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02 outubro, 2013

DEAMBULAÇÕES ESTIVAIS - V

TRANCOSO - A TERRA DO SAPATEIRO QUE FAZIA PROFECIAS
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Trancoso pertence ao Distrito da Guarda e a ela se acede a partir da A-25 (um pouco antes de Celorico para quem vem da Guarda) pelo IP 2, ou, então, a partir de Celorico da Beira pela EN 102 (nunca a partir de Fornos de Algodres por Sobral Pichorro, porque as voltas da serra são muitas...). Trancoso alcançou a dignidade de cidade em 2004, mas é cidade pequena, com cerca de 3.000  habitantes. O Concelho tem uma área de 364 Km2 onde habitam cerca de 6.500 habitantes (com uma forte emigração, os números são sempre relativos...) em 29 Freguesias, isto antes da recente reforma administrativa. Hoje fala-se em 9.878 habitantes em 1960 eram 18.224...
Concelhos limítrofes, são Penedono a Norte, Celorico da Beira a Sul, Sernancelhe a noroeste, Fornos de Algodres a Sudoeste, Meda a Nordeste, Aguiar da Beira a Oeste e Pinhel a Leste. É uma zona planáltica, com uma altitude média de 750 metros, as cotas mais elevadas, 985 metros, situam-se nas freguesias de Sebadelhe da Serra e Guilheiro, e 890 metros em Terrenho, Moreira do Rei e Guilheiro. Terras arejadas portanto, mas quentes no Verão e frias no Inverno.
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- Uma das entradas de Trancoso, ao fundo uma das portas do Castelo, em primeiro plano, no exterior da vila, monumento evocativo das bodas de D. Dinis com Isabel de Aragão
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- Edifício dos Paços do Concelho, com a estátua de Gonçalo Anes Bandarra em primeiro plano.
Bandarra, sapateiro-poeta, que nas suas Trovas "exalta a imaginação sebastianista do povo português. Estas "Trovas" tiveram a sua primeira publicação em 1540.
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- Pelourinho de Trancoso, bem no centro de Trancoso. Um pelourinho dito de "gaiola" no estilo manuelino.
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- Uma perspectiva do Castelo de Trancoso.
O castelo de Trancoso será anterior á própria nacionalidade. Por ali terão andado, também os mouros, mas D. Afonso Henriques conquistou-o em 1160. Depois conheceu melhoramentos com D. Afonso II (que confirmou a Carta de Foral doada pelo Conquistador) e também com D. Dinis.
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- Aspecto da Judiaria
- Tendo tido importante presença judaica, são muitos os sinais que a mesma deixou gravados nas velhas pedras das suas casas.
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- Casa que foi Quartel-General de Beresford, quando da Guerra Peninsular.
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- Rua da Corredoura, uma das principais.
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Uma nota final para aqui evocar duas coisas que me chamaram a atenção em Trancoso, uma terra bem cuidada. Primeiro os seus bonitos candeeiros que talvez sirvam de inspiração para uma iniciativa local (com as devidas adaptações, claro, no que toca aos motivos recortados na chapa):
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Por último, a excelente Casa da Prisca, na Rua da Corredoura, onde encontrará produtos regionais de excelência: Enchidos, presuntos, queijos regionais, compotas, geleias, e... as famosas "sardinhas" emblemático (e saboroso) doce local. Como diz o folheto «tem forma de peixe, tem nome de peixe, mas não sabe a pescado. Sugere o mar, mas de salgado não tem nada, nem tem pescado como ingrediente. São as sardinhas doces, a pastelaria conventual de Trancoso». Gostava de lá voltar...

