05 dezembro, 2014

AS PONTES QUE ALENQUER TEVE...




2) A PONTE DO "AREAL", DO "ARRAIAL", DE "TRIANA" OU DO "ALÃO"

Até 1934 a Rua de Triana terminava aqui, no Largo das Formigas. Ao fundo do largo nasceria a Avenida Jaime Ferreira, aberta nesse ano, no local conhecido como Horta das Formigas. Olhando o postal acima, lá está a ponte de "Triana" (nome que lhe dá Guilherme Henriques na sua obra "A Vila de Alenquer") ou do "Areal". Menos comum é a denominação do "Arraial" que, todavia, já encontrámos em mais do que um documento, Esta ponte ligava à Rua Lafaurie para sul e à Rua Serpa Pinto para norte, uma artéria que chegou a acolher muitas casas de comércio.


Nesta fotografia de 1888 (estava em construção o edifício dos Paços do Concelho), temos uma vista da ponte a partir de cima. Frente a ela a casa que pertenceu à família Costa Alves, a que foi oficina de ferrador de José Lérias e a de Fernando Luís Fernandes "Açorda", esta última  (já no século seguinte) de reparação de automóveis. Por outro lado, é interessante verificar como a igreja da Várzea se encontrava liberta de construção à sua volta e como o edifício da "Fábrica de Papel" ainda mantinha a traça original, por pouco tempo, pois em breve passaria a fábrica de lanifícios (do Ferreira, industrial lisboeta) e sofreria obras de adaptação. 


Este postal, mostra-nos a ponte de "Triana" nos seus últimos anos e, em primeiro plano, a levada de água para a Fábrica de "Lafaurie", do "Meio" ou da "Companhia" nomes porque foi conhecida. A sua construção, muito antiga, era já um problema quando ocorriam cheias, uma vez que os seus arcos constituíam um problema para o escoamento das águas.
Falando da sua antiguidade, Guilherme Henriques é de opinião que a construção seja posterior ao reinado de D. Dinis, já que ali perto se situavam as "passadeiras" utilizadas pela Rainha Isabel, sua esposa, quando pretendia ir à Igreja de "Nossa Senhora d'Assumpção de Triana".
Esta ponte começou a ser demolida em 1946 e em 1948 estavam em construção as novas avenidas previstas nos Planos de Rectificação do Curso do Rio e de Urbanização da Baixa lançados pelo Engº Duarte Pacheco. obras concluídas no início dos anos 50.


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Precisamente nos anos 50, encontramos um pouco mais abaixo uma ponte pedonal em madeira, a qual, passados alguns anos, viria a ser substituída por uma outra de betão, um tudo nada mais larga. Esta última, já conhecida como ponte do "Alão" - nome retirado do café ali próximo que entretanto abrira com muito sucesso (era o único estabelecimento em Alenquer que vendia fiambre!) - viria a ser destruída quando da trágica cheia de Novembro de 1967, quando nela embateu uma máquina que pesava toneladas, proveniente da fábrica de papel, a qual havia sido arrastada pelas águas apesar do seu colossal peso. Na sequência do seu desaparecimento foi construída a ponte que hoje conhecemos.

27 novembro, 2014

AS PONTES QUE ALENQUER TEVE...

DAS "ÁGUAS" A "SANTA CATARINA"

Quatro pontes tem a vila de Alenquer que encontramos mencionadas nos documentos mais antigos. Seguindo o curso do rio, de montante para jusante, são elas: a da "Couraça" ou das "Águas", a do "Arraial", do "Areal" ou do "Alão", a do "Espírito Santo" e a de "Santa Catarina". 
Uma outra é ainda mencionada, a do "Barnabé" ou de Pancas, mas como essa se situa já fora da vila, dela não falaremos por agora.

