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20 setembro, 2013

A REVOLTA DA PATULEIA

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UMA BASE DE GUERRILHA NO TERMO DA VILA DE ALENQUER
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- Arquivo Histórico Militar (PT AHM/DIV/1/27/08/393)

Corpo Franco de Cavalaria

Exm.º Senhor Barão de Ponte da Barca
Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros

Tendo-me sido indicada a Quinta da Barradinha, no termo de Alenquer como guarida da guerrilha que assola estes concelhos, dirigi-me para ali ontem: Porém querendo entrar na dita Quinta, vi hasteada em um ângulo da casa a bandeira Francesa quando a Quinta pertence ao guerrilheiro Adriano Pereira do Carmo.
Diga-me V. Ex.ª o que devo fazer porque desta sorte inúteis são os esforços das tropas fiéis quando os assoladores do País têm guarida certa à sombra de bandeiras e fantásticos privilégios Estrangeiros.
                                Deus Guarde a V. Ex.ª
             Quartel em Vila Franca 29 de Maio de 1847
                Diogo Pires Monteiro Bandeira - Coronel

- À margem o seguinte despacho:

Quando tiver a certeza de estarem ali os guerrilheiros deve atacar.

Para conhecimento ao Ministério dos Negócios Estrangeiros
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Por morte de seu pai Bento Pereira do Carmo em 1845, Adriano Pereira do Carmo, casado com D. Lourença de Assis Pereira do Carmo, tornar-se-ia proprietário das Quintas da Barradinha (Guizanderia) e da Provença, do mesmo modo que seu irmão Alfredo Pereira do Carmo, casado com D. Maria José Conceição Marques Pereira do Carmo se tornou dono das Quintas da Almadia e Casal do Galo de Ouro.
Seu pai foi um ilustre político do Liberalismo, e, pelos vistos, os seus filhos seguiram-no nos ideais mais avançados da época, tomando o partido dos Setembristas mais radicais. Mas, antes disso, estudaram ambos em Coimbra (onde seu pai também se tornou Bacharel em Leis) e sobre esses tempos da sua juventude encontrámos no O Alemquerense (n.º 272 de 1893) a seguinte referência:
«[Alfredo] foi estudar para a Universidade de Coimbra aos 15 anos tendo nesse tempo por condiscípulos o irmão Adriano Pereira do Carmo, Gonçalo de Sousa Lobo, José Lobo e muitos outros que pelas suas leviandades se tornaram o terror de Coimbra, sendo expulsos da Universidade e riscados em 3 de Julho de 1839 mas readmitidos depois por empenhos».
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- Conselheiro Bento Pereira do Carmo, pai de Adriano Pereira do Carmo e de Alfredo Pereira do Carmo.
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De jovens turbulentos passariam a políticos radicais. Alfredo assentou praça em Cavalaria e quando do pronunciamento "Setembrista" (esta corrente política opunha-se à Carta Constitucional, logo aos "Cartistas", e queriam uma Constituição feita pelos representantes eleitos do Povo) que eclodiu em Torres Novas e viria a ser secundado pela praça de Almeida, nele tomou parte já como alferes feito pela Junta Revolucionária. Quando Almeida capitulou Alfredo emigrou para França onde manteve até à "Maria da Fonte". Na sequência deste movimento foi amnistiado, e, tal como todos os revoltosos de Almeida manteve o posto e foi reintegrado. Assim, na sequência do movimento de 6 de Outubro de 1846 aí o temos como oficial "patuleia" às ordens da Junta Provisória do Supremo Governo do Reino (Porto), presidida pelo Conde das Antas com vice-presidência de José Passos. Nesse mesmo ano, em 6 de Outubro combate na célebre (e sangrenta) batalha de Torres Vedras onde os "cartistas" comandados por Saldanha derrotam os "patuleias" comandados pelo Conde de Bonfim. Nessa batalha esteve prestes a perder a vida, salva por um soldado do seu Regimento e amigo, Bértolo Ribeiro Seabra.
Assim, quando se dá o episódio descrito no documento acima, o guerrilheiro Adriano Pereira do Carmo tem o seu irmão Alfredo preso com os seus camaradas que haviam capitulado, a bordo da fragata "Diana" ancorada frente à Torre de Belém, onde esteve até Junho de 1847, data da Convenção de Gramido que pôs termo à Guerra Civil. Alfredo receberia de volta o posto de Alferes de Cavalaria (e seria longa e aventurosa a sua carreira militar) e colocado na inactividade. Adriano seria um viticultor como seu foi no final da vida.
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- Batalha de Torres Vedras (Gravura da Biblioteca Nacional).
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O documento acima revela-nos, ainda uma informação interessante: É ponto mais ou menos assente que após a Batalha de Torres Vedras, onde participaram pelos "patuleias" corpos de guerrilheiros, esses movimentos haviam desaparecido. Todavia, em Alenquer, persistiriam por mais algum tempo.