14 setembro, 2013

DEAMBULAÇÕES ESTIVAIS IV

PINHEL CIDADE SOLARENGA
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- Edifício dos Paços do Concelho, antigo Solar dos Mena Falcão.
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Cidade onde antigos solares marcam solenemente a malha urbana, Pinhel pertence ao Distrito da Guarda, tinha 27 freguesias (até à recente reforma), o município tem uma área de 484,5 Km2 e 9. 627 habitantes, sendo que deles 3.518 habitam na cidade.
Chega-se a Pinhel pela A-25, a que vai para Vilar Formoso, mas a partir do nó do Pinzio, segue-se a placa que indica esta cidade, também ela conhecida por Cidade Falcão - o Falcão está no seu brasão - em homenagem à bravura dos pinhelenses que em 1383 tomaram o partido do Mestre de Avis e bateram-se corajosamente com os de Castela em defesa da independência nacional.
Já foi Diocese, dissociada da de Lamego em 1770, data em que, também, ganhou o estatuto de cidade. Todavia, em 1881 a Diocese seria extinta, restando desses tempos o magnífico Paço Episcopal. Hoje é evidente nesta cidade raiana o processo de desertificação que assola o nosso interior, pois lá chegado tive a sensação de que tinha toda uma cidade só para mim. Para mais, os números não enganam, mas o que lhe falta em habitantes sobra em beleza e testemunhos de uma história que deixou traços de opulência no seu património construído. Uma coisa boa: o turista não tem problemas com o estacionamento, mesmo no centro da cidade...
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- Igreja da Misericórdia (1537). Próxima desta a Igreja de S. Luís (1596).
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Com um património construído tão rico, são muitos e variados os pequenos pormenores que surpreendem o visitante a cada esquina ou nas fachadas dos imóveis.
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A caminho do Castelo a pequena mas muito antiga (Séc. XIV) Igreja de Santa Maria do Castelo (abençoadamente fechada como as da maioria das terras por onde passei...).
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-Torre de menagem do castelo de Pinhel conhecida como Torre Manuelina, sendo visíveis elementos desse estilo.
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O castelo de Pinhel datará do reinado de D. Sancho I, soberano que deu foral à vila. D. Dinis «revigorou» este sistema defensivo mandando-o reconstruir. Teve seis torres amuralhadas e, muralha de 800 metros e seis portas (ainda existem cinco). Numa elevação 600 metros acima do nível do mar, erguem-se sobranceiras duas torres. 
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- Pelourinho, vendo-se por detrás  a "Casa Grande" (séc.XVIII) construída pela família Fagundes. Foi, até 2005, Paços do Concelho.
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O Pelourinho de Pinhel é, sem dúvida alguma, o ex-libris da cidade. Ao estilo manuelino e do tipo "gaiola", apresenta coluna octogonal (o fuste não é ornamentado) assente em base quadrada e encimada por capitel também octogonal, sobre o qual assenta a gaiola. Esta é formada por oito colunelas decoradas com motivos vegetalistas estilizados. Até ao séc. XVII os pelourinhos eram popularmente conhecidos como picotas. Dizem os estudiosos da matéria que em alguns se fizeram execuções (até ao séc. XIV) ou expuseram à fúria popular criminosos. Depois passaram a ser vistos como símbolos da autonomia judicial do concelho para, finalmente, se tornarem símbolos da liberdade municipal.
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- A bonita praça fronteira aos Paços do Concelho (Largo Ministro Duarte Pacheco) com a Torre do Relógio (séc. XIX) e ao fundo as torres do Castelo.
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Não está na fotografia mas merece ser mencionado. Quando na Praça acima perguntei por um restaurante onde pudesse almoçar, logo me indicaram o ali próximo "Skylab". Confesso que com um nome destes, de snack americano... Bom, mas lá fui porque a hora já era tardia. Moral da história: almoçámos supinamente: entradas tradicionais e um excelente vinho da casa (terra de bons vinhos...) abriram caminho a uma excelente posta de vitela assada (e bem temperada) apresentada, originalmente, em tradicional tacho de barro e com todos os acompanhamentos. Sobremesas e cafés abriram caminho a uma módica conta (cá pelos nossos lados já não se come assim e muito menos por aquele preço... Serviço simpático a merecer uma nova visita que, porventura, jamais acontecerá, pois Portugal sendo pequenino ainda tem muito por descobrir.

