14 setembro, 2013

DEAMBULAÇÕES ESTIVAIS IV

PINHEL CIDADE SOLARENGA
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- Edifício dos Paços do Concelho, antigo Solar dos Mena Falcão.
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Cidade onde antigos solares marcam solenemente a malha urbana, Pinhel pertence ao Distrito da Guarda, tinha 27 freguesias (até à recente reforma), o município tem uma área de 484,5 Km2 e 9. 627 habitantes, sendo que deles 3.518 habitam na cidade.
Chega-se a Pinhel pela A-25, a que vai para Vilar Formoso, mas a partir do nó do Pinzio, segue-se a placa que indica esta cidade, também ela conhecida por Cidade Falcão - o Falcão está no seu brasão - em homenagem à bravura dos pinhelenses que em 1383 tomaram o partido do Mestre de Avis e bateram-se corajosamente com os de Castela em defesa da independência nacional.
Já foi Diocese, dissociada da de Lamego em 1770, data em que, também, ganhou o estatuto de cidade. Todavia, em 1881 a Diocese seria extinta, restando desses tempos o magnífico Paço Episcopal. Hoje é evidente nesta cidade raiana o processo de desertificação que assola o nosso interior, pois lá chegado tive a sensação de que tinha toda uma cidade só para mim. Para mais, os números não enganam, mas o que lhe falta em habitantes sobra em beleza e testemunhos de uma história que deixou traços de opulência no seu património construído. Uma coisa boa: o turista não tem problemas com o estacionamento, mesmo no centro da cidade...
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- Igreja da Misericórdia (1537). Próxima desta a Igreja de S. Luís (1596).
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Com um património construído tão rico, são muitos e variados os pequenos pormenores que surpreendem o visitante a cada esquina ou nas fachadas dos imóveis.
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A caminho do Castelo a pequena mas muito antiga (Séc. XIV) Igreja de Santa Maria do Castelo (abençoadamente fechada como as da maioria das terras por onde passei...).
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-Torre de menagem do castelo de Pinhel conhecida como Torre Manuelina, sendo visíveis elementos desse estilo.
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O castelo de Pinhel datará do reinado de D. Sancho I, soberano que deu foral à vila. D. Dinis «revigorou» este sistema defensivo mandando-o reconstruir. Teve seis torres amuralhadas e, muralha de 800 metros e seis portas (ainda existem cinco). Numa elevação 600 metros acima do nível do mar, erguem-se sobranceiras duas torres. 
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- Pelourinho, vendo-se por detrás  a "Casa Grande" (séc.XVIII) construída pela família Fagundes. Foi, até 2005, Paços do Concelho.
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O Pelourinho de Pinhel é, sem dúvida alguma, o ex-libris da cidade. Ao estilo manuelino e do tipo "gaiola", apresenta coluna octogonal (o fuste não é ornamentado) assente em base quadrada e encimada por capitel também octogonal, sobre o qual assenta a gaiola. Esta é formada por oito colunelas decoradas com motivos vegetalistas estilizados. Até ao séc. XVII os pelourinhos eram popularmente conhecidos como picotas. Dizem os estudiosos da matéria que em alguns se fizeram execuções (até ao séc. XIV) ou expuseram à fúria popular criminosos. Depois passaram a ser vistos como símbolos da autonomia judicial do concelho para, finalmente, se tornarem símbolos da liberdade municipal.
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- A bonita praça fronteira aos Paços do Concelho (Largo Ministro Duarte Pacheco) com a Torre do Relógio (séc. XIX) e ao fundo as torres do Castelo.
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Não está na fotografia mas merece ser mencionado. Quando na Praça acima perguntei por um restaurante onde pudesse almoçar, logo me indicaram o ali próximo "Skylab". Confesso que com um nome destes, de snack americano... Bom, mas lá fui porque a hora já era tardia. Moral da história: almoçámos supinamente: entradas tradicionais e um excelente vinho da casa (terra de bons vinhos...) abriram caminho a uma excelente posta de vitela assada (e bem temperada) apresentada, originalmente, em tradicional tacho de barro e com todos os acompanhamentos. Sobremesas e cafés abriram caminho a uma módica conta (cá pelos nossos lados já não se come assim e muito menos por aquele preço... Serviço simpático a merecer uma nova visita que, porventura, jamais acontecerá, pois Portugal sendo pequenino ainda tem muito por descobrir.

