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O Real Celleiro de Alenquer nasceu nos tempos que se seguiram às Invasões Francesas, destinado a apoiar as populações da vila e do concelho no seu regresso aos campos devastados por essa tremenda catástrofe que foi a presença das tropas ocupantes de Junot e de Massena, principalmente as deste último, naquela que seria a derradeira tentativa de Napoleão para submeter o reino de Portugal aos seus desígnios.
Tendo Napoleão declarado guerra ao nosso País no Outono de 1807, o marechal Junot, à frente do exército da Gironda, entrou em território nacional em meados de Novembro desse ano, após haver proclamado à Nação portuguesa o carácter pacífico da sua intervenção. A 20 desse mesmo mês já estava em Castelo Branco e, tendo entrado em Lisboa a 30, calcula-se que tivesse atravessado o nosso concelho a 26, desconhecendo-se se passou ou não pela vila de Alenquer. Todavia, ficando a nossa vila próxima da estrada que, já então, conduzia à capital, é bem provável que dadas as suas dificuldades em abastecer as tropas em marcha, não tivesse desperdiçado essa oportunidade que se lhe oferecia, para procurar em Alenquer alimentos que lhe faltavam.
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- Junot entra em Lisboa (gravura da Biblioteca Nacional)
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São conhecidos vários relatos da época sobre a entrada deste exército andrajoso, doente e esfaimado na capital lisboeta. O seu estado lastimável colocava-o à mercê de qualquer outro exército minimamente armado e equipado, disposto a fazer-lhe frente. Mas tal não aconteceu, talvez porque o País ainda não se recompusera da apressada e dramática saída da família real para a colónia brasileira, talvez porque no seio das elites culturais e políticas portuguesas ainda reinavam muitas ilusões quanto aos verdadeiros desígnios deste exército, o qual, ainda se lhes afigurava como depositário dos ideiais nobres da Revolução Francesa.
Mas esse estado de indefinição, diremos mesmo, de quase simpatia pelo invasor, em breve se desvaneceria face às arbitrariedades e brutalidades da tropa francesa. Ultrapassado o estado de fadiga pela longa marcha efectuada, Junot distribui as várias unidades do seu exército pelas imediações de Lisboa, sob as ordens dos generais Charlot, Thomiéres e Loison, este último o célebre, pelas piores razões, «Maneta». Quem ia para o «Maneta», já não voltava...
É conhecido que, no dia 8 de Dezembro, Loison reuniu em Torres Vedras os corregedores das comarcas de Alenquer, Ribatejo, Alcobaça e Leiria, para com eles determinar o abastecimento das suas tropas, sendo consideradas «excessivas» as requisições então delineadas. Começava aqui a devastação dos campos desta rica província da Estremadura, capaz, só por si, de alimentar um Exército, como o referiu M. du Mourier, citado por José Cornide em "Estado de Portugal en el año de 1800": «A Estremadura portuguesa, foi em todas as guerras o principal objecto das armas espanholas. Esta fértil província pode contribuir com abundância para a subsistência de um exército que morreria de fome em as outras do reino(...)»
Seria, já então, este viajante francês um espião, na perspectiva de futuras acções bélicas? É que ele acrescentaria ainda: «(...) o Tejo possibilita um cómodo transporte até Lisboa (...) o planalto de Santarém e as alturas de Alenquer cobrem Lisboa e nelas se pode fazer uma guerra de postos muito sangrenta». Felizmente para a nossa vila, os piores vaticínios aqui anunciados, não se concretizariam...
Mas, não duraria muito esta primeira presença das tropas francesas em Portugal. Tendo desembarcado o exército inglês na Figueira da Foz, em breve a ele se juntaram combatentes portugueses dispostos a enfrentar o invasor. Avançando estas tropas na direcção de Lisboa, depararam-se com os batalhões de Thomiéres ocupando as alturas da Roliça e da Columbeira, ferindo-se aí, na manhã do dia 17 de Agosto de 1808, a primeira batalha, cuja sorte sorriu aos aliados, fixando-se na noite desse mesmo dia 17 Sir Arthur Wellesley em Vila Verde dos Francos.Os restantes corpos de exército franceses ainda intentaram apoiar Thomiéres na Roliça, avançando Delaborde pela estrada real até Alcoentre, derivando daí para os lados da Lourinhã, isto, enquanto Loison avançava para Santarém e Torres Novas, zona estratégica para uma marcha sobre Lisboa seguindo a linha do Tejo. Todavia, estas movimentações em nada contribuíram para o desfecho da batalha da Roliça, daí que Loison tenha recuado com o seu corpo de exército para a Ota, aonde se lhe juntaria Junot que, entretanto, havia abandonado Lisboa. Em marcha forçada, Junot avançaria ainda da Ota para Torres Vedras e, passados quatro dias lutaria no Vimeiro para de novo sair derrotado, vindo a abandonar o País depois da celebração da Convenção de Gramido, acto diplomático ainda hoje difícil de entender, por dar tantas vantagens a um exército derrotado.
