02 novembro, 2010

HAVERÁ MAIS VIDA PARA ESTE GOVERNO DEPOIS DE...

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DA ESTRATÉGIA DO CINISMO À ESTRATÉGIA DA HUMILHAÇÃO
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Digo-vos desde já, à revelia dos argumentos mais tacanhos que as oposições têm querido fazer passar, que não acredito que a crise económica e financeira que vivemos seja fruto da má governação do executivo de Sócrates ou dos erros acumulados por todos quantos o antecederam.
Antes fosse! Matava-se o mal pela raiz e, como se diz no futebol, passávamos a depender só de nós...
Deixem-me recuar umas décadas neste tempo que já vivi para vos dizer que, quando jovem bancário, tive uma vez formação com um senhor que tinha sido dealer do banco onde trabalhava no Mercado de Capitais de Lisboa. O que era isso? Era um local onde os agentes dos bancos que tinham «excesso de liquidez» (mais dinheiro depositado do que aquele que necessitavam para o crédito que faziam) vendiam dinheiro aos que tinham «falta de liquidez». Qualquer coisa como isto: «Tenho 4 milhões de contos, quem pega?», havendo, naturalmente, quem respondesse, «compro 2 por 15 dias à taxa de juro x ou y».
E isto funcionava porque neste País havia uma coisa chamada «poupança» (vejam bem, num tempo em que a vida era incomensuravelmente mais difícil do que é hoje), porque estávamos num tempo em que ainda não haviamos sucumbido à febre consumista que rouba às famílias o que elas têm e não têm. Sim, porque hoje, Banco ou Governo, se necessitam de liquidez para satisfazer as necessidades de crédito dos seus clientes, particulares ou empresas, ou de funcionamento dos Ministérios, há que ir lá fora e pagar a taxa de juro que as tais agências de classificação de risco atribuem ao país, porque poupanças depositadas, coitadinhas.
Este, o da dívida externa, é como todos sabemos o rosto actual da tal «crise» que há cinco anos nos atormenta (a nós Portugal, à Europa e ao Mundo), aquela que começou pelo rebentamento da tal bolha imobiliária, que passou pelo abanão das instituições que enfardaram nos tais «produtos financeiros tóxicos», que depois... poupo-vos ao resto, para vos dizer que só um cego não vê ou não quer ver, que mesmo as economias mais fortes da Europa tiveram que implementar medidas orçamentais rigorosas para combaterem os seus déficites e cuidarem do seu endividamento.
Eu não sonhei isto, pois não? Então para quê todo este espectáculo para «tótós» distraídos que ainda por cima nos sai caro no mercado externo de capitais? Enquanto ia assistindo ao folhetim das negociações PS/PSD, uma só qualificação me vinha à ideia: «estratégia do cinismo» (por acaso título de um livro de Carlos Coutinho que há muito tempo li e não tem nada a ver com isto...).
Todos estavam muito preocupados com o País, coitadinho, porque vai pagar caro um «chumbo» (tá bem abelha...), mas o que mais interessava aos «salvadores», está visto, eram as sondagens para ver se mandavam ou não o Sócrates bugiar ou fazer um doutoramento em engenharia nos Estados Unidos, que é para onde vão desenfastiar os ex-governantes que por decoro não entram logo num acolhedor Conselho de Administração. E o que pensaria Sócrates? Sinceramente, penso que já não pensa nada, porque isto de cinco anos a dançar com a mais feia...
Hoje, a espaços, assisti ao debate do Orçamento. O que me veio à ideia? Que da «estratégia do cinismo» havíamos passado à «estratégia da humilhação». O Sócrates que eu vi hoje no Parlamento, não era seguramente o mesmo combatente de outrora, era a sombra do político que foi e essa sombra toldava-lhe já o rosto. Estava lá, mas era como se já lá não estivesse.
Desculpem-me: Que triste espectáculo de arrogância o daquela bancada que, dizem as sondagens, nos irá em breve governar. Assis esteve certo naquilo que disse àqueles que vão fazer o favor de dar aos portugueses este Orçamento por eles classificado de inqualificável, e eu não sei como classificar esse gesto abnegado de Coelho e quejandos...
Mas há uma coisa que todos já sabemos: que este é um Governo de dias contados, os dias que na estratégia partidária laranja faltam para Cavaco ser de novo eleito Presidente da República. E que dias serão esses que este Governo irá (ou poderá) dar ao País depois da aprovação por omissão deste Orçamento? Depois do que vi hoje acontecer em S. Bento, acho, só, que vamos ter um Inverno muito cinzento e duvido muito que a Primavera se vista de verde, que é a cor da esperança.