07 setembro, 2013

INVASÕES FRANCESAS

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UMA PETIÇÃO DO POVO DE ALENQUER A BERESFORD, CONDE DE TRANCOSO, EM 1811
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- Beresford e Wellington (Gravura da Biblioteca Nacional).
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Estamos, seguramente, na segunda metade do ano de 1812 (ou até em data posterior...), isso nos permite inferir uma alusão, no texto, à Batalha de Salamanca, onde o destinatário desta petição, William Carr Beresford, que comandou pessoalmente o ataque da 3.ª Brigada Portuguesa, ficou gravemente ferido. No entanto, já com os franceses em definitivo fora do território nacional, os alenquerenses, tão duramente castigados pela  primeira e terceira invasão e que tanto haviam trabalhado para a construção dessa intransponível muralha defensiva, as "Linhas de Torres", continuavam a ser mobilizados para essa hercúlea tarefa que se prolongou para além das invasões, não fosse Napoleão lembrar-se, de novo, dos irredutíveis portugueses.
Esta é, assim, uma petição dirigida a esse «protector»  do Povo português, o Marechal-General Beresford, Conde Trancoso, depois Marquês de Campo Maior e Visconde de Beresford na sua Inglaterra, já que S. A. R. o Príncipe Regente D. João (futuro D. João VI) se encontrava com a Corte no Brasil. 
Este precioso documento do Arquivo Histórico Militar é, pois, um impressionante testemunho do sofrimento dos alenquerenses, das injustiças que sofreram e de que não eram merecedores, já que estiveram, em força, na linha da frente da construção dessas afamadas "Linhas". E qual foi a resposta que obtiveram? À margem do documento está o Despacho: «Sem resposta». A iniquidade, os privilégios de classe, o desprezo pelo sofrimento popular, não são, ao que parece, um atributo dos dias de hoje.Neste País, são um mal que vem de longe...

Illm.º [Ilustríssimo] e Ex.mº Sr. Marechal General Conde de Trancoso

Os Povos das quarenta e oito vintenas (1) de que compõem o termo e vila de Alenquer, fiados na justiça e benignidade do grande carácter  de que V. Ex.ª tem dado provas no alto emprego, que S. A. R o Príncipe Regente (2) foi servido confiar-lhe, vão, Ex.mº Sr. cheios do mais profundo acatamento levar à presença de V.ª Ex.ª esta respeitosa súplica.
Quando em 1809 se começaram a construir  as linhas de defesa de Alhandra e Torres Vedras [Linhas de Torres], foram os Povos de Alenquer os que mais se esmeraram em fornecer numerosos destacamentos para a feitura desta grande muralha da independência nacional. Os seus serviços tiveram uma recompensa digna do zelo e patriotismo com que foram prestados: Os Suplicantes [peticionários, requerentes] viram com prazer que toda a fúria dos exércitos franceses se quebraram nesta muralha da nossa liberdade; e estamos [convictos], por terem seguido o virtuoso exemplo de seus Avós, que sempre acudiram com presteza aos apertos da Monarquia. Trazem no coração o Ilustre General, que tirou tão sabiamente partido das vantagens do terreno.

- Como se vê, os de Alenquer dirigem-se ao ilustre militar - e depois Governador do Reino -elogiando-o e relevando o papel que eles, alenquerenses, desempenharam na construção das fortificações das Linhas de Torres, sentindo-se recompensados pelo papel determinante que estas desempenharam para a derrota do inimigo. Mas...

Todavia, Exm.º Sr., a devastadora invasão de 1810 apoucou os recursos dos Suplicantes: a guerra, a fome e as moléstias reduziram a mil e cem o número dos trabalhadores da vila e todo o seu termo; e os empregados públicos encontram a maior dificuldade em preencher os destacamentos que lhes são exigidos [para os trabalhos da] fortificação.
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 - Batalha do Vimeiro (gravura da Biblioteca Nacional).
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Estavam os Suplicantes esperançados em que os gloriosos feitos do exército Aliado reduziriam o número de requisições e dos requeridos: encheram-se de alegria quando viram que a memorável batalha de Salamanca, em que V.ª Ex.ª derramou o seu sangue em nossa defesa (penhor eterno de amor e fidelidade à pessoa de V.ª Ex.ª), arrojara os Franceses da Capital de Espanha para a extremidade das duas Castelas; mas a sorte individual dos Suplicantes não melhorou com este sucesso.
Um destacamento de trezentos homens é todos os quinze dias enviado do termo de Alenquer para trabalhar nas linhas de fortificação, empregam-se as medidas mais violentas para completar este número, chegando-se ao extremo de prender na cadeia pública as mulheres de muitos desgraçados que desamparam o seu seu país natal (3) e se retiram para as povoações vizinhas para se remirem de tamanho vexame; os que faltam por algum motivo legítimo são taxados arbitrariamente em mil e seiscentos e até dois mil réis para pagamento (como nos inculcaram) de quem por eles trabalha nas ditas fortificações.