31 agosto, 2013

DEAMBULAÇÕES ESTIVAIS III

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BELMONTE - TERRA DE CABRAL... E NÃO SÓ!
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Belmonte é uma pequena mas bonita vila do Distrito de Castelo Branco. Nela habitam 3100 pessoas e é sede de concelho com 4 freguesias. Não fugindo ao que aconteceu ao nosso interior, o seu concelho que já registou 9109 Habitantes (1960) está hoje reduzido a 6.589 (2011). Com o concelho da Guarda a norte, o do Sabugal a leste, o do Fundão a sueste e o da Covilhã a sueste, fica a dois passos da A-23 e no caminho de quem procura a Serra da Estrela por Manteigas.
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Este é também um concelho com muita História, sendo Belmonte a terra natal de Pedro Álvares Cabral, sua figura tutelar. Ao visitante aconselha-se que dê «corda aos sapatos e suba ao ponto mais alto da vila onde se ergue o seu castelo «altaneiro»


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«A construção do Castelo data do século XIII. Em 1258 D. AfonsoIII autoriza D. Egas Fafe a construir uma Torre no Castelo de Belmonte, no entanto, no local, onde se ergue o Castelo, haveria já um sistema defensivo, posto a descoberto com as escavações arqueológicas realizadas no monumento, cuja construção estaria relacionada com as necessidades de repovoamento e de afirmação do poder  real de D. Sancho I na região.
D. Afonso V em 1466 doa o Castelo a Fernão Cabral I, tornando-se a residência da família Cabral. As várias transformações efectuadas são visíveis no pano da muralha oeste, com a construção de várias janelas panorâmicas. Destaca-se uma janela estilo manuelino, da primeira metade do século XVI, encimada por brasão composto por duas cabras (Cabrais) e seis ruelas (Castros), simbolizando a união de João Cabral Fernandes com D. Joana Coutinho de Castro.
Actualmente o edifício tem funções turísticas e culturais, tendo sido construído um anfiteatro ao ar livre e a Torre de Menagem e Sala Oitocentista adaptadas a espaços museológicos dedicados à história do Concelho e do castelo.»
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As alturas do castelo são excelentes para espreitar a vila e as terras envolventes que se estentendem até aos contrafortes da Serra. Junto ao Castelo situa-se a Igreja de Santiago e o Panteão dos Cabrais, assim como as pequeninas capelas de Santo António e do Calvário.
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Do Castelo pode o visitante descer a Judiaria, ali bem próximo e, se tiver sorte, como eu tive, visitar a Sinagoga.
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Quando me aproximei da sinagoga reparei que a porta estava aberta. Entrei cautelosamente, não fosse abusiva a minha presença. Logo encontrei um membro da comunidade judaica local que me disse estar ali porque aguardava a chegada de dois grupos de visitantes, daí a a sinagoga estar aberta. Enquanto esses não chegavam fomos conversando, uma conversa interessante que me ajudou a entender melhor aquela religião. Fiquei ainda a saber que sendo a comunidade pequena, cerca de 130 elementos, entre homens, mulheres e crianças, as preocupações quanto à sua sobrevivência são muitas, pois a situação de crise que o País vive está a levar os seus jovens para Israel. Entretanto chegou o primeiro grupo de visitantes e foi entre muitos e simpáticos «shalom» que me retirei para continuar a minha vista a Belmonte, mais precisamente ao bonito, moderno e elucidativo "Museu Judaico".
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Para terminar, resta dizer que é evidente o investimento deste município no turismo cultural, pois além do já citado "Museu Judaico", a vila tem, ainda, para oferecer ao visitante mais dois Museus: O "Museu dos Descobrimentos" instalado no antigo Solar dos Cabrais (Casa dos Condes), um Centro Interpretativo da Descoberta do Novo Mundo definido como «um novo pólo cultural e social englobando diferentes serviços de apoio: o centro de documentação, a cafetaria, o arquivo, etc. (...) um projecto interactivo, de sensações e de afectos que levará o visitante numa viagem de 500 anos de história da construção de um País e da sua portugalidade».
Atravessando a estrada e próximo dos Paços do Concelho, situa-se o "Ecomuseu do Zêzere" instalado num edifício antigo (séc. XVIII) conhecido como "Tulha dos Cabrais", celeiro onde eram armazenadas as rendas em espécie da família Cabral. Este é «um museu com função didáctica e pedagógica, onde se pode estudar o percurso do rio Zêzere, desde a sua nascente à foz, assim como a sua fauna e flora».
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Mas a oferta cultural destas terras de Belmonte não se esgota no que já se disse, pois nas suas imediações poderemos ainda encontrar ou visitar o "Museu do Azeite" no Sítio do Chafariz Pequeno, a Villa romana da Fórnea na Estrada Municipal Belmonte/Caria, a "Casa Etnográfica de Caria" na localidade com o mesmo nome e essa bela e singular construção, a torre "Centum Cellas", também conhecida por "Torre de São Cornélio", na freguesia de Colmeal da Torre, que tantas teorias e lendas tem gerado no que respeita ao que efectivamente teria sido.