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- Batalha do Vimeiro (Gravura da Biblioteca Nacional)
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Afastados os franceses do território nacional, duas tarefas urgentes se impuseram aos aliados: Uma, a reorganização do exército português, outra, a edificação de linhas defensivas que colocassem Lisboa a salvo de uma nova invasão. Ambas viriam a ser coroadas de êxito, mas a segunda, traria aos alenquerenses (e não só...) novos e pesados sacrifícios.
Diz o historiador alenquerense, Guilherme João Carlos Henriques que «nos primeiros dias do mês de Novembro de 1809 deu-se começo aos trabalhos das fortificações; mas em 8 de Janeiro do ano seguinte foi que mais activamente se empreenderam. Os paisanos foram para estes trabalhos requisitados dos distritos [concelhos] limítrofes, nos quais entravam Alenquer e Aldeia Galega da Merceana, e por intervenção dos capitães-mores. Os trabalhadores que trabalhavam em uma semana eram substituídos por outros na seguinte; só os milicianos eram permanentes. (...) Em Agosto de 1810 nas fortificações de Alhandra se achavam 2.500 homens empregados em um só corpo, e nas de Torres Vedras, para onde caminhariam os de Aldeia Galega, andavam 900 homens. Como os recursos da vila de Alhandra não eram suficientes para alimentar um tão avultado número de homens empregados no seu distrito, forçoso foi fazerem-se requisições para as terras vizinhas afim de se alcançar diariamente o pão preciso que era distribuído aos trabalhadores na razão de um arrátel por cabeça, e o seu valor descontado na féria do fim de semana. Ao fechar o Inverno de 1810-11, os recursos desta parte do país ficaram exaustos, e a ração teve de ser substituída por uma bolacha fornecida pelo comissariado inglês, e paga na razão de 60 réis por cabeça».
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- Gravura da época mostrando um trecho das Linhas
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Luz Soriano, que nos deixou escrita muita informação sobre esta matéria, revela-nos que as requisições para os trabalhadores «estenderam-se a uma distância para mais de dezasseis léguas em circunferência. Não foi permitido a pessoa alguma, por qualquer pretexto que fosse, subtrair-se individualmente ao serviço; as mesmas mulheres e os rapazes foram empregados nestes trabalhos, e não obstante haver posteriormente chegado a época da ceifa e das colheitas, os trabalhadores das linhas marcharam sempre para onde necessário foi».
Não todos, porque em Alenquer, pessoal dirigente e operários da Real Fábrica de Papel estavam isentos deste contributo e também da prestação de qualquer serviço militar. Enorme privilégio, porventura justificado pelo facto desta fábrica ser, então, a mais importante do seu ramo a laborar em Portugal, daí que não seja de admirar que, em tempos tão difíceis, tenha havido quem se encostasse a ele para fugir à mobilização que as tarefas militares exigiam.
Daí que em 1810, em data próxima da do início da terceira invasão, D. Miguel Pereira Forjaz, Secretário de Estado da Marinha e da Guerra, tenha oficiado a direcção da fábrica, pretendendo explicações e «uma relação nominal dos empregados da Real Fábrica de papel».
Visivelmente agastado, é Gonçalo Castelo-Branco, director do estabelecimento fabril, quem lhe responde: «Em virtude da insinuação com que V. Ex.ª me honrou, mandei imediatamente tirar certidão de matrícula dos empregados da Real Fábrica de Papel de Alemquer com a precisa distinção dos que se empregavam naquela manufactura e com dos que se empregavam na construção do edifício (...) a Direcção tem sempre procedido com toda a circunspecção relativamente aos privilégios que S.A.R. houve por bem conceder àquele importante Estabelecimento tão necessário ao Estado como útil à Nação (...)».