- Com os franceses praticamente expulsos da Península, os trabalhos nas Linhas continuavam, e os alenquerenses, que tanto se haviam alegrado (e esperançado) com o insucesso napoleónico a partir da sua derrota em Salamanca, continuavam, também eles sujeitos a medidas violentas que os amarravam e subjugavam ao trabalho nas fortificações. A sua sorte não mudara...
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- Pormenor de uma gravura de Ribeiro Cristino mostrando a Real Fábrica de papel que logrou resistir às invasões.
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A Agricultura, Exm..º Sr., esta actividade fecunda da prosperidade pública e base mais sólida dos Impérios bem constituídos, foi a primeira que se ressentiu dos efeitos daquelas medidas. Um termo que tem mais de trinta léguas quadradas, não é possível cultivar-se só com oitocentos homens que ficam disponíveis da massa total da sua povoação. Alguns proprietários ricos e mais acreditados na corte, procuraram e obtiveram isenções e privilégios para os trabalhadores que amanhavam os seus prédios; mas estes privilégios agravaram o mal em vez de o remediar, porque redundaram todos em prejuízo da parte não privilegiada dos habitantes.
Seguiu-se daqui que muitos prédios não se cultivaram nem cultivam por falta de braços, e que os terrenos mais pingues [férteis] se convertem em baldios com grave dano do público e dos particulares, que não colhendo o fruto das suas terras mal podem satisfazer as contribuições e tributos destinados a manter a guerra.
Por outro lado Exm.º Sr., o miserável jornaleiro, que só tem o seu braço para sustentar-se, a si e à sua desditosa família, não pode preencher estes deveres sagrados com os mesquinhos dois tostões que se lhe pagam nas linhas e que apenas chegam para o seu diário passadio; e muito menos pode pagar todos os quinze dias o pesado tributo de dezasseis tostões ou dois mil réis a quem por ele desempenha aquela obrigação.
Os Suplicantes, tendo a honra de levar à presença de V. Ex.ª esta reverente súplica, protestam ao mesmo tempo que estão prontos a fazer todos os sacrifícios para a salvação da Pátria: mas eles sabem que os extremos só se devem exigir na extremidade (4); e graças ao valor das tropas Aliadas, e aos grandes Generais que as comandam, Portugal não se acha agora, nem provavelmente se achará mais nesse deplorável estado.
Além de que, todos os lugares e vilas comarcãs de Norte e Sul do Tejo, como Salvaterra, Benavente, Azambuja, Aveiras, Alcoentre, e outras muitas, não têm fornecido um só homem para trabalhar nas linhas; e se o bem que delas resulta, é um bem geral, não há motivo algum razoável para que os Suplicantes vivam oprimidos e seus vizinhos os não ajudem a suportar o peso do serviço público.
Tal é, Exm.º Sr., a singela e fiel narração do que padecem os Suplicantes há dois anos a esta parte; e só V,. Ex.ª é quem lhes pode dar o conveniente remédio: os Suplicantes assim o esperam com a maior confiança.