05 agosto, 2013

DEAMBULAÇÕES ESTIVAIS - I

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LINHARES DA BEIRA

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Alcandorada numa aba da Serra da Estrela, Linhares da Beira, a capital do parapente, é uma das mais belas das nossas aldeias históricas. Foi outrora vila com foral concedido em 1169. Em 1801 albergava uma população de 5087 almas e era concelho com 13 Freguesias. Hoje é, tão só, uma das freguesias do concelho de Celorico da Beira e a sua população encontra-se reduzida a 269 habitantes.
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- Pelourinho de Linhares da Beira, símbolo da sua antiga dignidade municipal.
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Acede-se a Linhares a partir da EN 17. Quem se deslocar no sentido Gouveia /Celorico ou vice-versa, há-de encontrar uma placa que indica a estrada que leva a esta aldeia histórica. Lá chegando, o melhor local para estacionar será junto à Igreja da Misericórdia (frente ao INATEL).
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- Pormenor da Igreja da Misericórdia com o seu bonito campanário.
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Iniciada a subida para o Castelo são muitos os motivos de interesse que, a cada passo, solicitam a nossa atenção e nos levam a bater mais uma fotografia. Entre eles, abaixo, a chamada "Casa do Judeu" com a sua janela manuelina, a qual nos lembra que entramos na antiga Judiaria.
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Ou esta antiquíssima casa em que uma pedra trabalhada de forma muito interessante ornamenta as ombreiras da porta:
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Ou, ainda, este conjunto edificado para uso religioso:
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Mas a grande vedeta arquitectónica de Linhares, é, sem dúvida, o seu Castelo, imponente e de linhas peculiares, onde sobressaem duas torres. Esvoaçando em torno delas uma enorme colónia de andorinhões lembra ao visitante que ali é terra de grandes voos, particularmente de parapente, modalidade que atrai a Linhares praticantes de toda a Europa.

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Este castelo «situa-se num cabeço em contraforte, a Noroeste da Serra da Estrela, a cerca de 820 m de altitude, dominando o vale do Mondego. Foi provável a fundação pelos Túrdulos, cerca de 580 a.c., passando posteriormente por Visigodos, Romanos e tendo sido destruído pelos Mouros no séc. VIII. Em 900, foi reconquistado e reconstruído por D. Afonso III de Leão e, posteriormente, reedificado por D. Dinis. No séc. XVII, foi feita a instalação do relógio na torre. É um castelo românico e gótico de planta irregular, constituído por dois recintos muralhados fechados. As muralhas assentam em maciços rochosos. O recinto do lado Oeste, de maior perímetro corresponde à cidadela.
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No interior do Castelo, esta interessante e enigmática figura em pedra, atrai o  olhar do visitante que se interroga sobre qual seria a sua utilidade. Meramente decorativa? Não me parece...
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Uma das melhores vistas sobre a aldeia de Linhares é aquela que se toma do alto das muralhas do seu Castelo:

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No bonito largo do Castelo situa-se a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção:

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Uma das ruas em que casas e enormes rochedos se fundem e abraçam:

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Jardins e piscinas do INATEL. Uma excelente unidade desta instituição cujos jardins estão abertos ao visitante:


10 dezembro, 2012

O CASTELO DE ALENQUER - IV (CONCLUSÃO)


O QUE RESTA DO CASTELO
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- A lenda do Alão - Desenho de Mestre Álvaro Duarte de Almeida para o concurso "Lendas de Portugal" do Jornal "O Século".
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Tem-se escrito que D. João I, desagradado com o que lhe aconteceu em Alenquer aquando da Revolução de 1383/85 que o levou ao trono, teria mandado abater a Torre de Menagem ordenando que lhe retirassem os cunhais, tendo tido igual sorte alguns lances da muralha ou cerca. Ter-se escrito é um facto, mas há quem sustente que falta fundamento histórico a esta narrativa, embora ela já venha relatada em escritos como a "Descrição da Vila" feita pelo P. António Carvalho da Costa na sua "Corographia Portugueza", de 1702, onde escreveu que Alenquer «Tem seu Castelo, que hoje está muito arruinado, por lhe mandar tirar os cunhais El Rei D. João o Primeiro pela resistência, que achou nesta Vila quando pôs cerco nela à Rainha D. Leonor Teles sua cunhada(...)».
Mais tarde, quando outra Leonor, a rainha viúva de D. Duarte, aqui procurou refúgio com seu filho, o futuro rei D. Afonso V, receosa que algum mal lhe viesse por parte seu tio, o infante D. Pedro, Regente do reino, teria o Castelo de Alenquer sido objecto de importantes obras de reparação que, de novo, o tornaram apto para a sua missão defensiva. Como a História registou, esse episódio que envolveu o futuro soberano não teria passado de pura manipulação e nada aconteceu. Sendo infundados os receios de D. Leonor, sob as muralhas do castelo de Alenquer tudo se manteve calmo e pacífico.
Teria sido a partir de então que o castelo entrou em declínio. Quando em 1580 a vila seguiu o partido de D. António, o Prior do Crato, aqui aclamado rei, ainda terá havido algum sobressalto guerreiro, mas, estando mais uma vez Alenquer do lado errado da História (mas certo na razão), o Castelo entrou definitivamente no esquecimento, «passando a ser utilizado como pedreira», como se pode ler na memória Histórica-Artística do IGESPAR que sobre ele se debruça. Que quer isso dizer? Que as suas pedras, como nesses tempos vulgarmente acontecia, passaram a ser retiradas pelos habitantes e utilizadas na edificação de habitações, levantamento de muros, construção de arruamentos e estradas.
Em 1750 D. José I, ou o seu Ministro Sebastião José de Carvalho e Mello, ainda se terão lembrado dele, ou melhor, ainda terão sido levados a lembrarem-se dele por solicitação da Academia Real de de História Portuguesa «visto ser indubitavelmente obra dos alanos», mas sem resultados objectivos. Depois, por esses anos, foi ainda o terramoto de 1755 que lhe causou enormes estragos, destruindo as duas torres da porta principal, a da «Vila».
Com o séc. XIX  e a construção do edifício dos Paços do Concelho e da variante ligando Santa Catarina à Vila Alta e esta à Ponte da Barnabé, novos panos de muralha terão sido derrubados, fazendo o passar do tempo o resto do trabalho demolidor.
Assim, tudo o que hoje resta da importante fortaleza que remonta ao Neolítico, que foi castro lusitano, castrum romano, castelo dos Alanos, castelo mourisco, castelo gótico, pode ver-se abaixo nas duas fotografias que se seguem:
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- Bem lá no alto, o último lance da muralha original, entre o estar e o cair.
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- Onde se erguia a Torre de Menagem, restos de antigas construções adjacentes e da muralha
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Há relativamente pouco tempo, a nossa Câmara, e bem, promoveu a melhoria dos acessos ao «Castelo» e a sua limpeza, instalando na zona abaixo da Torre de Menagem um aprazível Parque de Merendas.
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Visitei-o no final deste Verão e algum abandono era já visível. Na realidade não basta fazer, torna-se necessário cuidar, promovendo, no mínimo, a limpeza, as acessibilidades e tornando-o conhecido através da instalação de placas que elucidem o visitante da sua existência e o ajudem a encontrar o melhor caminho a percorrer para o alcançar.
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Na minha perspectiva o melhor caminho passa, bem a propósito, pela Travessa do Castelo (acima) que tem o seu início logo à entrada do Bairro da Judiaria, junto a um enorme edifício em ruínas (esse, pelo estado em que se encontra, não vai demorar muito a cair. Pelo menos que caia para dentro e não faça vítimas...), mas todo o estado desta Travessa é mau, como facilmente se constata.
Pela mesma, chega-se a um caminho de terra batida, o qual, como se pode ver na fotografia abaixo, já começou a ser abusivamente «comido» por construções clandestinas. Aqui chegados, basta percorrer um pequeno carreiro, na ocasião tomado pela folhagem, para se alcançar o tal Parque de Merendas, que, ao que me disseram alguns moradores vizinhos, apesar de tudo, é bastante procurado (!?).
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Alcançado o ponto mais alto do sítio do Castelo, lá encontraremos, ainda, a antiga «Casa da Água» (fotografia abaixo), hoje desactivada. Esta proeminência poderia ser um miradouro sobre a Vila, mas não o é porque a vegetação não deixa, como também não deixa ver a estrada para Torres e a Cruz do Bufo. Quer dizer, o legionário «Mirolho», hoje ali de sentinela, não veria aproximarem-se da vila as tropas do «Tróina», mas essa é outra história que só os mais antigos conhecem e que remonta aos tempos do heróico Terço legionário de Alenquer (LOL como dizem os jovens face-booquenianos).
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26 outubro, 2012