(1) A PONTE DA "COURAÇA" OU DAS "ÁGUAS"
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A "Ponte da Couraça" assim chamada por se situar perto da "Torre da Couraça" ou das "Águas" por se situar, igualmente, no "Sítio das Águas" caracterizado por ser lugar de muitas nascentes de água que espontaneamente irrompem do subsolo ou mesmo no fundo do rio, era (e é) porta de entrada para o Bairro do Areal, freguesia de Santa Maria da Várzea. Perto de si, como se pode ver no postal reproduzido, situa-se a "Torre da Couraça", peça do nosso património na qual estudos antigos (e pouco aprofundados) identificaram dois níveis de construção: um inferior e mais antigo que remonta à presença dos mouros na vila e um segundo, mais recente, levado a cabo no reinado de D. Fernando quando se procurou dotar a vila e o seu castelo com um perímetro defensivo mais eficiente e inexpugnável, como o comprovaria o Mestre de Avis nos cercos que lhe pôs.
A construção que vê no cimo da Torre, hoje já não existe, e pertenceu à Real Fábrica de Papel. No período em que os Paços dos Concelho estiveram em construção aí funcionou a Câmara e demais serviços público. Mais tarde, já na primeira metade do século XX, nela funcionou o consultório médico do Dr. Moura Gomes.
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Por ela se acedia, também, à parte alta da vila, passando pela Porta do Carvalho ou Porta da Conceição, uma das duas portas principais da vila amuralhada. Por outro lado, em finais do século XIX,  já havia acesso ao Alto da Boavista pela hoje conhecida Estrada do Pedregal. Curiosamente, o estado do tabuleiro da ponte quando esta fotografia foi tomada, evidencia ter a água do rio passado por cima dela (depositando lixo), facto muito comum, já que, olhando o postal abaixo, os arcos em que assentava dificultavam o fluir das águas.
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A fotografia que serviu para este postal oferece uma boa perspectiva do Ponte. Foi a mesma tirada mostrando o açude da Real Fábrica de Papel (que passou a fábrica de lanifícios em 1890) a transbordar. A minha geração (e outras anteriores) chamavam a este local o "Olho de Água" e aqui aprendemos a nadar, para desespero e cuidado dos nossos pais. Do açude ao fundo, tal como ele se apresenta e dependendo do grau de assoreamento do rio, mediavam 3/4 metros, coisa pouca para a brincadeira de tocar nos olhos de água que rebentavam lá em baixo levantando areia e atraindo peixes. Já a ponte, era local para mergulhos, de "pés para a frente" ou de "cabeça para a água" os mais afoitos. Do açude até à ponte abria-se uma extensa "piscina" que todos faziam em decididas braçadas. Os mais novos, quando por lá apareciam, depressa perdiam o medo, pois eram atirados à água... sob o olhar vigilante dos bons nadadores.
Sobre esta ponte escreveu Guilherme João Carlos Henriques:
«Também conhecida por Ponte da Fábrica de Papel, é aquela que atravessa o rio ao pé da torre da couraça. Parece que deve ser considerada a mais antiga da vila, porque a escritura de doação da azenha da Azinhaga declara que a ponte próxima (a de Santa Catarina), chamava-se, em 1219, a ponte nova o que indica que havia outra ou outras mais antigas (...) é provável até que seja coeva com a torre, porque é de presumir que,, tendo os mouros tamanha fartura de pedra na encosta em frente, fariam a ponte para facilitar a condução».

                                                                                                                      (Continua)

03 novembro, 2014

A IGREJA DE SANTA MARIA DA VÁRZEA

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- Igreja da Várzea, inserida no Bairro do Areal, na actualidade.

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FUTURO "MUSEU DAMIÃO DE GÓIS E DAS VÍTIMAS DA INQUISIÇÃO"

Na próxima quinta-feira, dia 6 de Novembro, Alenquer receberá a visita do senhor Embaixador da Noruega, o qual, no Salão Nobre do Paços do Concelho, assistirá à apresentação do projecto que transformará a Igreja da Várzea no futuro "Museu Damião de Góis e das Vítimas da Inquisição", projecto esse generosamente financiado pelos noruegueses, após ter sido um dos eleitos entre quantos foram propostos, para o efeito, pelos municípios portugueses que fazem parte da "Rede das Judiarias".
A actual igreja, dessacralizada, é propriedade do município que, há alguns anos, a adquiriu à Diocese de Lisboa, por uma verba, digamos, simpática, visando a sua musealização, oportunidade que só agora surgiu. Durante esses anos de espera, sofreu uma intervenção do antigo IPPAR que lhe proporcionou um novo telhado, obra que na altura se me afigurou de qualidade e bem executada. A intervenção está prevista e orçamentada para o ano de 2015.
Mas, que memórias guarda o vetusto edifício?