- Daqui ressalta, com clara evidência, o prejuízo para a Agricultura - principal actividade económica à época - ocasionado por estas mobilizações forçadas e já injustificadas, mal pagas, excessivamente punidas mesmo quando os incumpridores tinham motivo justificado. Por outro lado, os privilégios dos grandes proprietários que, ainda por cima, faziam recair sobre os restantes trabalhadores mais trabalho forçado, na medida em que diminuíam a base de recrutamento. De notar ainda a situação de excepção (negativa) dos habitantes de Alenquer em relação aos habitantes dos concelhos vizinhos isentos deste trabalho. Como se não bastara terem sofrido mais do que outros as agruras da invasão por viverem à beira das Linhas, mas fora delas, ainda tiveram que suportar por largo tempo esta discriminação.
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E. R. M.
(seguem-se 25 assinaturas em duas páginas, reproduzindo-se a primeira delas)

(1) Vintena - Antiga divisão administrativa já referenciada nas Ordenações Afonsinas e extinta com o Liberalismo. Correspondia a 20 vizinhos (chefes de família) agrupados numa "Cabeça", lugar ou aldeia.
(2) S. A. R. O Príncipe Regente - Sua Alteza Real o Príncipe Regente (D. João, futuro D. João VI).
(3) seu país natal - Curioso que ainda se utilizasse esta expressão para definir "terra natal", no caso Alenquer.
(4) os extremos só se devem exigir na extremidade - Interpreto como: os grandes sacrifícios só se devem exigir em tempos extremamente difíceis.

Fonte: PT AHM/DIV/1/14/186/29.

Nota: O texto foi por mim adaptado ao português actual no grafismo de algumas palavras, na pontuação e em raros casos na construção de frases.
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 O primeiro signatário deste documento, Gonçalo Manuel Peixoto, era primo de D. Miguel Pereira Forjaz, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Guerra, mas, nem por isso, a petição viria a ter melhor acolhimento. Tomámos conhecimento desta relação de parentesco ao consultar um outro documento em que Gonçalo Peixoto se dirige ao seu "primo", em resposta a uma missiva desse abordando uma questão sobre solípedes.Talvez esse parentesco justifique ter sido ele o primeiro a assinar...

31 agosto, 2013

DEAMBULAÇÕES ESTIVAIS III

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BELMONTE - TERRA DE CABRAL... E NÃO SÓ!
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Belmonte é uma pequena mas bonita vila do Distrito de Castelo Branco. Nela habitam 3100 pessoas e é sede de concelho com 4 freguesias. Não fugindo ao que aconteceu ao nosso interior, o seu concelho que já registou 9109 Habitantes (1960) está hoje reduzido a 6.589 (2011). Com o concelho da Guarda a norte, o do Sabugal a leste, o do Fundão a sueste e o da Covilhã a sueste, fica a dois passos da A-23 e no caminho de quem procura a Serra da Estrela por Manteigas.
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Este é também um concelho com muita História, sendo Belmonte a terra natal de Pedro Álvares Cabral, sua figura tutelar. Ao visitante aconselha-se que dê «corda aos sapatos e suba ao ponto mais alto da vila onde se ergue o seu castelo «altaneiro»


