12 setembro, 2011

VÃO-SE AS INTENÇÕES, FICAM OS PAPÉIS...

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Lembram-se deste? É de 1993 e remete-nos para um trabalho que, nos meios universitários, foi considerado de referência.
Tudo começou nesse ano quando uma equipa liderada pelo arquitecto Miguel Beleza abriu portas a um GTL que tinha como finalidade «elaborar um estudo detalhado da situação existente (na Vila Alta de Alenquer, considerada Centro Histórico), caracterizando os aspectos: físico, económico, e social, com vista à apresentação de propostas que permitam:
* A conservação, reabilitação e salvaguarda de tudo aquilo cujo valor patrimonial o justifique.
* A melhoria dos níveis de infraestruturação e das condições de habitabilidade.
* A requalificação e beneficiação de espaços públicos e instalação de mobiliário urbano.
* A implementação de benefícios fiscais e crédito à recuperação da habitação.
*A viabilização de novos equipamentos que contribuam para a diversificação do tecido social residente.
* A dinamização de acontecimentos culturais periódicos»
- Conclui o folheto que nessa altura foi distribuído à população: «Tudo isto terá como síntese a elaboração do plano de salvaguarda e reabilitação que dará enquadramento legal à intervenção do Gabinete».
 Na verdade, o trabalho do GTL foi feito e, vai já para 30 anos que dorme o sono dos papéis esquecidos, nalguma municipal prateleira...
Porquê falar dele agora? Primeiro porque, talvez, algum dos actuais autarcas passe por aqui e tome conhecimento da sua existência, pois é natural que nunca tenha ouvido falar em semelhante coisa. Segundo porque na vila de Alenquer houve quem tenha acordado para a necessidade de uma «regeneração urbana», dando corpo e alma a dois movimentos cívicos que se levantaram, talvez tocados pela crise (lá têm razão os que dizem que os tempos de crise são tempos de oportunidades) para sacudir a pasmaceira. Para esses, mais que não seja, esta invocação de um trabalho de mérito mas desaproveitado, lembrará que não bastam as boas intenções e será sempre necessário passar delas à prática.
O trabalho em questão estará, obviamente, desactualizado (estará?), mas concerteza que revelará, pelo menos, caminhos, metodologias, conhecimentos que se revelarão úteis no momento presente.

22 agosto, 2011

25 ANOS SEM O'NEILL

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Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill - Lisboa,  19/12/1924 - Lisboa, 21/8/1986
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PORTUGAL ESTÁ TODO SURREALISTA, SABES?
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Como é possível? 25 anos? 25 anos sem O'Neill e sua falta de disposição para a boa disposição, sem o verso que corroía a hipocrisia nacional? Sem a faca versejante apontada ao nacional porreirismo? Sem esse olhar atravessando as lentes grossas com que via o País indecoroso que somos? Sem o verso que tanto rimava como desprezava a rima que rima mas não acerta? Sem essa lucidez de ver para além da cortina envolvente de todos os «inhos» nacionais?
Lembrando O'Neil, esqueçamo-nos de «seguir o Cherne» (porque dele já só restam as espinhas...), para ficarmos com este «Portugal, remorso de todos nós», cada vez mais questão que todos temos por resolver:
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 Portugal


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Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
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Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há papo-de-anjo que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para ó meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

16 agosto, 2011

O REAL CELLEIRO DE ALENQUER

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O Real Celleiro de Alenquer, cuja existência surge associada às devastações causadas pela primeira e terceira invasões francesas que atingiram de modo particularmente violento a vila e concelho de Alenquer, acaba de celebrar o seu segundo centenário.
Na ocasião fomos convidados para co-participar numa palestra com que a autarquia comemorou a efeméride. Daí, dessa intervenção, resultou o texto que acima, em página individualizada em consequência da sua extensão, fica ao alcance de quantos possam interessar-se pela matéria em apreço. Espero que o mesmo satisfaça a vossa curiosidade e interesse pelo passado da histórica vila de Alenquer.

12 agosto, 2011

MÁS NOTÍCIAS AO «PEQUENO ALMOÇO»...

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E A "DESPESA" SENHOR PRIMEIRO-MINISTRO, E A "DESPESA"?
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Conforme havia prometido, lá veio o Gaspar (esse grande disciplinador de jornalistas) assombrar «este querido mês de Agosto» com novas medidas anti-crise. As que havia prometido? Uma «lipo-aspiração» à «gordura» estatal? Não!!! Mais aumentos de impostos! Desta vez mais um encontrão no IVA que incide sobre dois bens essenciais, a electricidade e o gás.
Por onde andarão esses super-economistas que nas televisões animavam mesas redondas, quadradas, rectangulares, ortorrômbicas, proclamando que não havia mais margem para aumentos de impostos? Por onde andarão esses políticos de obra feita que apontavam a dedo os aumentos de impostos, tentando convencer os portugueses que assim era fácil governar, difícil e necessário era cortar na «Despesa»?
De férias, penso eu... Enchendo esses areais ao lado de todos quantos mandaram intervalar a crise, porque o Sol quando nasce é para todos, até para os «enrascados» nacionais que por estes dias percorrem o «rectângulo» de festival em festival. Dizia-me um amigo meu gaguejando perante as imagens que chegavam dos distúrbios em Inglaterra: « Estes ingleses são uns tótós... quando vier o Verão façam festivais. Façam festivais e vão ver como essa gentalha fica quieta e sossegada. Pelo menos um Verão sem sobressaltos, ninguém lhes tira». Naturalmente... digo eu.
Mas, este ir ao bolso dos portugueses, faz-se sempre acompanhar por uma justificação que nada justifica mas moraliza muito os «assaltantes»: «Estamos a pagar as malfeitorias do Sócrates». Pois é. No tempo do Sócrates não havia crise, só havia má governação... Ela, a crise, começou, justamente, naquele dia de festa, quando no Palácio da Ajuda este Governo tomou posse e houve beija-mão.
Em tempos, quando ainda não havia percebido a importância da vida, de toda e qualquer vida, seja ela animal ou vegetal, cheguei a gostar de ir às touradas. E olhem que já percebia um pouco daquilo... Porém, havia uma coisa com que sempre embirrava no toureio a pé: Era quando aqueles diestros pouco dados ao trabalho, delegavam nos seus peões de brega boa parte dos quites: Era preciso bandarilhar? Vai lá tu ó Manel. Era preciso uns capotazos? Vai lá tu ó Jaquim, que eu só estou aqui para uns trincheirazos ou uns derechazos, arte superior, já se vê... É! Estou a falar do «PêPê Coelho». O homem é bom nas cortesias, mas que raio, não se arrima às broncas. Para as coisas antipáticas manda sempre os Ministros ou Secretários de Estado. Preserva mais a sua imagem, do que os egípcios a múmia do Tut Ankh Amon.
E tanto que eu gostava de lhe ver a cara anunciando aos portugueses aquilo que, ainda há dias, lhes garantia que não faria: aumentar os Impostos! Mas «o Povo é sereno! É sereno...», já lá dizia o Almirante. E com um Sol destes quem é que está cá para se preocupar com os Impostos?