18 dezembro, 2010

É NATAL, É NATAL...

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Vista nocturna e parcial do monumental Presépio de Alenquer - Foto de Paulo Marques
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PORQUE SERÁ?
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Porque será que à medida que anos passam me sinto mais próximo dos natais da minha infância e menos identificado com as celebrações do presente? Porque eram mais autênticos? Julguei encontrar o mesmo estado de espírito no poema de António Gedeão que aqui fica com votos de Festas Felizes para todos os que por aqui passam, pelo Al Ain Keir.
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É NATAL
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Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
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É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
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Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
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De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
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Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
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Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
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Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos disesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
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A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor - o que nunca tinha pensado comprar.
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Mas a maior felicidade é a da pequenada.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
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Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
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Ah!!!!!!!!!!!!!
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Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
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Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
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Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadores rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
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Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
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Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
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António Gedeão in Máquina de Fogo, 1961

12 dezembro, 2010

AS PALAVRAS CERTAS EM TEMPO INCERTO

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QUE TERRÍVEL TEMPO ESTE...
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São de José Manuel dos Santos e foram publicadas na sua crónica intitulada «Miséria», revista "Actual" do jornal Expresso, de 11 de Dezembro, as palavras que de seguida transcrevo e perante as quais me curvo respeitosamente em face da sua qualidade, fazendo-as minhas, esperando que o autor me desculpe o atrevimento:
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Que terrível tempo este, a que somos obrigados a chamar nosso! Sobre este tempo e os seus males, sobre estes dias e os seus medos, as vozes erguem-se para proclamar o óbvio e baixam-se para murmurar o absurdo. As palavras levantam-se para afirmar o injusto e caem para gaguejar o inútil. Lemos o que escrevem sobre esta crise e reparamos que a sua escrita está sempre do lado da morte. A monstruosidade quer mais monstruosidade e a avidez exige mais avidez. Todos apontam o dedo a todos, todos desviam o olhar de todos, mas todos se fazem com todos. Os culpados de ontem são os inocentes de hoje e os inocentes de hoje serão os culpados de amanhã. Como o ladrão que grita "Agarra que é ladrão!", todos acusam os outros de terem feito o que eles fazem. Todos cheios de virtudes. Todos cheios de valores. Todos cheios de verdades.(...)
O pior é ouvir os que são réus a falarem como juízes. Ouvir dizer o horror com alegria sádica ("É preciso acabar com o Estado providência"). Ouvir dizer a esperança com tristeza masoquista ("É preciso mudar de vida"). Ouvir dizer a palavra 'mercados' como se a rezassem. Os que ajoelhavam perante os ameaçados donos de hoje erguem-se agora para os insultar - e ajoelham-se já em frente dos anunciados donos do amanhã que lhes canta aos ouvidos. São sempre os mesmos a fazer o mesmo para obter o mesmo.
E, aqui, da política sobra alguma coisa? Sobra sempre este poema de Sophia, na sua anacrónica actualidade justa:
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Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
caiu em desmandos confusões praticou injustiças.
Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
degradação das coisas que a direita pratica?
Que diremos do lixo do seu luxo - de seu
viscoso gozo da nata da vida - que diremos
da sua feroz ganância e fria possessão?
Que diremos da sua sábia e tácita injustiça
que diremos de seus conluios e negócios
e do utilitário uso dos seus ócios?
Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
de suas fintas labirintos e contextos?
Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
desfigurou as linhas de seu rosto
mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
degradação da vida que a direita pratica?