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«A construção do Castelo data do século XIII. Em 1258 D. AfonsoIII autoriza D. Egas Fafe a construir uma Torre no Castelo de Belmonte, no entanto, no local, onde se ergue o Castelo, haveria já um sistema defensivo, posto a descoberto com as escavações arqueológicas realizadas no monumento, cuja construção estaria relacionada com as necessidades de repovoamento e de afirmação do poder  real de D. Sancho I na região.
D. Afonso V em 1466 doa o Castelo a Fernão Cabral I, tornando-se a residência da família Cabral. As várias transformações efectuadas são visíveis no pano da muralha oeste, com a construção de várias janelas panorâmicas. Destaca-se uma janela estilo manuelino, da primeira metade do século XVI, encimada por brasão composto por duas cabras (Cabrais) e seis ruelas (Castros), simbolizando a união de João Cabral Fernandes com D. Joana Coutinho de Castro.
Actualmente o edifício tem funções turísticas e culturais, tendo sido construído um anfiteatro ao ar livre e a Torre de Menagem e Sala Oitocentista adaptadas a espaços museológicos dedicados à história do Concelho e do castelo.»
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As alturas do castelo são excelentes para espreitar a vila e as terras envolventes que se estentendem até aos contrafortes da Serra. Junto ao Castelo situa-se a Igreja de Santiago e o Panteão dos Cabrais, assim como as pequeninas capelas de Santo António e do Calvário.
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Do Castelo pode o visitante descer a Judiaria, ali bem próximo e, se tiver sorte, como eu tive, visitar a Sinagoga.
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Quando me aproximei da sinagoga reparei que a porta estava aberta. Entrei cautelosamente, não fosse abusiva a minha presença. Logo encontrei um membro da comunidade judaica local que me disse estar ali porque aguardava a chegada de dois grupos de visitantes, daí a a sinagoga estar aberta. Enquanto esses não chegavam fomos conversando, uma conversa interessante que me ajudou a entender melhor aquela religião. Fiquei ainda a saber que sendo a comunidade pequena, cerca de 130 elementos, entre homens, mulheres e crianças, as preocupações quanto à sua sobrevivência são muitas, pois a situação de crise que o País vive está a levar os seus jovens para Israel. Entretanto chegou o primeiro grupo de visitantes e foi entre muitos e simpáticos «shalom» que me retirei para continuar a minha vista a Belmonte, mais precisamente ao bonito, moderno e elucidativo "Museu Judaico".
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Para terminar, resta dizer que é evidente o investimento deste município no turismo cultural, pois além do já citado "Museu Judaico", a vila tem, ainda, para oferecer ao visitante mais dois Museus: O "Museu dos Descobrimentos" instalado no antigo Solar dos Cabrais (Casa dos Condes), um Centro Interpretativo da Descoberta do Novo Mundo definido como «um novo pólo cultural e social englobando diferentes serviços de apoio: o centro de documentação, a cafetaria, o arquivo, etc. (...) um projecto interactivo, de sensações e de afectos que levará o visitante numa viagem de 500 anos de história da construção de um País e da sua portugalidade».
Atravessando a estrada e próximo dos Paços do Concelho, situa-se o "Ecomuseu do Zêzere" instalado num edifício antigo (séc. XVIII) conhecido como "Tulha dos Cabrais", celeiro onde eram armazenadas as rendas em espécie da família Cabral. Este é «um museu com função didáctica e pedagógica, onde se pode estudar o percurso do rio Zêzere, desde a sua nascente à foz, assim como a sua fauna e flora».
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Mas a oferta cultural destas terras de Belmonte não se esgota no que já se disse, pois nas suas imediações poderemos ainda encontrar ou visitar o "Museu do Azeite" no Sítio do Chafariz Pequeno, a Villa romana da Fórnea na Estrada Municipal Belmonte/Caria, a "Casa Etnográfica de Caria" na localidade com o mesmo nome e essa bela e singular construção, a torre "Centum Cellas", também conhecida por "Torre de São Cornélio", na freguesia de Colmeal da Torre, que tantas teorias e lendas tem gerado no que respeita ao que efectivamente teria sido.

25 agosto, 2013

PAPÉIS VELHOS

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UM ALENQUERENSE ILUSTRE NUM DOCUMENTO AUTÓGRAFO DO CAPITÃO-DE-MAR-E-GUERRA ANTÓNIO MARQUES ESPARTEIRO
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Quis o acaso que, ao passar os olhos sobre os títulos de uns livros e de uns papéis antigos que iam a leilão, me deparasse com o nome de José Maria Dantas Pereira de Andrade (1772-1836), um alenquerense ilustre cuja vida já aqui trouxemos. Assina essas duas páginas dactilografadas que na ocasião licitámos, António Marques Esparteiro, também ele marinheiro ilustre.
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- Capaitão-de-Mar-e-Guerra António Marques Esparteiro
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António Marques Esparteiro nasceu em Engarnais Cimeiros, Mouriscas, Abrantes, no dia 21 de Outubro de 1898. Frequentou o Curso da Escola Naval, tirou o Curso de Artilharia no "Royal Naval College de Greenwich" e na "Gunnery School" de Portsmouth, Inglaterra e o Curso Naval de Guerra.
Ao longo da sua carreira foi director da "Escola de Alunos Marinheiros" (1927) e dos "Serviços Marítimos. Foi comandante do torpedeiro "Lis", do vapor "Lidador" e do aviso "Afonso de Albuquerque". Pertenceu à "Missão Naval de Fiscalização dos Avisos de 1.ª Classe" construídos na Grã-Bretanha e Irlanda. Comandou, ainda, a Defesa Marítima do Porto de Leixões e Barra do Douro (1943) e, interinamente as "Forças Navais do Estado da Índia".
Historiador e colaborador da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, com a sua assinatura foram publicados 23 trabalhos e livros versando o tema marinha. Em reconhecimento do seu valor recebeu as condecorações de Comendador e Grande-Oficial da Ordem Militar de Avis, Medalha de Ouro de Comportamento Exemplar, Medalha de 1.ª Classe de Mérito Militar e a Medalha Comemorativa das Campanhas do Exército Português na Índia. Passou à reserva como "capitão-de-mar-e-guerra" em 21 de Outubro de 1958. Faleceu em 1976. O seu escrito que adquirimos e iremos transcrever tem a data de Lisboa 4-10-54.