Recorrendo ao meu modesto "banco de imagens" esta é a gravura mais antiga que conheço e apresenta o edifício em muito mau estado. Esta gravura, da revista "O Ocidente", foi publicada por Guilherme João Carlos Henriques no seu livro "A Vila de Alenquer", assim como a reprodução de uma obra de Ribeiro Cristino, de data posterior, que a mostra já recuperada, conforme se mostra abaixo.


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- Fragmento de uma gravura de Cristino (anterior a 1870) mostrando o Bairro do Areal onde se situa a igreja da Várzea.

São muito antigas as referências à paróquia de Santa Maria da Várzea e à sua Igreja. Henriques diz que é tradição que o templo original tenha sido edificado pela Infanta Santa Sancha (a mesma que deu à vila a primeira 'carta de foral') e que, «em 1203 já havia prior dela que foi juiz apostólico na causa contra o bispo da Guarda, D. Martinho», donde se infere ser a paróquia anterior ao templo, porque só em 1212 D. Sancha tomou posse da vila.
Já o Prior da Várzea, João Silveira, nas "Respostas" de 1758 escreve que «a Igreja, Colegiada e Paroquial de Santa Maria da Várzea desta vila de Alenquer, se não é a primeira em antiguidade entre as cinco da dita vila, é certamente a segunda (...) e já era paroquial no ano de 1220».
Jogando pela certa, João Pedro Ferro em "Alenquer Medieval" diz-nos que a referência mais antiga a esta freguesia ou paróquia respeita ao ano de 1239, nisso coincidindo com Henriques, quando este último acrescenta que «há também prova indiscutível que a igreja existia em 1239 na carta de venda pela qual a Infanta D. Constança Sanches comprou em Junho daquele ano uma vinha(...)».

- Alenquer quinhentista numa reconstituição (a partir de documentos) de Mestre João Mário - 11 - Igreja da Várzea.
1- Torre de Menagem; 2-Porta da Vila ou de Santo António; 3- Porta do Carvalho e mais tarde da Conceição; 4 - Postigo na muralha que dava para a encosta; 5-Convento de S. Francisco; 6-Igreja de Santiago junto da qual se situava a porta da traição; 7-Igreja de Santo Estêvão no séc. XIX Aula Conde de Ferreira; 8-Igreja de S. Pedro; 9-Ermida de S. Sebastião; 10-Torre da Couraça; 12- Triana; 13- Passadeiras da Rainha; 14-Moinho de papel de Manuel Teixeira.


No final do século XV o templo ardeu - a capela-mor escapou ao incêndio - sendo atribuída à vizinha comunidade judaica a autoria do sinistro. Condenada em processo que lhe foi levantado, foram os judeus da vila obrigados a custear a reconstrução do templo, após o que foram expulsos de Alenquer. É pois este infeliz episódio que liga essa comunidade à história deste templo, procurando-se agora, quando se vai proceder à sua musealização, prestar-lhe justiça assim como às muitas vítimas da Inquisição que por cá caminharam para as masmorras do 'Santo Tribunal'. O cemitério judaico, situava-se em baixo, junto ao rio, nos terrenos camarários onde outrora existiu a 'Fábrica de Papel e Cartão da Ota' (porquê da Ota, perguntam muitos, sendo a resposta simples: houve um erro de identificação do rio, que não é o Ota, mas o Alenquer). Em documentos do século XVIII/XIX, esse terreno aparece identificado como 'Adro dos Judeus'.