26 outubro, 2010

A CULPA FOI DA CONSTIPAÇÃO...

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CORRUPÇÃO NO MUNDO
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Uma constipação à revelia do bom tempo que se tem feito sentir e uns comprimidos que me deixaram em estado pastoso e vegetativamente à mercê das televisões e dos noticiários que hora a hora se repetem sem novidade de maior, deram-me o mote para este post.
Para além das negociações do Orçamento do Estado que se arrastam, arrastam, demonstrando com isso que avançam sobre o alvo final, a aprovação, a grande novidade do dia era a do índex da Corrupção elaborado por uma ONG que ninguém conhecia (mas que ao fim do dia será tão conhecida como a Coca-Cola), chamada Transparency Internacional.
Procurem por este nome na net e lá a encontrarão, pois foi o que eu fiz, amante que sou (vá lá saber-se porquê...) de listas ordenadas. Para mais, se é que ouvi bem, o espanto era a nossa, nossa de Portugal, má classificação nesse ordenamento onde entre 178 países do mundo inteiro ocupávamos um, não sei se modesto, se lisonjeiro, 32º lugar, facto que deu logo oportunidade a «antenas abertas», essa aberração onde os mesmos reformados de sempre descarregam (inconscientemente) na matéria em discussão o seu ódio ao banco do jardim, sem darem conta de que nesse último, pelo menos, não incomodavam ninguém.
E que vi eu nesse «índex»? Logo à partida que no nosso patamar, o dos 6 pontos, tínhamos como companheiras a Espanha (30.º) e a França (25º) faltando a este «clube latino» a Itália detentora de um terceiromundista 67º lugar , e, ainda, o Uruguai (24º) e a Estónia (26º). Um clube restrito, portanto, sendo ainda mais restritos os dos patamares superiores correspondentes aos 7, 8 e 9 pontos.
Aliás, no intervalo seguinte, o dos 7, lá estavam os Estados Unidos (22º), a Bélgica (22º), a Inglaterra (20º) a Alemanha (15º) e, surpreendentemente o Chile (21º), o melhor da América Latina, todos eles ali bem pertinho de nós.
Neste mapa-mundo pintado a cores que vão do amarelo ao tinto de Bordéus, 3/4 do território terráqueo surgem borrados em tons avermelhados. Será, de facto, assim tão mau o nosso estado que, todavia, evoluiu positivamente em relação ao ano anterior? O leitor o dirá. Claro que, também aqui gostaríamos de ser uma Dinamarca ( 1º) ou uma Nova Zelândia (1º)... Mas, decisivamente, não somos como a Grécia (78º) a quem, em tudo, tentam colar-nos.
Este problema, o da corrupção, é, a meu ver, um problema da Moral e da Justiça. Da Moral que deve incutir os bons princípios e da Justiça que deve castigar exemplarmente. Não é, seguramente, um problema político (o tabuleiro para onde, por comodidade, se tenta transportar tudo). Há políticos corruptos do mesmo modo que há juízes, funcionários públicos, polícias, padres, empregados bancários e... eu próprio, quando insinuo ao vendedor que passo bem sem o «recibozinho» da compra (qual IVA, qual quê!), não estarei também a corromper?
Para terminar. Um colega meu, bancário, dizia-me às vezes em desespero: «O meu pai ensinou-me tudo ao contrário: sê honesto, sê um homem de princípios, age com verdade, etc, etc. Como irei eu sobreviver nesta sociedade de chicos-espertos?».
Amigo Zé. Afinal sobreviveste e o teu pai tinha razão. É dentro da casa de cada um que este problema se começa a resolver.
Desculpem-me lá esta de moralista, mas a culpa foi da constipação.

16 outubro, 2010

UM LIVRO DIVERTIDO E QUE NOS DEIXA A PENSAR QUE...