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JOSÉ MARIA DANTAS PEREIRA DE ANDRADE

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«Filho do porta bandeira graduado do Corpo de engenheiros Vitorino António Dantas Pereira e de D. Quitéria Margarida de Andrade, nasceu na vila de Alenquer em 1-10-1772.
Sendo discípulo da Real Academia da Marinha pelo indulto dos seus estudos na conformidade do decreto de 14 de Dezembro de 1782.
Assentou praça de aspirante guarda marinha por aviso de Sua Magestade expedido por Martinho de Mello e Castro Ministro e Secretário do Estado da Repartição da Marinha de 10 de Setembro de 1788, em consequência da proposta do Comandante da Companhia de guardas marinhas o Conde de San Vicente [Miguel Carlos da Cunha Silveira e Lorena - 7.º Conde], nesse tempo marechal de campo com exercício na Marinha.
Passou a guarda marinha por outro semelhante aviso do mesmo Ministro d'Estado de 18 de Janeiro de 1789, e de igual proposta do mesmo comandante.

Passou a primeiro tenente por decreto de 17 de Dezembro de 1789. N.B. Esta patente teve a condição de ficar conservado na Companhia e Academia dos guardas marinhas.
Foi provido em chefe da terceira Brigada por aviso semelhante aos de cima de 11 de Janeiro de 1790, e de igual proposta.
Foi nomeado lente de matemática dos guardas marinhas com soldo que vencia de tenente do mar com exercício de Chefe de Brigada, por igual ordem de Sua Magestade expedida também em aviso do mesmo Ministro e Secretário d'Estado Martinho de Mello e Castro de 16 de Outubro de 1790.
Passou-se-lhe Carta de lente de Matemática dos guardas marinhas com o competente soldo de 400$000 por ano, em virtude do decreto de 18 de Julho de 1795.
Passou a capitão tenente, conservando o sobredito exercício de lente de Matemática, por decreto de 20 de Outubro de 1796.
Passou a capitão de fragata, conservando o mencionado exercício de lente de Matemática, por decreto de 11 de Maio de 1797.
Passou a capitão de mar e guerra, ficando com o exercício das patentes antecedentes, por decreto de 12 de Janeiro de 1801.
Por aviso de 21 de Junho de 1801 expedido por D. Rodrigo de Sousa Coutinho, Ministro e secretário d'Estado da Repartição da Marinha, foi nomeado comandante e secretário de guardas marinhas.
Em 27 de Outubro de 1807 embarcou com a dita Companhia na nau "Conde D. Henrique" que pertencia à esquadra em que passou o Princípe Regente Nosso Senhor, e mais Família Real à América em 29 de Novembro do mesmo ano.
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- O Tejo em Lisboa, à época (Gravura da Biblioteca Nacional).
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Passou a chefe de divisão por decreto de 8 de Março de 1808.
Passou a chefe de esquadra graduado em 15 de Novembro de 1817, aceitando-se-lhe a demissão de comandante de guarda marinhas.
Passou a chefe de esquadra efectivo a 13 de Maio de 1819.
II
Durante o regime constitucional de 1820 e 1823 foi nomeado Conselheiro d'Estado.
Em 1798 foi membro da efémera Sociedade Real Marítima, e era desde 1793 correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa. Promovido depois a sócio efectivo, e eleito secretário em 1823, serviu como tal até 1833.
Foi também membro da Sociedade Filosófica, nomeado em 1827.
A sua obra científica e literária é muito vasta. No dizer dum seu biógrafo foi "sem dúvida o mais brilhante oficial que tem dado a Marinha de Portugal".
Mostrou-se adverso ao regime liberal, pelo que houve de emigrar em 1834 para Inglaterra e França.
Faleceu em Montpellier a 22 de Outubro de 1836.
      
      Lisboa 4-10-54                                                              Antº M. Esparteiro »

Nota: Teria este escrito biográfico chegado a ser publicado, eventualmente em algum Dicionário ou Enciclopédia (dadas as suas características)? É nossa intenção averiguá-lo.