Na segunda metade do séc. XVI, estando o templo em muito mau estado de conservação e tendo caído a capela-mor, foi este beneficiado por Damião de Góis que mandou reconstruir a dita capela para aí ser sepultado. O grande humanista ofereceu ainda à vila, e particularmente à Várzea, paramentos, vestes cerimoniais, obras de arte, figuras sacras, etc. De grande valor era um retábulo com portas de Mestre Quintino Matsys, e um quadro de Jeronymo Bosch intitulado "A coroação de Nosso Senhor Jesus Cristo", obras que se supõe terem sido saqueadas pelos franceses aquando das Invasões.
Em finais do séc. XIX encontrava-se o templo, de novo, em completa ruína (o terramoto de 1755 também deve ter contribuído para isso), pelo que foi demolido e reedificado. Do templo anterior, ficou a torre sineira. Este processo parece ter sido lento e moroso, mas, certamente, terá devolvido o templo ao culto. Todavia, eu que nasci em 1947, desde criança que me lembro de o ver fechado e arruinado, ostentando sobre a porta da sacristia uma placa com o escudo da República e os dizeres Junta de Paróquia de Triana.


Hoje é este o estado da Igreja da Várzea, em vésperas da sua requalificação como Museu. O alçado fronteiro apresenta-se assim, como que enterrado, porque, entretanto um arruamento foi construído. 
Uma última nota: aqui fizemos um sucinto historial deste templo a partir de fontes bem conhecidas. Todavia, quem se interessar pelo tema e quiser aprofundar estes dados, aconselhamos a leitura dos textos de Joaquim de Vasconcellos e de Guilherme João Carlos Henriques publicados no "O Archeologo Português" - S. 1 - V. 4 (1898) , n.º 1 a 6 e n.º 10 a 12, textos que deram corpo a uma acesa polémica que aí mantiveram. Também com algum interesse o nº 834 de 1902 da Revista "O Ocidente" que dá grande relevo ao IV Centenário de Damião de Goes. 
Depois, há toda a história ligada à transferência da capela de Damião de Goes para a Igreja de S. Pedro, quando se pensou que a Várzea ia cair e o melhor seria salvar o que de mais relevante ela continha: a capela e os ossos do humanista e de sua esposa. Em 1941 a capela foi, mas os ossos verdadeiros ficaram... Encarregue desse trabalho, o arqueólogo Hipólito Cabaço, pressionado pelo tempo e pelo regime, lá enviou umas ossadas, as quais, só muito recentemente, num interessante trabalho multidisciplinar, foram descartadas como pertencendo ao ilustre alenquerense. Esse facto levou a trabalhos arqueológicos, coroados de êxito, com a descoberta do carneiro de Damião e de meia dúzia de fragmentos ósseos que haviam escapado à cal. Um dos principais rostos dessa equipa multidisciplinar foi o Arq. Fernando Ferreira, autor de "Intervenção Arqueológica na Igreja de S. Pedro (Alenquer) in "Olissipo": Boletim do Grupo de Amigos de Lisboa, Lisboa, II Série, n.º 19, Julho/Dezembro de 2003, pp 29-47 e "Causas da Morte de Damião de Goes", Alenquer: Câmara Municipal, 2006.

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Nota: Depois de publicado este post recebi da minha amiga Alexandra Roldão o link para os Cadernos Gráficos do grande aguarelista (e também pintor e desenhador) que foi Roque Gameiro (1864-1935), na homepage de Alfredo Roque Gameiro. Aí estão alguns desenhos ou esboços feitos pelo artista quando de uma sua passagem por Alenquer e Carnota
Por considerar de todo o interesse mais este testemunho sobre o estado da Igreja da Várzea, em 1896, abaixo o publico, acompanhado do meu sincero agradecimento à amiga que no-lo deu a conhecer:

- A Igreja da Várzea em 1896, vista por Roque Gameiro.


26 maio, 2014

EUROPEIAS 2014

NIM EUROPA, NIM PORTUGAL...


