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27 setembro, 2013

ECOS DA "PATULEIA" EM TERRAS DE ALENQUER


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O TEMÍVEL CAP. LAURET E A SUA TROUPE
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Neste documento acima reproduzido, um ofício do Ministério do Reino ao Administrador do concelho de Alenquer, datado de 9 de Fevereiro de 1848, exige-se a bem da «(...) segurança pública do mesmo Concelho [que] sejam dali removidos [entenda-se, expulsos] o Major Cabral e o Capitão Lauret». 
Não sei quem tenha sido o Major Cabral, mas, acerca do Capitão Lauret, havia já lido uma crónica no "O Alemquerense" assinada por "Um Velho", cronista de boa escrita e muito espírito que, como facilmente se depreende das suas publicações que tiveram lugar nesse jornal a partir do n.º 192 de 15 de Novembro de 1891, seria, efectivamente, um senhor de provecta idade, pois havia vivido todos esses tempos agitados que se seguiram à revolução liberal de 1820.
Não sabemos se o Capitão Lauret foi, ou não, expulso do concelho de Alenquer, como se exigia ao Administrador, mas lendo a crónica abaixo ficamos a saber um pouco mais acerca dessa interessante figura que agitou a vila de Alenquer (e não só!) em meados do século XIX.
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- Castigo a um popular ao tempo da "Patuleia"
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O capitão Lauret

«Em Maio de 1846 organizou-se nesta vila uma força popular de cento e tantos homens que proclamou o governo provisório da Junta do Porto, contra o detestado governo dos Cabrais.
Esta força dirigiu-se a Santarém, apresentando-se à Junta governativa ali estabelecida, composta, além de outros, de Passos Manuel, Lobo d’Ávila, e dr. Quelhas, a qual encarregou do comando dela o capitão Lauret, encarregando o sr. Venâncio Carmo do pagamento do seu pré ou sustento e nomeando administrador do concelho o farmacêutico Domingos Afonso, pai do oficial da administração e curioso passarinheiro, sr. João Afonso.
Chamava o capitão Lauret a esta força minha troupe. Regressando a esta vila o sr. Venâncio incumbiu à gorda padeira Maria Paula o fornecimento do pão para a troupe.
Conduziu o capitão Lauret a troupe do seu comando a Torres Vedras, Lourinhã, Peniche, Óbidos e outros sítios, fazendo proclamar o governo da referida Junta do Porto.
Havia nesta troupe um coisa com uma corneta que, não sabendo tocar, buzinava sempre que entrava na vila. Ouvida a bulha da corneta corriam uns a tocar o sino da câmara, outros os sinos das igrejas, em sinal de satisfação pela chegada da marcial e aguerrida troupe, distinguindo-se o sineiro da igreja de Triana, porque o bom do ver. Prior Matias, que era considerado como afecto ao governo de Costa Cabral, recomendava ao sacristão que tocasse muito para que o não arguíssem de desafeição.
Que cólicas teve por aquele tempo o ver. Prior Matias! Não lhe era muito afeiçoado o administrador Domingos Afonso, mas o ver. Prior, para captar a sua estima, presenteou-o com um bom carneiro e um cântaro de azeite. É isto sabido pelo cirurgião Ramos que o faz público pelos jornais e, Domingos Afonso, tem a ingenuidade de mandar o presente para a Irmandade da Misericórdia o fazer vender em praça e arrecadar o produto na tesouraria, o que consta do livro de actas daquele tempo!
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Caiu o ministério cabralino que foi substituído pelo presidido por o Duque de Loulé que, em seguida, mandou dissolver as forças populares, o que foi comunicado ao capitão Lauret e recomendado ao sr. Venâncio a suspensão de qualquer abono, o qual por sua vez avisou a padeira Maria Paula para não continuar o fornecimento do pão.
O capitão Lauret, olvidando aquela comunicação, mandou dois janízeros da sua troupe pedir pão à Maria Paula; esta recusa a remessa. O capitão Lauret manda sair da forma em que estavam, debaixo do telheiro que havia na praça, outros dois janízeros e diz:
- Vá você fuzilar já Maria Paula.
E eles lá vão para cumprir a ordem, mas quando chegam à esquina do muro, ao fim da praça, diz o capitão Lauret:
- Oh não, vem cá, não fuzila vossemecê Maria Paula.
E assim escapou a gorda Maria Paula duma morte certa, dissolvendo-se a força popular por falta de pão, sem que o incidente se tornasse desagradável.
O capitão Lauret teve a sua residência no lugar da Espiçandeira onde nasceu seu filho, o bem conhecido professor de ginástica e esgrima sr. Paulo Lauret, e tinha diferentes criados ao seu serviço, mas logo que os ajustava dizia-lhes:
- Tu, em eu chamando por João, vem logo. E assim procedia com todos os demais que assoldava, quer se chamassem Manuel, Pedro ou Joaquim.
Perguntando pela razão desta singularidade respondeu:
- Eu quer que todos seja João, porque se eu chama por Manuel, Pedro ou Joaquim e não está o que eu chama, outro não responde; e assim chama por João, vem todos e eu é servido.».
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20 setembro, 2013

