-1832). Vejamos algumas passagens:
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Portugal, Portugal! Eu te lastimo!
E bem que velho sou inda me animo
A mostrar-te os defeitos, e os excessos
Dos costumes que tens tão avessos
Dos costumes que tinhas algum dia,
Quando mais reflexão na gente havia.
Tu de estranhas Nações foste invejado;
Hoje faz compaixão teu pobre estado:
Cada vez te vão mais enfraquecendo,
todo o brilho que tinhas, vais perdendo;
Paraíso do Mundo te chamavam,
As mais Nações contigo se animavam,
Elas porém ficaram sãs e fortes,
e tu a todo o instante exposto aos cortes
da usura, da ambição, da falsidade,
do egoísmo, da fuga, da impiedade.
(...)
Portugal, Portugal! Eu te lastimo!
E o pesar que me causas, mal reprimo!
estás presentemente na figura
do enfermo que não pode com a cura,
por moléstias tais tão complicadas,
que parte das receitas são baldadas.
(...)
Vai a banhos do mar a Dama Bela,
porque deles precisa, ou por cautela;
o Velho busca estuporado as Caldas,
e ali da mocidade purga as baldas,
consegue movimento em braço e perna,
e a perdida cabeça já governa;
(...)
Eu vejo nestes tempos desditosos
povos empobrecidos e chorosos,
Pois quando varrem um mal outros se seguem,
Que os Mortais atormentam e perseguem (...)
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Estes que aqui ficaram são alguns fragmentos retirados das 69 páginas que o livro tem. O português foi actualizado, mas o original não oferece grandes dificuldades de leitura.
Se a curiosidade o picou, vá ao site da «Biblioteca Nacional de Portugal», «Biblioteca Digital», «Autor (Costa, José Daniel Rodrigues da) e... Boa e divertida leitura!
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José Daniel Rodrigues da Costa nasceu em Leiria mas veio muito novo para Lisboa. Frequentou as tertúlias da Arcádia Lusitana onde adoptou o pseudónimo de Josino Leiriense. Gozou da protecção de Pina Manique e as suas opções políticas oscilaram entre o liberalismo e o apoio a D. Miguel. Poeta panfletário, manteve uma certa rivalidade com Bocage. Outra obra sua muito conhecida e interessante é O Balão aos Habitantes da Lua (1819), também ela possível de encontrar digitalizada na net.

07 outubro, 2010

INVASÕES FRANCESAS

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10 de Outubro de 1810 - 10 de Outubro de 2010
NO II CENTENÁRIO DOS COMBATES DE ALENQUER
I
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É de Guilherme João Carlos Henriques, o autor de A Vila de Alenquer, onde o mesmo foi publicado, o relato que transcrevemos:
«A 9 de Outubro chegou à vila de Alenquer a brigada portuguesa sob o comando de Sir Dennis Pack composta de Infanteria 1 e 16 e Caçadores 1, 3 e 4, na força total de 3.792 homens. Ficaram até ao dia seguinte.
O corpo francês que os seguiu para o lado de Alenquer obedecia às ordems do Gen. Montbrun e chegou à vila quando ainda aí se achava parte da brigada de Pack.
Contou-me, por vezes o Marechal Saldanha, meu excelente padrinho, de saudosa memória, comandante, então, da Infanteria 1, que se recordava perfeitamente de estar no Largo Espírito Santo, lavando as mãos numa bacia que a ordenança segurava, quando os piquetes recolheram batendo-se com as avançadas francesas que começavam já a descer as encostas em frente da vila.
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Marechal Saldanha - Gravura da Biblioteca Nacional
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Travou-se combate para proteger a retirada do grosso da força sobre Sobral de Monte Agraço, havendo, segundo estatística oficial, dois soldados feridos e dois extraviados.
No dia 12, Montbrun marchou com a vanguarda do exército francês de Alenquer para Vila Franca de Xira e o oitavo corpo seguiu de Alenquer para o Sobral de Monte Agraço. Em seguida o Marechal Massena fixou o seu Quartel General na vila de Alenquer. Em fins de Outubro aí esteve o Intendente Geral Lambert.
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Marechal Massena, comandante da terceira invasão francesa - Gravura da Biblioteca Nacional
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Durante um mês a vila, abandonada quase de todo pelos habitantes, esteve à mercê dos invasores, mas talvez sofresse menos pelo facto de Massena ter aqui os seus doentes em tratamento enquanto não retirou para o Norte, o que fez a 12 de Novembro.
Batalha de Borodino - Fotografia de um fragmento da grandiosa tela (115mx15m) de Franz Alekseevitch Roubaud (1856-1928) - Museu Panorama «A Batalha de Borodino» - Moscovo
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04 outubro, 2010