Este curioso episódio é, afinal, bem revelador da gravidade do momento e dos sacrifícios exigidos, os quais permitiram que tão hercúleas tarefas militares tenham sido coroadas de sucesso.
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- Mapa militar das Linhas de Torres e posicionamento dos dois exércitos em confronto.
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O tempo urgia. Logo no início de 1810 Napoleão proclamava a sua intenção de reunir na fronteira portuguesa um exército de 110.000 homens com que expulsaria os ingleses da Península Ibérica. Daí à acção mediou pouco tempo, pois em Junho desse ano um exército de 80.000, comandado pelo seu «filho querido da vitória», o Marechal Massena, atravessou a fronteira entrando em Portugal pela Beira Baixa.
Depois da capitulação da praça forte de Almeida, o exército de Massena avança sobre o Buçaco onde o aguardavam as tropas anglo-portuguesas de Wellington que, antes disso, havia decretado uma política de terra queimada:
«os habitantes das vilas e lugares hão universalmente abandonado as suas moradas, levando consigo tudo quanto podem transportar, e que poderia ser útil ao inimigo» (Ofício de Wellington de 5 de Outubro de 1810).
Foram, assim, destruídas e incendiadas as culturas e os celeiros, os palheiros e os estábulos desocupados, o gado abatido ou requisitado, tendo havido castigos exemplares para os habitantes considerados traidores por não cumprirem ou mostrarem oposição a estas ordens, com recurso às penas de enforcamento e fuzilamento.
Daí que, à frente do exército invasor, caminhassem milhares de desgraçados camponeses, sem abrigo nem alimentos, procurando colocarem-se a salvo do inimigo enfurecido por não encontrar sustento para as suas tropas, intentando alcançarem refúgio atrás das linhas defensivas.
Ferida a batalha do Buçaco com sucesso para os aliados, o exército francês reagrupa-se ganhando a estrada que levava de Coimbra ao Porto. Enquanto isso, os anglo-lusos retiram-se para as Linhas de Torres, perseguidos, em breve, pelos napoleónicos.
No dia 9 de Outubro entra em Alenquer a Brigada portuguesa comandada por Sir Denis Pack, composta por Infanteria 1 e 16 e Caçadores 1, 3 e 4 num total de 3.792 homens, a qual seria, aqui, alcançada pelo corpo de exército francês às ordens do Gen. Montebrun:
«Contou-me por vezes o Marechal Duque de Saldanha, meu excelente padrinho, de saudosa memória, comandante, então, de Infanteria 1, que se recordava perfeitamente de estar no Largo do Espírito Santo, lavando as mãos em uma bacia que o ordenança segurava, quando os piquetes recolheram, batendo-se com os franceses que começavam já a descer as encostas em frente da vila. Travou-se combate para proteger a retirada do grosso da força, havendo, segundo a estatística oficial, dois soldados feridos e dois extraviados» - (Guilherme João Carlos Henriques).
Recolhidas as tropas aliadas às Linhas de Torres, são estas alcançadas por Massena no dia 12. É então que Massena fixa o seu quartel-general em Alenquer, enquanto o seu oitavo corpo avançava quanto podia em direcção ao Sobral, o sexto alojava a sua 1.ª Divisão em Vila Nova da Rainha e a 2.ª em Ota, onde o Marechal Ney que a comandava estabeleceu quartel-general, e, a 3.ª ,no Moinho do Cubo, fixando-se o segundo corpo de exército à direita do Carregado.
Por trinta dias estiveram as forças francesas no concelho de Alenquer, enquanto Massena testava as Linhas de Torres, para vir a concluir que não tinha homens suficientes para as ultrapassar. Decide então, a 14 de Novembro, retirar-se, dispondo as suas tropas à volta de Santarém, esperando reforços que nunca chegariam. São mais de 4 meses de espera, após o que decide sair do País, por Coimbra e Almeida, em direcção a Espanha. A 17 de Abril de 1811 os franceses deixavam definitivamente Portugal.