29 novembro, 2010

O NATAL APROXIMA-SE

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ALENQUER "VILA PRESÉPIO"
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Faltam dias para o Natal e, em Alenquer, na encosta sobranceira à vila, o monumental Presépio ganha forma. Não sei se Alenquer se auto-denominou "Vila Presépio" em resultado deste seu enfeite natalício, ou se o mesmo nasceu e apareceu porque a Vila, em anfiteatro sobre o rio, fazia, já ela, lembrar um Presépio com as suas igrejas e casario alvejando sobre o verde das colinas que abraçam o rio.
Mas sei como esse Presépio nasceu, em 1968, quando era presidente da Câmara o pintor João Mário. Reza a história que a proposta partiu de um seu vereador, D. José de Siqueira e que ganhou forma no estirador de um outro pintor, mestre Álvaro Duarte de Almeida que, mais do que dar forma artística às figuras, teve o mérito de encontrar a escala exacta para o mesmo, inserindo-o, assim, harmoniosamente na paisagem. Refira-se, a propósito, que a figura maior tem seis metros e a mais pequena metro e meio.
Mas Alenquer, conhecida na Idade Média portuguesa como a «Jerusalém do Ocidente», tem ainda outras relações com esta representação do nascimento de Cristo que todos nós conhecemos como Presépio.
De facto, devendo-se este a S. Francisco e tendo sido o Convento franciscano de Alenquer o primeiro da Ordem em Portugal, fundado em 1222 por dois discípulos do santo de Assis, Frei Gualter e Frei Zacarias, chegados a Alenquer em 1216, é bem provável que o primeiro Presépio que Portugal teve tivesse nascido precisamente aqui, em Alenquer.
Ainda sobre o epíteto dado a Alenquer de "Vila Presépio" achámos curioso ver tal denominação já insinuada num bonito soneto de 1903 da autoria de Álvaro F. do Amaral Netto in Brasas da Minha Lareira, transcrito por Natércia Freire no seu Ribatejo.
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ALENQUER
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Envolta em véus de transparente seda,
mostrando a todos graças de princesa,
quisera ver-te, bem formosa e leda,
nobre Alenquer, de senhoril beleza!
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E achei-te linda, aconchegada e queda
- votiva chama num presépio acesa!-,
tão alto erguida, que não sei quem exceda
teu trono e altar em dons de singeleza
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Sentir julguei ainda o fino odor
das tuas rosas - rosas sempre em flor!-
que uma Rainha fez nascer do pão...
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E supus ver, nas minhas ilusões,
passar por ti a sombra de Camões
a quem tu deste o berço e o coração!

21 novembro, 2010

FOI HÁ DUZENTOS ANOS

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ALENQUER LIBERTADA - NOVEMBRO DE 1810

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De forma ainda que modesta, não quis o Pelouro da Cultura da nossa Câmara Municipal deixar de comemorar os duzentos anos da retirada de Massena da vila Alenquer, onde este Marechal havia instalado o seu Quartel-General. Exposições e o lançamento do livro Foi há duzentos anos de António Rodrigues Guapo, em data ainda a marcar, fazem parte do programa.
Todavia, um dos pontos pontos mais altos destas comemorações, terá lugar no próximo Sábado, dia 27 de Novembro, pelas 21 horas, no Pavilhão Municipal das Paredes. Também da autoria de António Rodrigues Guapo, aí será representada uma dramatização desses dolorosos acontecimentos sofridos pelos alenquerenses há duzentos anos.
Um imponente e gigantesco cenário ao comprimento do recinto espera os espectadores e aí evoluirão mais de cem amadores e figurantes dos grupos de teatro do Concelho: Grupo "Vida Activa", "Os 4 e o Burro", "Palmira Bastos" de Aldeiagavinha e "Teatro da Biblioteca" da Labrugeira sob a orientação de Gualberto Silva que também colaborou no texto. Apresentar-se-à, ainda, a Fanfarra da Banda do Exército fardada à época.
Ainda que relativamente curto, estamos certos que todos virão a gostar do espectáculo que lhes será proporcionado.
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É de Guilherme João Carlos Henriques o texto que se transcreve e que relata os acontecimentos ocorridos faz agora dois séculos:

«No dia 12 (de Novembro de 1810) Montebrun marchou, com a vanguarda do exército francês, de Alenquer para Vila Franca de Xira; e o oitavo corpo seguiu de Alenquer para o Sobral. Em seguida o marechal Massena fixou o seu Quartel General em Alenquer. Em fins de Outubro aí esteve o Intendente Geral Lambert. Durante um mês a vila, abandonada quase de todo pelos habitantes, esteve à mercê dos invasores; mas talvez sofresse menos pelo facto de Massena ter aqui os seus doentes em tratamento enquanto não retirou para o norte, o que fez a 12 de Novembro.

No dia 15 daquele Mês a Divisão Ligeira do exército defensor chegou até Alenquer, espiando os movimentos do inimigo, e tendo verificado que estes tinham por destino Santarém, a vila foi ocupada pela Quinta Brigada sob o comando do brigadeiro inglês Campbell. Em 18 de Novembro de 1810 achavam-se em Alenquer os Regimentos nacionais n.º11 e 23, com duas brigadas de artilharia.

Começaram, então, os desgraçados alenquerenses a voltar para as suas casas, que na maior parte encontraram saqueadas e arruinadas. Tinham abrigo, mas de comestíveis havia a mais absoluta falta. Na vila fazia-se, diariamente, a expensas da oficialidade inglesa e nacional, um caldeirão de caridade a que acudiam trezentas pessoas por dia, e no qual se cozinhavam as cabeças, pés e miudezas das rezes que se matavam para sustento dos soldados. Assim duraram as coisas até 5 de Março de 1811, quando Massena, não recebendo os reforços que pedira, começou a evacuar o país.