NO CENTENÁRIO DA REPÚBLICA

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O 5 de OUTUBRO de 1910 em ALENQUER
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A república foi, também, proclamada em Alenquer no dia 5 de Outubro de 1910. No seu n.º 1293 de 9 de Outubro de 1910, o jornal Damião de Goes que então se publicava nesta vila, relatou assim os acontecimentos:
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ESTÁ PROCLAMADA A REPÚBLICA!
As manifestações em Alenquer
«Quando na quinta-feira última houve conhecimento em Alenquer, de que tinha sido proclamada a República em Lisboa, foi grande o entusiasmo, organizando-se um numeroso cortejo levando as bandeiras republicanas.
Todas as fábricas fecharam e os seus operários incorporaram-se no cortejo que percorreu algumas ruas da vila, até aos Paços do Concelho, onde foi arvorada a bandeira republicana no meio de muitos vivas e palmas.
Foram depois lacradas as portas das diferentes repartições sendo os Paços do Concelho guardados por grupos de populares.
À noite organizou-se uma marcha aux flambeaux com a filarmónica da Merceana à frente tocando A Portuguesa. Percorreu várias ruas da vila, soltando entusiásticos vivas à República.
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Um outro episódio interessante então ocorrido, teve a ver com a presença em Alenquer, nesse mesmo dia, do Dr. Bernardino Machado:
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«DR. BERNARDINO MACHADO, JÁ TEMOS A REPÚBLICA! JÁ TEMOS A REPÚBLICA!»
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José Dionísio Leitão em fotografia de 1903

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Nesse dia 5 de Outubro, Artur Ferreira da Silva encontrava-se em V. F. Xira, quando recebeu a notícia da proclamação República. O que se seguiu veio relatado pelo próprio no Jornal d'Alenquer, de 5 de Outubro de 1913:
«...abalámos para Alenquer a toda a pressa para trazermos a feliz notícia aos nossos amigos e correligionários. Por sorte, à entrada d'esta vila encontrámos o Dr. Bernardino Machado que se dirigia a Lisboa. Aqui lhe comunicámos que estava resgatada a nossa querida Pátria pela implantação da República».
O relato desse encontro obtive-o eu de uma fonte presencial, minha avó Quitéria Leitão Lourenço que, então, ofereceu ao Dr. Bernardino Machado um ramo de flores: «Transida de medo meu filho, porque naquele tempo de revoluções, nunca se sabia o que poderia acontecer...».
Esse encontro ocorreu em Santa Catarina, junto à casa de meu bisavô José Dionísio Leitão que foi em Alenquer um dos maiores propagandistas da República (as palavras são de José Rodrigues Caseiro no Jornal de Alenquer). Republicano convicto e homem corajoso, dele disse o jornal O Alemquerense, n.º 252 de 30 de Dezembro de 1892, quando fez parte de uma lista republicana(1) que disputou a Câmara local a Francisco Pedro de Oliveira e Carmo: «(...) e o sr. José Dionísio Leitão, cidadão que bem compreende os seus deveres, e que sem lisonja, se pode dizer que representa o laborioso povo de Paredes(...)».
Voltando ao relato de minha avó:«Estavam lá muitos republicanos da vila e quando o carro parou e o Dr. Bernardino Machado abriu a portinhola para descer, o teu bisavô não se conteve e de chapéu na mão, grande como ele era, correu para ele abraçando-o aos gritos de Dr. Bernardino Machado, já temos a República, já temos a República!».
O largo onde isto aconteceu passou a chamar-se Largo Dr. Bernardino Machado, e, numa casa recentemente construída no mesmo local onde se situava a de meu bisavô, lá está uma placa de 1911 evocativa do acontecimento. Neste centenário, dia 5 de Outubro, pelas 15 horas, aí, nesse mesmo largo, será descerrado um memorial evocativo, cerimónia que contará com a presença de descendentes daquele que viria a ser, em duas ocasiões, Presidente da República. Lá estarei em memória de meu bisavô José Dionísio Leitão e de todos os republicanos alenquerenses que protagonizaram esse episódio.
(1) Fizeram também parte dessa lista: Vereadores Efectivos - José Rodrigues Vaz Monteiro, Domingos Joaquim de Mendonça e Silva, José de Menezes Correia de Sá, José António Batoréu Júnior e Theodoro Emílio Martin. Vereadores Substitutos - Salomão dos Santos Guerra, Ernesto da Cruz Calleya, José António Ferreira Leal e Luiz António da Silva Caiano.