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Que custos tiveram para o País e para as populações esta presença do exército invasor de Massena no nosso país, região e concelho? Custos elevadíssimos: a destruição das culturas de cereais e leguminosas, dos pomares e das vinhas. Foram arrancados olivais para queimar e construir abatizes (obstáculos militares), foram destruídos os equipamentos de transformação e produção agrícola, como lagares, moinhos e arados. No que respeita à silvicultura, cortaram-se pinhais e soutos e a pecuária sofreu um forte revés com o abate do gado para alimentação das tropas e para prover as necessidades de transporte dessas mesmas tropas.
Segundo o General Koch, nas Memórias de Massena: «Havia metade do exército numa correria para alimentar a outra metade». Os regimentos tinham os seus próprios fornos, moinhos e depósitos (desmontados e roubados) a par de destacamentos armados que batiam a área da sua responsabilidade até quatro dias de marcha.
Enquanto os franceses se mantiveram à volta de Santarém, as populações de Alenquer e seu concelho não arriscavam em regressar ás suas casas, mantendo-se atrás das Linhas onde se haviam refugiado, ou acoitadas nos ermos e serranias onde dificilmente os franceses as encontrariam, mas, também, onde sobreviviam com muita dificuldade, alimentando-se, quantas vezes de ervas e raízes. Também durante esse período, muitos foram os que continuaram trabalhando no aperfeiçoamento das defesas militares que davam corpo às Linhas de Torres.
E quando regressaram, o que encontraram foi as suas casas saqueadas e destruídas, assim como os armazéns, os fornos, os lagares, os moinhos, os barcos, as oficinas e as fábricas. Como se isso não bastasse, um outro flagelo herdaram dos franceses em retirada: uma epidemia de tifo, fruto das condições higienicamente deploráveis em que as tropas haviam permanecido aboletadas, sendo as casas, telheiros, poços, outros tantos focos infecciosos.
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Como enfrentar todo este estado deplorável de coisas? Algumas medidas foram tomadas de imediato, entre elas, as que visaram acudir à vila de Alenquer e ao seu concelho, que, por se situarem às portas muito sofreram com a presença das tropas invasores. Por exemplo, na nossa vila, há notícia do incêndio do convento das freiras clarissas, da vandalização das Casas da Câmara e de outros edifícios públicos, danos de monta no Convento de S. Francisco, vandalização e saque das residências particulares, etc.
Mas, como sempre aconteceu e acontece em situações de invasão e de guerra «também Alenquer foi vítima de outra espécie de roubos. Os ladrões moradores nas terras invadidas, deixavam-se ficar para roubar concidadãos, fazendo depois conduzir os roubos para Lisboa, para não os terem de restituir aos seus donos. Para evitar isto o intendente ordenou que fossem revistadas as cargas ás barreiras da cidade, e s portadores suspeitos conduzidos à presença dos ministros para se fazer o necessário exame. Em Alenquer e outras povoações, os roubos não eram só feitos pelos que se deixavam ficar com o inimigo; mas também por outros que, tendo-se recolhido às linhas, tornavam a sair para se entregarem ao roubo. Terras houve onde metade dos habitantes roubava a outra metade, durante este estado de coisas ainda depois da saída dos franceses» (- em Guilherme João Carlos Henriques).Foi, pois, uma Alenquer devastada que os seus moradores encontraram no regresso às suas casas ou ao que delas restava, considerando-se que, apesar de tudo, o mal não havia sido maior porque foi aqui, na nossa vila, que o Marechal Massena teve os seus feridos em tratamento, enquanto durou o cerco às Linhas.
Dizíamos que algumas medidas foram tomadas de imediato e, uma delas, foram as ordens emitidas em nome do Princípe Regente, mandando o Administrador Geral do Real Erário, o Conde de Redondo, ele próprio Governador do Reino, para dispor das quantias recebidas pelo contratador das «Jugadas de Pão e Oitavos dos Vinhos (impostos, então cobrados e arrecadados pela Coroa) e mais Direitos Reais da vila de Alenquer, para pagar as obras de reparação dos edifícios públicos - Casa da Câmara, Casa do Tribunal, Cadeia e habitação do carcereiro - da dita vila» de Alenquer.