17 fevereiro, 2010

História Local - Um Discurso

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Discurso do Deputado liberal alenquerense, pela Província da Estremadura,


Bento Pereira do Carmo
Câmara dos Deputados - 6 de Março de 1827
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No dia 6 de Março de 1827, o alenquerense Pereira do Carmo, eleito deputado pela Província da Estremadura, apresentou em S. Bento, à Câmara dos Deputados, uma proposta visando homenagear o Rei D. Pedro IV, pela outorga da Carta Constitucional, com um monumento.
Mas, como explicou, não um tradicional monumento, mas sim uma singela placa numa importante obra pública a levar a cabo, porventura no projectado canal que ligaria o rio Tejo ao rio Sado. Por esses anos, quando a nossa modesta «revolução industrial» ensaiava os primeiros passos, muito se falou em melhorar as comunicações do Reino para à semelhança do que havia acontecido em Inglaterra e estava a acontecer em França, levar a produção das fábricas aos mercados. Projectaram-se, então, entre outras obras, alguns canais fluviais, os quais nunca passaram do papel. Essa circunstância remete-me frequentemente para as actuais discussões à volta do TGV e do Aeroporto... até ver.
Mas, fiquemo-nos por mais este interessante discurso do nosso conterrâneo Bento Pereira do Carmo, lutador pela Liberdade, ilustre político e brilhante parlamentar:


«« o »»