29 setembro, 2010

NO CENTENÁRIO DA REPÚBLICA

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A CARBONÁRIA ALENQUERENSE EM VÉSPERAS DA REVOLUÇÃO REPUBLICANA
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Falar da Maçonaria alenquerense (ou do pouco que dela se sabe) levar-nos-ia ao século XVIII, mas, para o que agora nos interessa, referiremos que em 1909 nasceu em Alenquer a loja Damião de Goes sob a direcção de João de Avellar. De acordo com revelações do próprio, nela reuniam «tantos e tão insignes cidadãos que em Alenquer desempenhavam os mais altos cargos públicos e sociais que neste Grémio me rodeavam na tarefa de proteger a Humanidade fraternalmente». Dos nomes desses alenquerenses, só se tornou conhecido o de Fernando Campeão dos Santos.
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Ao centro João Carlos Sant'Ana. À sua esquerda Gregório Rosa e à direita Isidoro Castro Guerra, ambos fervorosos republicanos.
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É de crer que foi desta loja maçónica que saíram para a Carbonária local muitos dos seus membros. Segundo um relato de João Carlos Sant'Ana publicado no Jornal d'Alenquer, n.º 1 de 5/10/1913, também estes se prepararam para a grande revolução que iria acontecer:
«Eram dez horas da noite do dia 26 de Setembro de 1910. Em uma casa desabitada pertencente a Artur Ferreira da Silva (Ségeiro) reuniam-se seis indivíduos. Quando ali entrei encontrei-os cheios de ardente fé na próxima proclamação da República prontos a sacrificarem a própria vida para fazer triunfar esse Ideal há tanto desejado (...). Joaquim Barral, um dos mais fogosos e exaltados queria a Revolução naquela mesma noite.
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Artur Ferreira da Silva «Ségeiro»
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Confesso que tendo ali entrado com certo receio inexplicável, a breve trecho me senti tomado pelo entusiasmo dos meus companheiros. Então, Roque Miranda que presidia à reunião como delegado do comité revolucionário e representante da Alta Venda, iniciou-nos na Carbonária, pondo-nos ao facto do que projectava fazer-se e dando-nos instruções. Artur Gonçalves, sempre metódico e previdente, ia redigindo e coordenando os termos de juramento solene que todos, sem a mais leve hesitação, assinámos. Roque Miranda prometeu então telegrafar-nos em cifra, prevenindo-nos do dia em que sairia a Revolução e enviar novo telegrama no próprio momento em que ela estalasse. Esses telegramas nunca chegaram porque o primeiro cuidado dos revolucionários de Lisboa foi apoderarem-se do telégrafo».

João Carlos Sant'Ana dá-nos ainda a conhecer: «Conforme ficara combinado fui organizando a minha «Choça» a que ficaram pertencendo Joaquim Galvão, Januário Bento Pereira e José Fevereiro, conservando ainda em meu poder o juramento assinado por eles».