Já em 1812, lutando os lavradores com falta de sementes, a Regência mandou a alguns concelhos donativos de cereais e de ferro para as alfaias agrícolas, pagos em parte pelos cofres públicos e em parte por um donativo do governo inglês, recebendo deste último o hospital de Aldeia Galega 400:000 réis e o termo de Vila Verde dos Francos 112:000 destinados, principalmente para os órfãos.
Mas a grande preocupação do Princípe Regente e da Junta governativa, continuava a ser o estado da nossa agricultura e das nossas fábricas, cuja recuperação se afigurava como essencial para que a vida no País pudesse regressar à normalidade, pelo que, medidas importantes não se fizeram esperar.
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Esta placa que, ainda hoje, se encontra sobre a porta principal do edifício que foi do Real Celleiro e que deu o mote para as celebrações do seu segundo centenário ainda há pouco realizadas pela nossa autarquia, remete a sua criação para a "Carta Régia de 26 de Julho de 1811" o que, sem ser mentira não é inteiramente verdade. Vejamos:
Nesta "Carta Régia", o Princípe Regente D. João consigna as rendas das Alfândegas da Baía, de Pernambuco e do Maranhão, para socorro aos seus vassalos habitantes das áreas que mais tinham sofrido com as invasões francesas:
«Tenho resolvido consignar, em cada ano, e por espaço de quarenta anos, a quantia de cento e vinte mil cruzados, que serão deduzidos das rendas das Alfândegas, e na sua falta de outras quaisquer (...) para serem única e privativamente empregadas em benefício dos Meus Vassalos, que sofreram tão horrível ruína, já edificando-se-lhes suas casas, já dando-se-lhes os instrumentos, sementes, e gados, necessários para continuação, de suas lavouras, já restabelecendo-se-lhes as Fábricas, e Casas das Povoações, e Cidades devastadas». Este auxílio destinava-se também, como o refere a citada Carta, «às interessantes Fábricas de Alenquer, de Tomar e de Alcobaça».
Esta referência às fábricas, particularmente à de papel de Alenquer, não deixa de ser interessante. Teria, de facto, esta fábrica sido atingida na sua normal laboração, pelas tropas francesas que tantos prejuízos causaram à nossa vila?
Segundo Borges de Macedo «Em fins de 1813 foram dadas instruções gerais sobre o recomeço das actividades fabris. A fábrica de Alenquer, o filatório de Tomar, as fábricas de chitas e algodão de Alcobaça e Azeitão, os lanifícios de Covilhã e Portalegre, recebem em ofício essas expressas indicações, porquanto não recomeçavam por si ou trabalhavam em baixo rendimento».
Já no denominado «Mappa geral estatístico que representa as fábricas do reino no estado em que existiam nos primeiros tempos depois da última invasão franceza», a fábrica de Alenquer, segundo informação e mapa do Corregedor da Comarca, de 18 de Fevereiro de 1813, é assim tratada: «Vila de Alenquer - De Gerardo Venceslau Braamcamp e Sócios - Progressiva».
Daqui se conclui que, pelo menos, foi fácil e rápida a sua recuperação. Menos rápida, seria a construção do edifício do Real Celleiro, pois o disposto, genericamente, na «Carta Régia de 1811» só ganharia consistência com a publicação da «Portaria de 25 de Janeiro de 1812» esta sim, uma provisão governamental para a construção de Celeiros. Com ela, nascem os Celeiros de Alcobaça, Alenquer, Castelo Branco, Castanheira (do Ribatejo) e de Torres Novas. Outros mais estiveram previstos, como os de Leiria, Santarém, Santarém, Golegã, Ourém, Tomar, Torres Vedras, etc., mas perderam-se os fundos atribuídos, pelo que essa intenção não passaria do papel.
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Mas que instituição era esta, a dos Celeiros? Segundo Laura Larcher Graça, no seu estudo "Propriedade e Agricultura: Evolução do modelo dominante de sindicalismo agrário em Portugal", «No ano de 1576 foi criado em Évora o primeiro Celeiro Comum, a mais antiga associação de crédito agrícola em Portugal».