O CASTELO DE ALENQUER - III


O CASTELO DE ALENQUER - AS SUAS PORTAS E POSTIGOS
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Na gravura abaixo que datamos do séc. XVI por lá estar, em 14, o moinho de papel de Manuel Teixeira(1), poderá o nosso leitor verificar que, esquematicamente, o recinto amuralhado tinha a forma de um semicírculo ou crescente (algo imperfeito), sendo visíveis em 2 e 3 as duas principais portas da vila que, por assim o serem, denominavam-se portas de armas. Uma conhecida como "da Vila" assinalada com 2. Outra, conhecida como"do Carvalho", mais tarde como de "Santo António" e mais modernamente, "da Conceição", assinalada com 3. 
Quanto a postigos, o mais importante, assinalado em 4, situava-se mais ou menos por cima do local onde na actualidade se monta pelo Natal o monumental Presépio e dava acesso a um íngreme carreiro que conduzia ao rio. Um outro situava-se em 6, frente à já desaparecida igreja de S. Tiago. Este último, talvez não fosse bem um simples postigo, mas sim a chamada porta da traição, nome dado num castelo à porta com menor tamanho, na medida do possível dissimulada e situada distante da(s) portas  principais e em sentido oposto ao da localização daquelas,  aberta na muralha à medida de uma qualquer emergência (de notar que estes pressupostos nem sempre se verificavam cumulativamente).
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- Alenquer medieval - Desenho de Mestre João Mário para uma publicação da C.M.A.