 Será que o projecto europeu tal como foi originalmente concebido, ou seja, sem as distorções introduzidas nos últimos anos, particularmente aquelas que a visão política da sr.ª Merkl e apaniguados lhe introduziu, saiu comprometido das eleições ontem disputadas? O soçobrar da social-democracia europeia, corrente política que marcou pela positiva o nascimento e desenvolvimento desse projecto que se queria solidário e humanista, nas águas lamacentas do capitalismo (até Marx já deu sinais de se estar a erguer da tumba) fazia temer o pior. Mas esse "pior" aconteceu ontem?
Nim. É certo que importantes forças anti-europeias, neste ou naquele país, cresceram preocupantemente utilizando como veículo os partidos de extrema-direita, euro-cépticos ou mesmo anti-projecto de uma Europa unida nesta organização que se dá pelo nome de CE. Mas também não é menos certo que os piores cenários não se verificaram. Estamos no pântano, mas (ainda) não submergimos.



 Na noite de ontem, às 22 horas, quando os staffs partidários tomavam posição para enfrentar o que aí vinha, um amigo ao meu lado promonitoriamente sussurrou: «Pronto. Ganharam todos». Nem de propósito, pois pela boca da representante do "Bloco de Esquerda" logo tivemos a confirmação desse aforismo eleitoral: «Conseguimos os nossos objectivos [vitória!], elegemos 1 deputado». Depois foi o costume... Mas, como militante do Partido Socialista, não posso deixar passar em branco (e com mágoa o faço), a desorientação que grassou nas hostes inseguras do António José Seguro, lançando ao vento conclusões absurdas face aos resultados verificados, os quais, sem sombra de dúvida, personificaram a vitória mais desgraçada jamais vivida na casa cor de rosa.
Saída da habitual avalanche de comentadores, a frase que me soou mais ajustada ao momento que se vivia, acabou por ser aquela (do Marcelo Rebelo de Sousa?) que nos colocou perante «uma derrota histórica da AP (PPD/CDS), à qual não correspondeu uma vitória histórica do PS». 
Partidariamente, que mais nos trouxe este acto eleitoral? A vitória do Marinho Pinto que ainda não chegou a Bruxelas e de quem já se fala para as legislativas e para as presidenciais (não sei se ficará por aí ou se terá uma carreira galáctica); uma força anti-europeia, o PCP, que cresceu, um Livre que não "saiu da casca" e um Bloco de Esquerda em dolorosa agonia.
Mas, até agora, só falámos do Portugal que votou, e fazendo-o não tirou do bolso o cartão vermelho, nem tão pouco o amarelo, para o mostrar ao governo. Um nítido "Nim" que deixa tudo na mesma, entenda-se, campo livre ao governo para continuar a sua política anti-popular e anti-nacional. Estou em crer que a anunciada (pelo PCP) moção de censura, tão só lhe vai arranhar o testículo direito, porque quanto ao resto, iremos ter mais do mesmo: mais impostos, mais cortes, mais...


Mas - esse sim é o facto mais relevante - foram às urnas menos de 1/3 dos portugueses e, entre os que o fizeram, ainda há que levar em conta os que votaram em Branco ou Nulo. Podemos entender isso como uma atitude política? Duvido. Estamos perante uma «ruptura democrática», do tipo (ou não) da que Manuel Alegre vaticinou? Ou, como disse o Alberto João, perante um sinal evidente de que o país precisa de um novo regime e de uma nova Constituição (e já agora de um artigo na nova Constituição que inviabilize o aparecimento de novos Albertos Joões)?
Uma última pergunta, esta aos vencedores: Com 31%, 12,7% ou 6 qualquer coisa por cento dos 34% de votos expressos não têm pudor em falar de vitória?

Em Alenquer os resultados foram os do quadro abaixo:










16 maio, 2014

CONVENTO DE S. FRANCISCO, DE ALENQUER


OS CLAUSTROS DO CONVENTO
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- O Convento de S. Francisco fotografado de um ângulo pouco usual (do alto do Ventoso, subindo o ribeiro de S. Benedito). A norte o cemitério, antiga cerca do Convento, terminando no Mazagão ou Barroca. No vale fronteiro, a vila emerge por entre os montes que a comprimem. 