« O nobre sentimento de gratidão ( a gratidão estreme sem mistura de quaisquer outras maquinações ) levou-me a propor à Câmara que decretasse um Monumento Nacional ao Restaurador das Liberdades Públicas, o senhor D. Pedro IV. Alguns dos homens de Estado que nos governaram nos últimos seis meses do ano de 1823, não podendo atinar com a verdadeira causa das transformações políticas por que a Nação passara nos anos anteriores, recorreram aos Cavaleiros do Diabo, aos Pedreiros Livres, aos Carbonários e às Sociedades Secretas, para explicarem aquele fenómeno para eles tão singular; e fazendo a todos os portugueses a injustiça de os reputarem estúpidos, e crianças, não tiveram pejo de lhes meter medo com este Papão.
A duas mil léguas léguas de distância da sua antiga Pátria o senhor D. Pedro IV, sobranceiro a todas as preocupações da velha Europa e respirando um ar desinfectado dos miasmas pútridos da Ignorância, do Fanatismo, da Hipocrisia e da Escravidão, reconheceu logo que a verdadeira causa das nossas motivações era a necessidade do século XIX, quero dizer, a necessidade da Liberdade Política ( apoiado, apoiado ); e, em vez de abafar este fogo, como fazem os Apostólicos correndo o risco de serem engolidos pela voragem revolucionária, se pôs ele mesmo à frente do movimento para o dirigir, como dirigiu, no sentido da Carta Constitucional, que tão generosamente nos outorgou.
Foi assim que o Senhor D. Pedro IV cumpriu no Rio de Janeiro a 29 de Abril de 1826 a Real Palavra, que debalde nos tinha dado em Vila Franca seu Augusto pai o senhor D. João VI, a 31 de Maio de 1823! Nesta Carta de Alforria, que assim lhe podemos chamar, ( apoiado, apoiado ) vem consagrado o princípio da igualdade de Direitos, sem ofensa da aristocracia legal; vêm declaradas as Garantias Individuais; concedida a Liberdade de Imprensa; a Representação Nacional; a Tribuna Pública; e o processo por Jurados. E estes preciosos Dons, que outros Povos têm comprado à custa de longos anos de anarquia, de mortes, de horrores, não teriam custado uma só lágrima, uma só gota de sangue ao Povo Português, se um punhado de infames que pretendem consumir sem produzir, comer sem trabalhar, ocupar todos os empregos sem aptidão e alcançar todas as Honras sem merecimento, não tivessem arvorado o estandarte da revolta no País velho da fidelidade. Se quisermos agora avaliar a Carta, por comparação, lembremo-nos dos tenebrosos dias do mês de Abril (1) de de 1824, dias em que toda a putrefacção moral da Nação veio ao de cima!! ... Basta: o Amor da Pátria altamente reclama que se não renovem feridas já cicatrizadas. Seja-me, todavia, permitida uma breve digressão. Que desgraças se não poupariam à geração presente, e às gerações vindouras, se os Reis, devendo conhecer o poderio irresistível das ideias liberais, imitassem a sábia conduta do Senhor D. Pedro IV? Serão porventura tão cegos estes monarcas que não vejam que aos Povos, quando arrancam pela força as suas Instituições Políticas, nada os satisfaz, nunca cessam de pedir e sempre vivem descontentes? E que, ao contrário, quando os Soberanos lhes outorgam livremente essas instituições, as recebem como um Dom do Céu, consideram-se felizes e vivem tranquilos?
Voltando ao assunto. Mostrei os valiosos títulos do Senhor D. Pedro IV à Gratidão Nacional, mas porque maneira devemos exprimir essa gratidão? Eu propus, e a Comissão adoptou, a ideia de um Monumento. Em verdade, entre todos os Povos antigos, e modernos, e em todos os Países é prática recebida levantar Monumentos, conforme o Génio de cada século, às grandes acções, aos grandes homens, às grandes virtudes ( e não poucas vezes a grandes vícios ). Deste mesmo Lugar eu descubro um majestoso Monumento que a gratidão do Povo da Capital consagrou à memória do Senhor D. José I. Mas quem pode comparar o Senhor D. José I ressuscitando Lisboa de entre as ruínas em que foi sepultada pelo terramoto físico de 1755, com o Senhor D. Pedro IV, restituindo generosamente à Nação as Públicas Liberdades enterradas por sucessivos terramotos políticos em tantos séculos? Adoptada, pois, a ideia do Monumento, restava definir qual ele fosse. A Comissão, e eu com ela, afastando para longe esses soberbos Monumentos, mais aparatosos que úteis, argamassados com o sangue e o suor de Povos escravos, assentámos que o nosso devia ser digno da grande Causa e do grande Príncipe a que era dedicado, e que só preencheria este fim se reunisse em si as recordações históricas e a pública utilidade.
Tal é o fundamento por que a Comissão propôs que a primeira grande Obra Pública fosse consagrada ao Magnânimo Rei e Senhor D. Pedro IV. Ainda se adiantou mais, a Comissão indicou que esta Obra poderia ser um grande Canal que comunicasse o Sado com o Tejo, de que sem dúvida resultariam as mais subidas vantagens a esta grande Capital que é a Pátria comum de todos os Portugueses, e às duas Províncias do Sul do Reino. Tenho exposto com lealdade os meus motivos e os motivos da Comissão. A Câmara pegue neles e os julgue com a sua costumada sabedoria.
(1)- Revolta de D. Miguel conhecida por Abrilada, por instigação de sua mãe, a rainha D. Carlota Joaquina.
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Este discurso foi proferido em 1827. A 22 de Fevereiro do ano seguinte D. Miguel usurpa o trono a D. Maria II a favor de quem D. Pedro IV havia abdicado e os acontecimentos que levariam o Reino a uma guerra civil precipitam-se. Com a chegada do infante D. Miguel a Lisboa, em 19 de Fevereiro de 1828, Bento Pereira do Carmo é logo preso. Conduzido ao Limoeiro foi daí transferido para S. Julião da Barra e nessa lúgubre prisão, onde tantos liberais perderam a vida, esteve encerrado até 24 de Julho de 1833.