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A implantação da fortaleza neste local tornava-a, como se verificou mais de uma vez, praticamente inexpugnável(2). De facto, as suas duas principais vertentes eram bastante íngremes e facilmente defensáveis para os sitiados. Também o acesso às suas principais portas era, como o lembra Guilherme João Carlos Henriques na sua obra A Vila de Alenquer, bastante mais acentuado e difícil do que o é hoje.
A porta da "Vila", abaixo representada, situava-se (o que dela restava desapareceu quando da construção dos actuais Paços do Concelho, nos finais do séc. XIX) no local onde hoje termina a Igreja da Misericórdia, na Rua Maria Milne Carmo que dá acesso ao bairro da Judiaria. A ela se acedia subindo do rio pela hoje chamada Calçada Francisco Carmo, vulgo "Calçadinha". Para quem já experimentou, uma subida longa e difícil, actualmente um pouco suavizada em relação aos tempos a que nos reportamos.
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- Porta da "Vila"- Aqui a preto e branco, mas, na realidade, trata-se de uma aguarela do artista Ribeiro Cristino.
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- Fotografia de autor desconhecido publicada por Luís Venâncio em Alenquer, Concelho Multissecular e Monumental - Vila Alta de Alenquer (último quartel do séc. XIX), antigo largo medieval, hoje denominado Praça Luís de Camões, vulgo "Largo da Câmara".
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Na fotografia acima referida identificamos:
1 - A porta da "Vila" ou o que nos finais do séc. XIX dela restava (demolida);
2 - As antigas Casas da Câmara (demolidas);
3 - O Celeiro das Jugadas, que foi, também quartel e teatro (demolido);
4 - A Igreja de S. Pedro;
5 - O largo medieval, com o seu pelourinho e onde se situava a ermida de Nossa Senhora do Monte Carmo (demolida);
6 - A sacristia da Igreja da Misericórdia, cuja empena se vê na gravura abaixo (demolida);
7 - A Igreja da Misericórdia;
8 - O antigo Hospital da Misericórdia, prédio onde hoje se encontram os serviços administrativos da Misericórdia (antiga Tipografia A Central), a Liga dos Amigos de Alenquer e o Teatro Ana Pereira.
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- Antigas Casas da Câmara, e, em primeiro plano a Sacristia da Igreja da Misericórdia - Gravura publicada por Luís Venâncio em Alenquer, Concelho Multissecular e Monumental.
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Falemos agora da Porta do "Carvalho", de "Santo António" ou da "Conceição", hoje simplesmente "Arco da Conceição". Esta era a porta que se situava mais próximo do rio, e, sendo este navegável, pelo menos durante os primeiros reinados da I Dinastia, seria por aqui que entravam e saiam as mercadorias  transportadas por barco.
A teoria é minha e necessita, obviamente, de confirmação, mas como em tudo impera a lógica... 
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  - Arco da Conceição - Fotografia sem indicação de autor publicada na "Revista dos Centenários" (nº.24 de 31/12/1940), logo anterior à intervenção havida que lhe deu os actuais contornos arquitectónicos.