Edificado no mesmo local onde a Rainha D. Sancha, filha de D. Sancho I e donatária da vila, teve o seu paço, o Convento de S. Francisco da vila de Alenquer não passa despercebido a quem visita a vila. Hoje é consensual que terá sido a primeira casa dos franciscanos em Portugal e são de Frei Manuel da Esperança (séc. XVII), primeiro cronista da Ordem, as palavras que transcrevemos e que tão bem nos dão conta da sua localização:
«Pelo que temos escrito se poderá entender a correspondência, que faz este convento à vila. Está fundado junto dela em lugar superior na ladeira de um monte, que, sendo íngreme, neste sítio lhe ofereceu uma planície capaz de seus edifícios. Aqui desta eminência senhorea a mesma vila, recompensando-lhe sua humilde sujeição com uma majestuosa formosura. Participa nos ares muita benevolência do céu, e sem cobiçar cousa alguma da terra, põe os olhos ao perto em uma ribeira fresca, e ao longe vai descobrindo tantas terras aquém, além Tejo, que a vista cansada com estas grandes distâncias não lhes pode dar alcance».
A edificação desta casa por Frei Zacarias e Frei Gualter, discípulos de S. Francisco de Assis, remonta ao já distante ano de 1222, embora os piedosos frades tivessem chegado a Alenquer em 1216, instalando-se primeiro na velha ermida de St.ª Catarina onde construíram «umas celinhas térreas e pobres com algumas oficinas e o coro para louvarem a Deus». 

- Pormenor dos painéis de azulejo que ornamentam a portaria.

Acede-se ao Claustro pela Portaria que se abre no cimo de uma escadaria que tem o seu começo junto ao Pórtico da Igreja (classificado como monumento nacional). Um alpendre recente, porque do original já se perdeu a memória) protege o que resta dos painéis de azulejo do séc. XVIII, o da esquerda historiando  a Aparição dos Santos Mártires de Marrocos à Infanta D. Sancha e o da direita, em melhor estado de conservação, representando o Êxtase do Beato Zacarias perante o Senhor crucificado que lhe falou. Olhando a parte inferior dos painéis veremos paisagens idealizadas ao gosto da época.

- Vista parcial dos Claustros

Poder-se-à dizer que o Claustro é o centro da vida monástica, daí se acedendo a todas as dependências do Convento. No caso presente, o espaço claustral e belo e muito amplo, com trinta e quatro metros de lado. O piso inferior, ou galeria, abre-se em arcos suportados por duas colunatas cujos capitéis estão trabalhados com motivos florais. Nesse piso, por norma situavam-se o refeitório, a cozinha, a casa capitular e outras dependências como a livraria, o lavatório, etc. Nos piso superior, ficavam os dormitórios.
O nosso claustro é manuelino, construído no reinado do nosso Rei D. Manuel, logo sobrevivente ao grande terramoto de 1755 que causou grandes danos no Convento e na Igreja. Prova dessa origem encontramo-la, por exemplo, nos ângulos interiores decorados com elementos característicos da época, como por exemplo a esfera armilar.

- Portal gótico, um dos poucos sinais visíveis da construção original medieva.

Vindos da Portaria, cortando à esquerda e percorrendo essa galeria, encontraremos a porta acima que comunica com o coro, como nos explica Frei Manuel Esperança: «(...) Saindo do coro, e caminhando à mão esquerda pelo claustro para a parte da capelo mor (...) Dobrando daqui a outra quadra do claustro, encontraremos logo a casa do capítulo».
E assim acontece. Mas antes de lá chegarmos ainda encontraremos a porta abaixo representada, hoje fechada e ornamentada com uma pedra de armas...


... assim como «a um canto do claustro inferior, um altar (abaixo) com uma inscrição», ladeado de duas pedras com inscrições.


A inscrição diz o seguinte: «Todos os anos no seu dia tira N. P. S. Francisco seus filhos do purgatório». Já as pedras, uma das quais se mostra abaixo, têm inscrito (a da esquerda): «O devotissimo P.e Frey Cristovão da Conceição celebre por fama de Santidade e milagres passou d'esta vida a 12 de dezembro de 1649 foi achado seu corpo o peito e o coração incorrupto e cheiro suave e trasladado a este logar anno de 1653». Enquanto a da direita tem gravado: «O veneravel Frey António de Xpõ avendo passado quarenta annos de contínua e rigorosa penitencia ornado de muitas e exemplares virtudes acabou seu curso com grande opinião de Santo a 31 de maio de 1636 annos. Foi trasladado á este logar no de 1653».