A REVOLTA DA PATULEIA

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UMA BASE DE GUERRILHA NO TERMO DA VILA DE ALENQUER
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- Arquivo Histórico Militar (PT AHM/DIV/1/27/08/393)

Corpo Franco de Cavalaria

Exm.º Senhor Barão de Ponte da Barca
Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros

Tendo-me sido indicada a Quinta da Barradinha, no termo de Alenquer como guarida da guerrilha que assola estes concelhos, dirigi-me para ali ontem: Porém querendo entrar na dita Quinta, vi hasteada em um ângulo da casa a bandeira Francesa quando a Quinta pertence ao guerrilheiro Adriano Pereira do Carmo.
Diga-me V. Ex.ª o que devo fazer porque desta sorte inúteis são os esforços das tropas fiéis quando os assoladores do País têm guarida certa à sombra de bandeiras e fantásticos privilégios Estrangeiros.
                                Deus Guarde a V. Ex.ª
             Quartel em Vila Franca 29 de Maio de 1847
                Diogo Pires Monteiro Bandeira - Coronel

- À margem o seguinte despacho:

Quando tiver a certeza de estarem ali os guerrilheiros deve atacar.

Para conhecimento ao Ministério dos Negócios Estrangeiros
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Por morte de seu pai Bento Pereira do Carmo em 1845, Adriano Pereira do Carmo, casado com D. Lourença de Assis Pereira do Carmo, tornar-se-ia proprietário das Quintas da Barradinha (Guizanderia) e da Provença, do mesmo modo que seu irmão Alfredo Pereira do Carmo, casado com D. Maria José Conceição Marques Pereira do Carmo se tornou dono das Quintas da Almadia e Casal do Galo de Ouro.
Seu pai foi um ilustre político do Liberalismo, e, pelos vistos, os seus filhos seguiram-no nos ideais mais avançados da época, tomando o partido dos Setembristas mais radicais. Mas, antes disso, estudaram ambos em Coimbra (onde seu pai também se tornou Bacharel em Leis) e sobre esses tempos da sua juventude encontrámos no O Alemquerense (n.º 272 de 1893) a seguinte referência:
«[Alfredo] foi estudar para a Universidade de Coimbra aos 15 anos tendo nesse tempo por condiscípulos o irmão Adriano Pereira do Carmo, Gonçalo de Sousa Lobo, José Lobo e muitos outros que pelas suas leviandades se tornaram o terror de Coimbra, sendo expulsos da Universidade e riscados em 3 de Julho de 1839 mas readmitidos depois por empenhos».
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- Conselheiro Bento Pereira do Carmo, pai de Adriano Pereira do Carmo e de Alfredo Pereira do Carmo.
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De jovens turbulentos passariam a políticos radicais. Alfredo assentou praça em Cavalaria e quando do pronunciamento "Setembrista" (esta corrente política opunha-se à Carta Constitucional, logo aos "Cartistas", e queriam uma Constituição feita pelos representantes eleitos do Povo) que eclodiu em Torres Novas e viria a ser secundado pela praça de Almeida, nele tomou parte já como alferes feito pela Junta Revolucionária. Quando Almeida capitulou Alfredo emigrou para França onde manteve até à "Maria da Fonte". Na sequência deste movimento foi amnistiado, e, tal como todos os revoltosos de Almeida manteve o posto e foi reintegrado. Assim, na sequência do movimento de 6 de Outubro de 1846 aí o temos como oficial "patuleia" às ordens da Junta Provisória do Supremo Governo do Reino (Porto), presidida pelo Conde das Antas com vice-presidência de José Passos. Nesse mesmo ano, em 6 de Outubro combate na célebre (e sangrenta) batalha de Torres Vedras onde os "cartistas" comandados por Saldanha derrotam os "patuleias" comandados pelo Conde de Bonfim. Nessa batalha esteve prestes a perder a vida, salva por um soldado do seu Regimento e amigo, Bértolo Ribeiro Seabra.
Assim, quando se dá o episódio descrito no documento acima, o guerrilheiro Adriano Pereira do Carmo tem o seu irmão Alfredo preso com os seus camaradas que haviam capitulado, a bordo da fragata "Diana" ancorada frente à Torre de Belém, onde esteve até Junho de 1847, data da Convenção de Gramido que pôs termo à Guerra Civil. Alfredo receberia de volta o posto de Alferes de Cavalaria (e seria longa e aventurosa a sua carreira militar) e colocado na inactividade. Adriano seria um viticultor como seu foi no final da vida.
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- Batalha de Torres Vedras (Gravura da Biblioteca Nacional).
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O documento acima revela-nos, ainda uma informação interessante: É ponto mais ou menos assente que após a Batalha de Torres Vedras, onde participaram pelos "patuleias" corpos de guerrilheiros, esses movimentos haviam desaparecido. Todavia, em Alenquer, persistiriam por mais algum tempo.