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«PORTUGAL ENFERMO PELOS VÍCIOS E ABUSOS»
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Como se pode ver pela imagem acima, não se trata de nenhum livro actual, mas é actual o seu conteúdo, muito embora tivesse sido publicado em 1819, saído que foi da pena de um senhor chamado José Daniel Rodrigues da Costa (1752-1832). Vejamos algumas passagens:
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Portugal, Portugal! Eu te lastimo!
E bem que velho sou inda me animo
A mostrar-te os defeitos, e os excessos
Dos costumes que tens tão avessos
Dos costumes que tinhas algum dia,
Quando mais reflexão na gente havia.
Tu de estranhas Nações foste invejado;
Hoje faz compaixão teu pobre estado:
Cada vez te vão mais enfraquecendo,
todo o brilho que tinhas, vais perdendo;
Paraíso do Mundo te chamavam,
As mais Nações contigo se animavam,
Elas porém ficaram sãs e fortes,
e tu a todo o instante exposto aos cortes
da usura, da ambição, da falsidade,
do egoísmo, da fuga, da impiedade.
(...)
Portugal, Portugal! Eu te lastimo!
E o pesar que me causas, mal reprimo!
estás presentemente na figura
do enfermo que não pode com a cura,
por moléstias tais tão complicadas,
que parte das receitas são baldadas.
(...)
Vai a banhos do mar a Dama Bela,
porque deles precisa, ou por cautela;
o Velho busca estuporado as Caldas,
e ali da mocidade purga as baldas,
consegue movimento em braço e perna,
e a perdida cabeça já governa;
(...)
Eu vejo nestes tempos desditosos
povos empobrecidos e chorosos,
Pois quando varrem um mal outros se seguem,
Que os Mortais atormentam e perseguem (...)
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Estes que aqui ficaram são alguns fragmentos retirados das 69 páginas que o livro tem. O português foi actualizado, mas o original não oferece grandes dificuldades de leitura.
Se a curiosidade o picou, vá ao site da «Biblioteca Nacional de Portugal», «Biblioteca Digital», «Autor (Costa, José Daniel Rodrigues da) e... Boa e divertida leitura!
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José Daniel Rodrigues da Costa nasceu em Leiria mas veio muito novo para Lisboa. Frequentou as tertúlias da Arcádia Lusitana onde adoptou o pseudónimo de Josino Leiriense. Gozou da protecção de Pina Manique e as suas opções políticas oscilaram entre o liberalismo e o apoio a D. Miguel. Poeta panfletário, manteve uma certa rivalidade com Bocage. Outra obra sua muito conhecida e interessante é O Balão aos Habitantes da Lua (1819), também ela possível de encontrar digitalizada na net.

07 outubro, 2010

INVASÕES FRANCESAS

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10 de Outubro de 1810 - 10 de Outubro de 2010
NO II CENTENÁRIO DOS COMBATES DE ALENQUER
I
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É de Guilherme João Carlos Henriques, o autor de A Vila de Alenquer, onde o mesmo foi publicado, o relato que transcrevemos:
«A 9 de Outubro chegou à vila de Alenquer a brigada portuguesa sob o comando de Sir Dennis Pack composta de Infanteria 1 e 16 e Caçadores 1, 3 e 4, na força total de 3.792 homens. Ficaram até ao dia seguinte.
O corpo francês que os seguiu para o lado de Alenquer obedecia às ordems do Gen. Montbrun e chegou à vila quando ainda aí se achava parte da brigada de Pack.
Contou-me, por vezes o Marechal Saldanha, meu excelente padrinho, de saudosa memória, comandante, então, da Infanteria 1, que se recordava perfeitamente de estar no Largo Espírito Santo, lavando as mãos numa bacia que a ordenança segurava, quando os piquetes recolheram batendo-se com as avançadas francesas que começavam já a descer as encostas em frente da vila.
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Marechal Saldanha - Gravura da Biblioteca Nacional
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Travou-se combate para proteger a retirada do grosso da força sobre Sobral de Monte Agraço, havendo, segundo estatística oficial, dois soldados feridos e dois extraviados.
No dia 12, Montbrun marchou com a vanguarda do exército francês de Alenquer para Vila Franca de Xira e o oitavo corpo seguiu de Alenquer para o Sobral de Monte Agraço. Em seguida o Marechal Massena fixou o seu Quartel General na vila de Alenquer. Em fins de Outubro aí esteve o Intendente Geral Lambert.
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Marechal Massena, comandante da terceira invasão francesa - Gravura da Biblioteca Nacional
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Durante um mês a vila, abandonada quase de todo pelos habitantes, esteve à mercê dos invasores, mas talvez sofresse menos pelo facto de Massena ter aqui os seus doentes em tratamento enquanto não retirou para o Norte, o que fez a 12 de Novembro.
Batalha de Borodino - Fotografia de um fragmento da grandiosa tela (115mx15m) de Franz Alekseevitch Roubaud (1856-1928) - Museu Panorama «A Batalha de Borodino» - Moscovo
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