- Nas galerias claustrais encontraremos várias pedras tumulares. Achámos esta interessante por se referir a um irmão da Ordem do Templo (assim nos parece).

A CASA DO CAPÍTULO

- Portal manuelino da Casa do Capítulo


- Pormenores do portal manuelino da Casa do Capítulo.

- Junto ao portal manuelino vestígios góticos do antigo convento colocados a descoberto quando de umas obras.

Ricamente trabalhado ao estilo manuelino, o portal da Casa do Capítulo apresenta uma «decoração vegetalista onde brincam pássaros, leões e pequenos bambinos». Por curiosidade, diga-se que este convento foi escolhido para aqui se celebrarem nove Capítulos da Ordem Franciscana, nos anos de 1468, 1486, 1545, 1581, 1689, 1702, 1706, 1709 e 1713. Sobre esta casa, situa-se a Capela de Santa Sancha.


Atravessando o jardim interior dos Claustros encontramos este poço que comunica com um gigantesca cisterna que ocupa abaixo do solo (por isso é cisterna...) grande parte do espaço descoberto.

- O Relógio de Sol.

Sobre o canto NO, vislumbraremos outro dos grandes motivos de interesse destes Claustros: o Relógio de Sol oferecido por Damião de Góis, em «mármore fino de Génova» e datado de 1558 (diz-se que teria sido oferecido em 1557, algo não bate certo). 

CAPELA DA FAMÍLIA MIRANDA HENRIQUES

- Capela renascentista da família Miranda Henriques.

- Pormenor do tecto da capela

-Pormenor do arco de entrada da capela.

Quem entrar pela Portaria e seguir em frente pela galeria claustral que se abre perante si, primeiro encontrará uma pequena capela que foi da família Miranda Henriques. O arco de entrada, trabalhado, é interessante pelos seus motivos ditos grotescos e está encimado pela pedra brasonada da família fundadora, assim como pelo que resta de um painel de azulejos.
O tecto é abobadado, apresentando nervuras e florões, bem como um escudete heráldico. Os motivos são renascentistas e os azulejos sobrantes do séc. XVIII.

REFEITÓRIO DOS FRADES

- Refeitório dos frades


- Pormenor exterior do refeitório

De nave única e bem alta e com a parede (a fronteira à entrada) revestida a silhares de azulejo, vendo-se ao centro a escada embebida no muro e o púlpito do leitor, interessante trabalho em pedra, assim se nos mostra o refeitório. Até há bem pouco tempo serviu de arrecadação, mas, quando por lá passámos, preparava-se para receber obras. À esquerda, tem duas janelas (fechadas) que comunicam com a cozinha conventual.

-Porta da cozinha.

-Pormenor do arco superior da porta

A cozinha deverá ser outra dependência interessante desta casa conventual, mas não está acessível, pelo que nos ficaremos por um dos pormenores mais intrigantes da mesma: a sua porta de entrada. Como é bem visível toda ela está construída e trabalhada de forma enviesada. Desconhecemos os motivos e não conhecemos outra semelhante. Um desafio ao saber ou imaginação do visitante.
Aqui, como na arquitectura das casas cistercienses, refeitório e copa encontram-se na ala contrária à igreja.


Terminada a visita olhamos para cima, para o galo que do alto da torre sineira nos espreita. Pensamos que este é todo um conjunto arquitectónico que enobrece a vila de Alenquer e que, sendo propriedade da Misericórdia (e da Paróquia), muito poderá trazer de valioso aos desígnios turísticos da vila.