Estas instituições teriam vindo reforçar o auxílio pelo crédito que já se praticava em Portugal desde o fim do século XV, por intermédio das Confrarias e das Misericórdias. Ainda, segundo a autora citada, o Celeiro de Évora que inicialmente se designou Monte da Piedade - o Monte era o fundo de cereal recolhido e a Piedade referia-se à generosidade das doações, daqui, desta designação, a evolução para a de Montepio - depois, Real Depósito, Celeiro e, por último, Celeiro Comum, teria sido «instituído em 1576, por D. Sebastião, a instâncias de seu tio, o Cardeal D. Henrique. (...) O Fundo originário do celeiro parece ter sido em parte constituído pela colecta de 30 alqueires de trigo em cada herdade do termo da cidade - metade pago pelo senhorio, metade pelo lavrador - e no restante mandado emprestar, pelo Rei, do cofre de órfãos da cidade. Consta ainda, que este fundo se elevou no mesmo ano ao dobro do inicial, por reforço do empréstimo, a que se juntaram esmolas em trigo do Cardeal, do Cabido e dos cónegos da cidade. O Rei concorreu ainda com receitas de multas de condenações da alçada, para a construção do edifício».
Ainda neste século são fundados mais dois Celeiros, um em Grândola e outro em Beja, para no século seguinte surgirem mais onze Celeiros, também todos eles no Alentejo. No séc. XVIII, prossegue este movimento, e, se a maioria dos 21 novos Celeiros identificados se situava no Alentejo, também os houve em Faro, Ponta Delgada e Bragança. Todavia, aconteceu uma inovação: a maioria deles ficou-se a dever à iniciativa privada que, neste tipo de instituição acabou por ver um bom veículo para o negócio. Para isso, em termos médios, cobrava o dobro do juro do que era cobrado pelas instituições tradicionais com fins meramente de auxílio. No século XIX, e até à Revolução Liberal, continuaram a surgir Celeiros, e, à excepção do de Mértola, todos nasceram fora do Alentejo, neles se incluindo os já citados, em consequência das invasões.
Regressando ao primeiro Celeiro, o de Évora, ainda segundo Laura Larcher, refira-se que «foram administrados inicialmente por uma Junta constituída por três personalidades: o Corregedor da Comarca como representante do Rei, um Cónego como representando o Clero, o Vereador mais velho da Comarca como representante do Povo. Depois da Restauração a administração passou integralmente para a Câmara Municipal». Este modelo de administração manter-se-ia, tendencionalmente, por longo tempo e na maioria das instituições. Mesmo no Real Celleiro de Alenquer, analisando a composição das Juntas administrativas, encontramos largos vestígios deste modelo.
Como funcionavam estas instituições? Criado um fundo inicial de cereal, os lavradores levantavam dele o necessário para as sementeiras, ficando obrigados a pagar, em espécie, um determinado juro que rondava os 4%. Não lhes eram exigidas outras garantias, senão um termo de fiança. Deste modo o fundo inicial de cereal ia-se renovando e mantendo.
A Revolução Liberal e a Guerra Civil que se lhe seguiu acabou por ser fatal para quase todas estas instituições, em consequência dos abusos então cometidos. A evolução da nossa economia com o aparecimento das instituições bancárias, também contribuiria para o seu desaparecimento. O Celeiro de Alenquer, como veremos, acabou por ser um caso raro de longevidade.
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A «Portaria de 25 de Janeiro de 1812» foi, então, determinante para a aparecimento do Real Celleiro de Alenquer. Esta norma legal foi transcrita para um dos livros que repousa no Fundo desta instituição no Arquivo Histórico de Alenquer, e, da sua leitura, conclui-se que, a instituição deveria de imediato funcionar, não podendo, de modo algum, ficar à espera da construção do edifício que a deveria acolher, pelo que, estando envolvidos no processo os homens ligados ao privilégio do tabaco, os armazéns deste comércio seriam inicialmente utilizados para a recolha do fundo de cereais (trigo, cevada e milho). Isso deveria ter acontecido em Alenquer, onde também foram utilizadas salas do Convento de S. Francisco, arrendadas aos frades daquele Convento para esse efeito.
O edifício que hoje conhecemos, esse só deveria ter ficado construído em finais de 1813, princípios de 1814. Daí a meados do século, tudo indica que a instituição terá tido uma vida normal, funcionando de acordo com os seus fins, ideia reforçada pela consulta ao seu espólio, onde se encontram «Livros e cadernos de termos de fianças» que cobrem um período longo, de 1812 a 1861.