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Próximo desta porta, à distância de vinte passos fica a Torre da Couraça, monumento onde são reconhecidos dois níveis de construção: um, o superior, de finais do séc. XIV, outro que se supõe remontar à presença dos mouros na vila.
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- Acima, fotografia publicada na "Revista dos Centenários (n.º24 de 31/12/1940) sem indicação de autor. A habitação que se vê coroando o seu topo é do séc. XIX. Abaixo, ilustração da Wikimedia Commons onde se pode ver a "couraça" de um castelo medieval.
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Seria, inicialmente esta torre uma construção de apoio às actividades portuárias ou uma contrução para defesa do porto? Como no seu interior existia uma copiosa nascente, teria sido ela construída para sua defesa? Esta nascente era muito importante já que o castelo tinha como ponto fraco a inexistência de mananciais de água, pelo que, interiormente, só existia a que era recolhida nas cisternas. 
Vejamos o que sobre ela, a Torre, nos diz Guilherme Henriques na sua obra A Vila de Alenquer:
«Espalhadas pela parede ha diversas figuras [leia-se inscrições, uma delas com a data de construção], e nas pedras aparelhadas dos cunhaes ha muitos dos signaes mysticos que são tão frequentes nas obras de pedreiro d'aquella epoca. A era de 1421 corresponde ao anno de Crhisto de 1383, e, sendo aquella a verdadeira leitura, prova que esta parede da nascente foi feita por ordem da rainha D. Leonor Telles, quando retirou da capital para esta villa, depois da morte do conde d'Andeiro, sendo possível que as outras duas paredes, que diferem bastante na qualidade do material empregado e na mão d'obra, já estivessem feitas. Mas pode ser que haja mais duas unidades na era; e n'este caso, já seria obra de D. João I».
No que respeita a esta Torre da Couraça por aqui nos ficamos, pois não queremos terminar este post sem desfazer uma confusão criada por Guilherme João Carlos Henriques na obra que temos vindo a citar, ao trocar o nome às portas. A porta do "Carvalho" é efectivamente esta que depois veio a ser de "Santo António", depois ainda da "Conceição", e não a outra, lá em cima, junto às Casas da Câmara que, definitivamente, era a da "Vila"  e não do"Carvalho" como o escreveu o historiador da Carnota e a partir daí tem sido repetido como coisa certa.
E é assim porque é essa a denominação com que Fernão Lopes na sua Crónica de D. João I a referencia a propósito do episódio  do épico do cerco posto pelo Mestre de Avis em que viria a ser fatalmente atingido o seu jovem companheiro de armas Afonso Henriques. Mais, Fernão Lopes diz que esta porta se chamava do "Carvalho" por aí perto existir um soberbo exemplar de árvore desta espécie.
Mas outras referências encontrámos que corroboram a opinião do cronista: O Padre António Carvalho da Costa, na sua "Corographia Portugueza e Descripçam Topografica do Famoso Reyno de Portugal», publicada em 1712, escreveu que a vila «He cercada de muros com duas portas principaes, a da Villa, q está na praça, e a de Santo Antonio, chamada antigamente do Carvalho, que vay para a ponte da Coyraça». O Padre Luiz Cardozo, por sua vez, escreveu no seu "Diccionario Geografico, publicado em 1747, referindo-se ao castelo, que era fortaleza «ja hoje com muitas ruinas; mas ainda com inteira fórma se conservão com Castello, torres, baluartes, e cortinas; e com cinco entradas, duas principaes entre torres, huma junto ao Castello, e duas em huma cortina. Pouco abaixo da porta chamada da Villa se demolio por industria um pedaço de cortina para passarem as carruagens com mais facilidade, e he hoje a mais frequentada passagem que ha de fóra para dentro dos muros. Por fóra da porta do Carvalho, e na sua barbacã, se levanta da margem do rio uma couraça(...)». Pinho Leal no seu "Portugal Antigo e Moderno" de 1873, sobre isto, escreveu (com toda a probabilidade baseado na leitura dos autores anteriormente citados, mas escreveu): «O castello, se não foi fundado pelos romanos, foi-o pelos alanos; pois já existia quando em 715 os árabes se apossaram da Luzitania. As muralhas que cingiam a villa foram edificadas pelos mesmos que edificaram o castello. Tinham tres portas, a da VIlla (na praça) a de Santo Antonio (que primeiro se chamou Carvalho, por ir para a ponte do Carvalho e a de S. Thiago; álem de alguns postigos». Por último, embora outras citações fossem possíveis, Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, em 1904 no «Portugal, Diccionário Histórico, Chorographico, Heraldico (etc.)», escreveram: «As muralhas antiquissimas, que datavam do tempo da construcção do castello, e de que hoje restam apenas vestigios, tinham 3 portas e alguns postigos: a da Villa (na praça), a de Santo António (que primeiro se chamou Carvalho por ir para a ponte d'este nome), e a de S. Thiago [porta da traição?]» (teriam eles lido Pinho Leal?). Seja como for, parecem não subsistir dúvidas.
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(1) - Moinho de Manuel Teixeira, um dos primeiros moinhos para o fabrico de papel a laborar em Portugal, mediante alvará com força de carta datado de 22 de Maio de 1565, assinado por D. Sebastião.
(2) - Assim aconteceu em 1148 quando resistiu ao cerco de Miramolin de Marrocos após a batalha de Santarém; Depois quando do conflito que opôs D. Sancho II  as suas irmãs D. Teresa e D. Sancha, esta última senhora da vila; mais tarde, por várias ocasiões, quando da Revolução de 1383/85, sendo alcaide Vasco Perez de Camões e sua senhora D. Leonor Teles, o que muito enfureceu o Mestre de Avis que teria mandado abater os cunhais que sustentavam a Torre de Menagem; por fim teria o castelo sofrido obras de reparação quando nele se refugiou a sua senhora, a rainha víúva de D. Duarte, D. Leonor, com seu filho o futuro rei D. Afonso V, por temer que algum mal lhe viesse do regente, o príncipe D. Pedro.