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A PROPÓSITO:


COLÓQUIO - OS FRANCISCANOS EM ALENQUER

Memórias para a história do primeiro Convento da Ordem em Portugal

AMANHÃ, SÁBADO 17, PELAS 15,30 HORAS
PAÇOS DO CONCELHO DE ALENQUER
COM
PADRE VÍTOR MELÍCIAS E FREI HENRIQUE REMA

24 abril, 2014

1974 - 2014 40 ANOS DE LIBERDADE



Já não se trata de festejar Abril. A contragosto de alguns, os mais poderosos, Abril cumpriu-se. Do que se trata agora é de afirmar, como cidadãos, que exigimos ser respeitados, de lembrar aos que governam que o devem fazer a pensar em nós, nunca neles, muito menos nos que lá fora nos impõem uma "solidariedade" paga a peso de ouro. Para isso, este é um bom dia, porque nos recorda, nas palavras de Sofia,

O dia inicial inteiro e limpo
onde emergimos da noite e do silêncio
e livres habitamos a substância do tempo

A todos desejo um bom 25 de de Abril. Um dia da Liberdade alegre e de luta, porque não desistimos do amanhã que nos pertence!

16 abril, 2014

A ALENQUER DOS ANOS 60



A PROPÓSITO DE UMA ENTREVISTA COM ALDO PAVIANI...


A revista "Finisterra", editada pelo Centro de Estudos Geográficos, no seu .º 5 dado à estampa em 1968, trouxe um trabalho assinado por um geógrafo brasileiro, Aldo Paviani, intitulado "Alenquer, aspectos geográficos de uma vila portuguesa".
Sobre Aldo Paviani nada vos direi, ou melhor aconselho-vos que na minha lista de blogues (ao lado) procurem aquele que se intitula "Plano de Reordenamento da Baixa de Alenquer", abram-no e lá encontrarão tudo sobre ele numa oportuna e excelente entrevista que lhe fez o meu jovem amigo Frederico Rogeiro, que tão bem nos anda a ensinar como "olhar" para esta nossa linda vila tão necessitada de carinho.
Só que essa sua entrevista (bem lembrada!), levou-me de volta aos anos 60 da minha juventude e da Alenquer de então, pois como lhe escrevi, o trabalho de Paviani dá-nos conta da Alenquer que o tempo e a mão do homem moldaram, mas, principalmente da Alenquer que ele conheceu em 1967, a Alenquer que havia sofrido as terríveis cheias de Novembro desse mesmo ano. Imprescindível, pois, ler a entrevista do Frederico Rogeiro, a qual, em parte, irá ser publicada no "Nova Verdade", mas que está reproduzida na íntegra no seu blogue aqui citado.


Olhando estes postais de então, certamente diremos: «Não está muito diferente, nos dias de hoje...». Eu direi: «Não sei se está melhor...». Mas há diferenças. Olhem, não há tanta construção e se repararem com atenção, notarão algumas dessas diferenças. Por exemplo, acima, no canto inferior direito, quantos ainda se lembram dos armazéns da FNPT (Federação Nacional de Produtores de Trigo? Havia quem dissesse: "F.... não posso trabalhar", os malcriados, já se vê...). Fizeram-se lá festas e bailes. E a seguir ao mercado: a casa da palmeira onde moraram os meus amigos Alfredo e Luís Ferraz, Reparem ainda na Chemina a laborar e mais adiante o Parque Vaz Monteiro recém-modernizado pelo presidente João Mário. Na Vila Alta, notarão a falta de muitas construções.


Neste outro postal, vê-se ainda melhor o Parque Vaz Monteiro e a Chemina, enquanto à direita as escolas ainda não tinham nascido. Mas, o que é óbvio, é a falta de carros nas avenidas e largos. Sobre a colina, ao fundo, ainda não tinha irrompido na paisagem aquela "jabardice" do Brandão que deveria ser implodida. Ao lado esquerdo, olhando, lá está a velha estância do Correia que haveria de dar lugar ao edifício da CGD e do outro lado da rua Triana, a fábrica/oficina de móveis do Adriano Graça que desapareceu para dar lugar ao novo edifício que ocupa todo aquele espaço. Ao início da Rua dos Guerras nota-se que o prédio do João Mário ainda não havia sido construído.
Meus amigos, esta é uma Alenquer a preto e branco, bonita sem dúvida, mas a preto e branco. Todavia acredito e peço-vos que acreditem também, que haveremos de ter a Alenquer colorida com que sonhamos. Porque quem acredita sempre alcança!