Quando em 1852 - era Ministro da Fazenda Fontes Pereira de Melo - é lançado um Inquérito ao estado destas instituições, este revelou que a situação económica e financeira das 53 ainda existentes era, salvo casos excepcionais, de relativo abandono ou mesmo de falência (existiam, tão só, 144.000 alqueires de cereal concentrados em 6 ou 7 instituições). No Distrito de Lisboa, só o Celeiro de Alenquer evidenciava estar a funcionar.
Consultadas as actas da Câmara de Alenquer, verifica-se que em 1868 é arrendado pela primeira vez o andar térreo do edifício, sendo este um primeiro sinal de que nem tudo ia bem. Depois, em 1875, é arrendado, também pela primeira vez, todo o prédio. Este facto afigura-se-nos como uma verdadeira certidão de óbito da instituição Real Celleiro de Alenquer.
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Mas, para além da sua função como Celeiro, o edifício conheceria outras vidas. Em 1887 a Câmara aprova planta e orçamento para adaptação do edifício a Escola, conforme sugestão da Junta de Paróquia de Triana, vindo esta a funcionar a partir de 1889. Esta Escola conheceria longa vida, até aos ao início dos 70 do século seguinte, quando, então, foram construídas as actuais junto à antiga fábrica da Chemina.
Estando o edifício devoluto quando da Revolução de Abril de 1974, foi o mesmo transformado em «quartel-general» da ex-oposição ao regime caído, que, nesse espaço e por alguns meses aí se reuniu para seguir e tomar posição quanto às mudanças revolucionárias que o momento exigia. Depois, à medida que os Partidos iam abrindo os seus centros de trabalho na vila e os democratas das mais variadas tendências iam tomando Partido, o edifício ficou de novo deserto. Foi ainda aí que, o Partido Comunista Português, única força política organizada saída da clandestinidade, reuniu os seus militantes para as duas primeiras reuniões em Liberdade, as quais foram conduzidas pelos dirigentes António José Veríssimo - que viria a ser o primeiro presidente da Câmara de Vila Franca de Xira - e Francisco Fernandes de Torres Vedras.
Passado pouco tempo, o edifício viria a ser sede da Cooperativa Colóquio que reunia muitos jovens dedicados as actividades culturais como o Cineclubismo, o Teatro e a Música. Durante algum tempo foi, assim, o velho edifício do Celeiro, também sala de teatro e de outras actividades ligadas à cultura. Quando os pavilhões pré-construídos do Ciclo Preparatório que funcionou junto ao parque das Tílias ficaram devolutos, para aí se mudaria a Cooperativa Colóquio.
Foi então que, passado algum tempo, o edifício do Celeiro se tornaria sede e sala de ensaios do Rancho Folclórico de Alenquer que, para a mesma finalidade, já havia utilizado as instalações da SUMA na Arcada e o devoluto edifício do Matadouro. Aí ficaria o Rancho de Alenquer até à sua transferência para as actuais instalações na Romeira.
Transcorrido mais um longo período em que o edifício se ia degradando a «olhos vistos», a sua sorte mudaria, definitivamente em 2006, quando após obras notáveis de reabilitação, se tornou naquilo que é hoje: Portal da «Rota dos Vinhos do Oeste» e Museu do Vinho.
- BIBLIOGRAFIA:
Graça, Laura Larcher, Propriedade e Agricultura: Evolução do modelo dominante de sindicalismo agrário em Portugal, Lisboa, Conselho Económico e Social, 1999.
Henriques, Guilherme João Carlos, A Vila de Alenquer, fac-simile da Edição de 1902, Arruda, Arruda editora, 2002.
--- As Invasões Francesas in Damião de Goes, n.ºs 174/180, Alenquer, 1889.
Rita, Fernando Manuel da Silva, Os Exércitos de Massena e Wellington no Concelho de Santarém (1810-1811), Lisboa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2010, Dissertação de Mestrado em História Regional e Local.
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- Ainda, os meus agradecimentos ao Dr. Filipe Soares Rogeiro e Dr.ª Paula Teixeira do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Alenquer, pela disponibilização dos apontamentos por eles coligidos a partir do acervo documental aí depositado, relativo ao Celleiro Real e às Actas da Câmara, tendo em vista a montagem da exposição que então teve lugar quando das comemorações.





